A situação da perda: o rompimento dos vínculos afetivos

Muito se fala em criação e rompimento de vínculos afetivos. O ser humano, ainda no ventre materno, cria um vínculo com a mãe. Após o parto, o aconchego, o olhar, o cuidado, e tantos outros sentimentos, envolvem-se nesta relação. Vinculada a esta, está a figura do pai que é tão importante e ajuda na educação e proteção da criança, que aos poucos, vai crescendo e se desenvolvendo. Na ausência de um dos dois, alguém exerce esta função, e do mesmo modo, acontece a afetividade vincular. Estes vínculos vão se “criando” também com outras pessoas, como os avós, tios, primos, amigos, vizinhos e assim por diante. O aprendizado de valores como respeito, solidariedade e comprometimento, vai agregando na educação da pessoa.

Donald Winnicott, em seu livro A criança e seu mundo, afirma que, os vínculos afetivos, formados desde o nascimento do bebê, são de extrema importância para o desenvolvimento emocional sadio de uma criança, e, consequentemente, para que ela se torne um adulto completo e sem problemas.

A relação e principalmente o amor entre pais e filhos é incondicional, devido à troca de carinho, amor e respeito mútuo. Os vínculos afetivos que se formam ao longo dos anos, demonstram a cumplicidade entre a família. Em certos momentos, os indivíduos estão mais sujeitos a serem influenciados por determinados fatos, como a perda de alguém importante em sua vida.

Segundo a Psicóloga Suzinara Spuldaro Schneider, de Carazinho, que trabalha na área de psicoterapia individual, casal e família; quando acontece uma fatalidade, a morte não pede licença, e a separação, é muito dolorosa, “Quanto maior o laço afetivo com o falecido e a proximidade com este, maior é o impacto da dor, da separação, da desorientação e tristeza. Sentimentos múltiplos de indignação, revolta, raiva, choro, surgem”. Ressalta ainda que, no momento, a pessoa pode até ficar anestesiada pela situação da separação brusca, fica sem saber o que fazer, “Por um tempo fica amortecido, mas, como tudo tem seu tempo, inclusive o luto, embora muitas vezes leve meses, talvez anos, cada pessoa têm sua própria forma de superar este rompimento, a reação é diferente de uma pessoa para outra”.

Foto: Divulgação

O sentimento da perda é algo inevitável, e, muitas vezes, sem explicação. Perder um familiar, principalmente as pessoas mais próximas, como o pai ou a mãe, é difícil, e deve ser compreendido.

“A maioria das pessoas para elaborar a perda, choram, falam de seus sentimentos, revive fotos antigas, escreve textos e versos, se aproxima da pessoa que também convivia mais com o falecido, e, solidária a sua dor, um se apoia ao outro e ambos se compreendem, afirma Suzinara.

Os indivíduos reagem de formas diferentes para enfrentar a perda, há aqueles que isolam-se da sociedade e do restante da família. Suzinara ressalta  que, “Há aqueles que numa forma de negação, se comportam como se o morto ainda estivesse vivo e organiza um ritual de rotinas como se a pessoa voltasse para a casa. Ainda há outros que chegam a se mudar de cidade para tentar se proteger das revivências que a perda pode lhe trazer, para evitar ainda mais a dor sentida”.

Para quem perdeu alguém próximo, a falta desta pessoa, faz com que nos sintamos vazios. Perder os pais, não é como perder um amigo. Por mais que você tenha vínculos afetivos com eles, a relação não é a mesma, pois os laços com eles são menores. Além disso, o apoio, e a compreensão, nestes momentos, é algo inevitável para ajudar na superação.

[stextbox id=”custom” caption=”E o que fazer quando não se quer continuar?”]•    Não se isole
Aceite a ajuda dos amigos. Pessoas que permitam a você falar sobre qualquer coisa são boas companhias nesse momento.

•     Reconcilie-se com o passado
Não cultive arrependimento ou culpa em relação à pessoa que partiu. Lembre-se dos ensinamentos que ela deixou e dos bons momentos passados juntos.

•    Não descuide da saúde
Aceite a fragilidade dessa fase, mas continue se alimentando bem, praticando exercícios e dormindo o quanto você precisa.

•    Trace novos objetivos
Engajar-se em um novo projeto ou transformar sua experiência em uma maneira de ajudar outras pessoas ajudam a superar o trauma da perda.[/stextbox]

“O apoio nesse momento é fundamental, entretanto, muitas vezes, sozinho é muito difícil de superar. Em alguns casos o melhor é pedir ajuda de um profissional especializado. O processo de superação é longo, mas de alguma forma, deve ser superado, para que, o caminho seja menos doloroso, No processo de luto, muitas vezes há sentimentos de culpa, de que algo ficou por dizer, porque não teve tempo pra se despedir. A dor permanece em algum grau de incidência, a saudade e as boas lembranças devem ficar, para assim, dar continuidade e seguir em frente”, finaliza Suzinara.

Quem ainda vive com os pais, e possui vínculos afetivos fortalecidos, convivência diária, costumes diferenciados, uma rotina programada, e, inesperadamente há uma perda, tudo muda.

Para a acadêmica do curso de Jornalismo, Rafaela Lorenzon, de 24 anos, perder os pais seria um choque, mas a luta deveria continuar, “Na verdade o que temos que ter em mente é que a vida continua, mas eu perderia completamente a noção das coisas e a vontade de continuar. É o que acontece quando um pai perde um filho, como exemplo de Santa Maria: a vida daqueles pais acabou, mas mesmo assim, talvez por que tenha outro filho, a vida vai ter que seguir. Nossos pais não gostariam de ver nunca, jamais, seus filhos sofrendo por eles, iriam desejar que os filhos seguissem em frente”.

Muitas são as dúvidas, pensamentos e sentimentos envolvidos. Mas você, já parou para pensar no que faria se seus pais morressem?

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