Em cidades grandes e pequenas, em dias de sol ou chuva, não é difícil encontrar menores em meio a carros e sinaleiras. Para reverter a situação existem pessoas que trabalham para retirar essas crianças das ruas em Passo Fundo
A cultura do dinheiro fácil sempre cativou milhares de pessoas pelo Brasil e no mundo. As esmolas, cada vez mais, alimentam um grave problema social e não é de hoje que crianças são levadas a pedir miseráveis moedas no centro da cidade.

Segundo dados da Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social de Passo Fundo, Semcas, nos últimos três anos foram identificados mais de 400 menores em situação de vulnerabilidade nas ruas da cidade. O coordenador de abordagem, Mauro Antônio Moreira, diz que a maioria das crianças que estão hoje nas ruas já tiveram ajuda da Semcas, mas voltaram às calçadas. “O problema é que mesmo com os auxílios que prestamos os menores decidem voltar para a rua”. Moreira ainda salienta que todo o mês são abordadas, aproximadamente, sete crianças em praças, avenidas e sinaleiras da cidade. A equipe técnica da Semcas também identifica quais os motivos que levaram o menor a estar na rua. “Cada caso é um caso na área social. Verificamos o que a criança está fazendo nas calçadas e o que leva ela a estar nessa situação”. Para Moreira a maior preocupação é que, na maioria da vezes, os menores ficam expostos a vários riscos. “Nos tira o sono saber que inocentes estão junto de usuários de álcool e drogas”. Existem vários programas para conscientizar a população que não dê esmolas, como a campanha “Gestos valem mais do que esmolas” que mostra que se a sociedade contribuir até com algumas moedas, a criança terá incentivo para ficar na rua.
A situação de rua pode trazer consequências sérias aos pais que induzem os menores a pedir esmolas, como explica o juiz da Infância e da Juventude de Passo Fundo, Dalmir Franklin de Oliveira Júnior. “Os pais que induzem as crianças a pedir esmolas são punidos por processos de abandono material, além de pagar multa e perder a guarda do menor, já que as crianças não podem trabalhar”. Júnior salienta que ainda não existe nenhuma lei que impeça as pessoas de contribuir com dinheiro, mas ele lembra que nem sempre as moedas são bem utilizadas. “O dinheiro, na maioria dos casos, não é destinado às crianças. Ele é para os pais que são viciados em álcool e drogas”. O juiz não deixa de citar que quando o dinheiro é conseguido muito fácil, os menores tendem a começar a praticar vários crimes. “Lamentavelmente percebemos que essas crianças praticam furtos e podem se tornar violentas, porque é o que elas vêem na rua”.

Mas não é apenas o juizado que trabalha para reverter o problema. O conselho tutelar atua no acompanhamento e proteção de crianças e adolescentes. A conselheira tutelar de Passo Fundo, Eva Miranda, diz que é comum os pais obrigarem os filhos a ficarem em sinaleiras e pedindo dinheiro. “Já tive casos em que adultos iam junto e ficavam segurando as crianças no sinal para elas não sairem de lá”. Miranda explica que em outros casos, as próprias crianças vão para as calçadas da cidade sem o consentimento dos pais e porque gostam. “O problema é que a rua fascina, nela não há ordens, não existe horário para tomar banho e nem precisa ir para a escola”. A conselheira tutelar afirma que onde existe uma criança em situação de rua, podem haver mais, pois já teve ocorrências em que vários menores de uma mesma família pediam dinheiro em diferentes pontos da cidade. “É mais comum do que parece ter três, quatro e até cinco crianças da família em situação de vulnerabilidade”. Eva Miranda ainda faz um apelo. “As vezes as pessoas pensam que dando esmola estão contribuindo para o bem da criança, mas não estão. Liguem e denunciem através do número 3312 3699, podem até ligar a cobrar, pois o que queremos é diminuir o número de crianças que trabalham na rua e estão expostas a diferentes perigos a cada dia.
A esmola é o que mantém crianças e adolescentes nas ruas. Além de não ajudar, a prática dificulta o trabalho de quem tenta retirar os menores das calçadas. E se você ainda acha que dar trocados é uma forma de ajudar, chegou a hora de rever seus conceitos.
