O título remete ao carinho, mas Galeano apresenta uma obra de inquietações. Talvez, os abraços sejam consolos que ele lança ao leitor como uma forma de alento a tantos seres presos em suas linhas de histórias ora ingênuas, ora extraordinárias.
O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, foi lançado em 2005 pela L&PM Pocket e declara seu mote logo na primeira página, na qual está escrito “Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração”. O leitor é pego pelo coração, e o livro o envolve como em um abraço de alguém muito querido que passou anos andando pelo mundo e, agora, voltou pronto para contar o que viveu. As andanças nem sempre têm um final feliz nas páginas de Galeano. São livros e histórias como as que Galeano conta que ajudam o leitor a olhar para a vida com os olhos de um menino, um viajante, andarilhos, escritores ou simplesmente apaixonados por novos rumos, pensamentos, vidas e experiências, ainda que estes aconteçam em um mundo injusto.
As crônicas com viés político são escritas com acidez, posicionamento, sarcasmo, ironia e, talvez, com o desejo de despertar o mundo para a manipulação, censura, corrupção e submissão. Como no caso de “Ressureições/2”, sobre a ditadura brasileira e o caso de um exilado que só queria “morrer em sua própria terra”. A crítica sobre meios de comunicação, o poder das palavras, o poder que os homens perseguem, o dom que alguns têm em não precisar de quase nada para sobreviver, está tudo lá, nas linhas escritas por Galeano.
Cada página comprova a ideia de que um indivíduo é um mundo, complexo e apaixonante, repleto de histórias para contar. Desperta também uma necessidade de contar histórias, porque nenhuma história é pequena aos olhos de quem lê as entrelinhas da vida, procura entender os motivos das coisas ou simplesmente é apaixonado por histórias. Se as palavras de Galeano fossem pessoas, elas correriam risco de vida, porque o livro também poderia ser chamado de O Livro do Despertar. Talvez, se as palavras e histórias de Galeano fossem pessoas, fossem socadas no meio da rua, tomadas pela indignação de alguém que se dá conta de que existem fome e injustiça no mundo, ou ainda, abraçadas, em um arroubo de compreensão de que não podemos ver tudo o que acontece, mas somos gratos às palavras que nos contam, acordam, indignam, e, às vezes, contam histórias muito antigas, mas que não devem ser esquecidas.

Galeano – escritor que transforma causos banais em um conjunto de palavras tocantes – escreve em 271 o que pensa, sente, o que o preocupa e lhe dá vontade de continuar, mas o leitor, ao terminar o livro, sente falta daquelas palavras que nem sempre foram amáveis, mas lhe ensinaram como é um fragmento da vida do autor e de algumas pessoas que cruzaram o caminho dele. O leitor, instigado a querer mais, torna-se o menino Diego, personagem da crônica “A Função da Arte”, que precisa da ajuda do pai para continuar a ver o mar. Folhear a última página do livro e dar de cara com uma página sem palavras, um universo em branco, faz qualquer pessoa entender por que Galeano batizou o livro assim. O Livro dos Abraços desperta no leitor a vontade que algumas pessoas ainda têm, mas, às vezes, está adormecida, de conhecer o mundo para, enfim conhecer os outros e, quem sabe, ter mais histórias para contar, descobrir quem é e o que pode ser. Dizem por aí que viajar é mudar a roupa da alma, ler Galeano é despir-se para escolher a nova roupa.
