Eles recolhem o seu lixo

A equipe da Nexjor TV acompanhou um pouco da rotina de trabalho e das dificuldades dos garis

Um caminho de 40 a 70 quilômetros e nele de 120 a 200 toneladas de lixo. Estes são os números de apenas um trajeto, feito em um dia, pela equipe de um motorista e quatro garis na cidade de Passo Fundo. A empresa responsável pela coleta nas ruas da cidade possui dez equipes, que se revezam em dois turnos por itinerários que cobrem os mapas citadino e rural.

No trajeto, além dos descartes da sociedade, intempéries , acidentes de trabalho, ofensas e invisibilidade social. “As pessoas xingam a gente, não têm paciência para esperar o recolhimento do lixo. Já me disseram: motorista assim só para dirigir o caminhão do lixo mesmo”, conta Agenor Siqueira, condutor experiente. Essa é apenas uma das dificuldades. Em relação aos garis, os  animais e a maneira incorreta como é disposto o lixo deixam o trabalho mais árduo; “a gente se machuca bastante. Os cachorros mordem e aí tem que tomar vacina. Muitos colegas ficam afastados porque se cortam com cacos de vidros e, se o acidente é com seringa, tem que tomar o coquetel HIV”, diz o gari Elisandro Silveira. Segundo a acadêmica de Psicologia Flávia Michelle Pereira Albuquerque, que desenvolveu um trabalho durante seis meses com o grupo, a rotina é desgastante, os afastamentos do trabalho constantes e o que os faz permanecer na profissão são: o salário que ganham, horário de trabalho reduzido, perfil ativo e baixa escolaridade. “Pra gente que não tem estudo, tem que trabalhar com isso. Lá em casa sou só eu que trabalho, sustento a minha mãe, compro comida e pago  as contas”, conta Elisandro.

O que surpreende é a disposição e solidariedade de algumas exceções no caminho. Como afirma Flávia “eles ganham comida, água no trajeto. Algumas pessoas alcançam o lixo para facilitar.” Rudinei da Silva é outro gari da equipe e quando perguntado sobre a rotina desgastante afirma: “Eu gosto do trabalho. Já fui empregado em um lugar fechado e não me acostumei. Aqui a gente brinca, e é só pegar o lixo pra colocar no caminhão; tem gente legal no trecho”.

Os resultados da pesquisa publicada e premiada na Mostra de Iniciação Científica de 2012 “O dia-a-dia de quem limpa a sujeira da sociedade: orgulho ou vergonha?” motivou a equipe da Nexjor em refazer a experiência. Segundo as conclusões do estudo “Eles são invisíveis para a sociedade porque é mais fácil não ver. O questionamento é: como seria a cidade sem esses trabalhadores? E percebemos que aquele que discrimina é o mesmo que não vive sem o gari, ou seja, a população em geral, todos nós”. Desmistificar e tornar pública essas histórias de pessoas comuns, com sonhos, dificuldades e desejos foi desafio para as alunas da Psicologia, para a Nexjor e agora é seu, em refletir o como vê a profissão de gari, como encaminha seu lixo que passa por várias mãos até o destino final e a tratar com normalidade as pessoas envolvidas no processo.

[stextbox id=”custom” caption=”Com a palavra, os garis:”]

– Separe o lixo;

– Coloque os resíduos em sacolas amarradas e nas lixeiras/containers;

– Separe vidros em uma caixa de papel; assim fica fácil identificar que se trata de material cortante;

– Dê o destino correto ao material contaminado (seringas, agulhas, gazes etc.) e de maneira que não causem acidentes a quem recolhe;

– Não deposite móveis, plantas e entulho, os garis não recolhem esse material;

– Não deixe animais, principalmente cachorros, soltos ou incentive a investida nas pessoas que passam na rua;

– Evite produzir lixo ou comprar desnecessariamente, por exemplo, o acúmulo nas lixeiras se intensifica em datas como o Natal, Ano Novo e Páscoa com papeis de embrulhos;

– Tenha respeito pela profissão, um bom dia será retribuído.

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Assista o vídeo produzido pelas acadêmicas de Psicologia da UPF em

httpv://www.youtube.com/watch?v=GZNn34HqYe0

Foto: Dulci Sachetti
Equipe durante a reportagem. Direita para esquerda: Repórter Cinematográfico Jeferson Barbosa;Gari Elisandro Siqueira; Gari Rudinei da Silva; Acadêmica de Psisicologia Flávia Michelle Pereira Albuquerque
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