Patrimônios públicos
Reverter um quadro de descaso é difícil, mas não impossível. Prova disso é a unidade da Cesa de Passo Fundo, a qual já foi alvo de criminosos, e, agora, passa as ser alvo de cuidadores
Imagine um espaço gigantesco, com 4,7 hectares de terra, silos, gramado, árvores e algumas salas. Agora pense neste mesmo cenário com os silos sucateados, o gramado encoberto por mato, as salas sem portas, sem janelas e sujas. A unidade da Companhia Estadual de Silos e Armazéns (Cesa), de Passo Fundo, um patrimônio público, foi largada ao descaso há cerca de dois anos. Quem ganhou com a indiferença foram os vândalos, que encontraram espaço suficiente para danificar; os ladrões, que furtaram, facilmente, os materiais no local, e os usuários de crack, que encontraram abrigo para sustentar o vício.
Após esta unidade do estadual, com capacidade de armazenamento de até 10 mil toneladas de grãos, ser abandonada devido à falta de investimento de sucessivos governos e à redução de unidades em todo o estado – de 22 foram reduzidas para 16, sendo uma esta do município –, o local passou a ser invadido, mesmo durante o dia.
Ver pessoas saindo carregadas com telhas, canos, fios, zinco e outros objetos tornou-se comum. Animais, como cavalos, podiam ser vistos dentro do pátio se alimentando do capim que crescia, nos 24 mil metros² abandonados ao descaso. Por sua vez, o acesso ao terreno do Estado não acontecia pelos portões e, sim, pela lateral e pelos fundos, onde as cercas foram arrancadas.
O espaço servia – e ainda serve – como depósito da Corsan, que ocupa o terreno como repositório dos materiais usados nas obras do PAC. De acordo com o funcionário da Corsan, Airton da Silva Souza, que monitorava sozinho o local durante seu expediente, muitas vezes criminosos foram vistos acessando o terreno e os silos para praticar ações ilegais. “Nós entrávamos em contato com o serviço de segurança pública inúmeras vezes, mas não vinham e, se vinham, demoravam tanto que as pessoas já haviam ido embora”, desabafa.
Após muitas reclamações, tanto de Souza, quanto dos moradores das imediações, que se sentem prejudicados e inseguros, pela falta de iluminação da unidade e pelo que ela se tornou – um criadouro de criminalidade –, os responsáveis pela Cesa resolveram tomar atitudes. Foram contratados um responsável pela organização e manutenção e uma empresa de segurança, que monitora o espaço em tempo integral. Conforme Souza, a Corsan se responsabilizou por ativar a luz em todo o território. Já a manutenção fica por conta da Cesa, tal como a segurança, que será mantida por ela, por ser patrimônio do estadual.
De acordo com o responsável pela unidade da Cesa em Passo Fundo, José Adair de Oliveira, contratado pelo governo no início de 2013, a intenção, agora, é fazer com que o local deixe de ser um refúgio de ladrões que praticam delitos pelas redondezas ou de usuários de drogas, para se tornar um ambiente com iluminação e segurança.
O local será conservado, já que não foi vendido. A Cesa também não voltará a funcionar, pois, apesar de ter grande capacidade de armazenamento, há muitas empresas com equipamentos mais modernos e profissionais capacitados, o que tornou o silo obsoleto. “Para que os silos voltem a funcionar, é necessário muito investimento em estrutura. O trabalho que os silos de outras empresas realizam em uma hora, aqui, é necessário um dia”, salienta.
Ainda de acordo com Oliveira, entradas e saídas precisariam mudar, já que os caminhões que carregam as sementes são grandes, o que dificulta o acesso pela Avenida Brasil, devido ao fluxo intenso.
Marcas do descaso
[stextbox id=”custom” caption=”Edital de venda” float=”true”]Uma licitação para venda foi aberta, quando a companhia deixou de funcionar. Um edital de leilão saiu, com um valor inicial de mais de 15 milhões de reais, avaliados por serviços imobiliários particulares e por um avaliador do Estado, devido à localização e espaço, mas nunca houve lance. [/stextbox]
O descaso deixou marcas difíceis de serem revertidas. Buracos em paredes, portas destruídas, máquinas completamente danificadas e espaços sobrando no local das janelas – que foram furtadas. Reverter o quadro é quase impossível, mas mantê-lo será fácil, se depender de Oliveira, que adaptou instalações para se sentir melhor durante o tempo em que passa na Cesa.
Após muitas ocorrências de furtos, vandalismo e ocupação, ambos os funcionários sentem-se mais seguros, da mesma forma a população, que conta com a segurança e a iluminação do local.
Esta é a primeira de três matérias que abordam os cuidados ou falta de, para com os patrimônios públicos do município. Confira a próxima edição, que traz a biblioteca municipal à tona.
