Argo

Uma prateleira cheia de prêmios e um nome para ficar na história

[xrr rating=5/5]

Subestimaram Ben Affleck.

Aquele que era simplesmente o jogador de basquete número 10 de Buffy, a Caça Vampiros, cresceu. Passou por fases nas quais a atuação lhe rendeu o Framboesa de Ouro e cuja beleza ou namoro com Jennifer Lopez era o único atrativo da mídia.

Não acreditaram no talento de Ben Affleck.

Ele acreditou. E tentou, insistiu, amadureceu e se encontrou. Sua melhor performance não está na frente das telas – ainda que em Argo tenha provado saber o que faz. Por trás delas, na direção, Affleck se superou.

oscarHá cinco anos, com Medo da Verdade, optou por um novo caminho. Depois, com Atração Perigosa, se mostrou apaixonado pela indústria cinematográfica. Com a última produção, Argo, a crítica percebeu que Affleck não estava experimentando, mas que deliberava cada ação. Agarrou vários prêmios que o fim de 2012 e o início de 2013 trouxeram, do Globo de Ouro de Melhor Filme em Drama ao BAFTA – Oscar Britânico. Conquistou, ainda, o Critics Choice Award, o Directors Guild (Melhor Diretor), o Producers Guild (Melhor Produtor), o Screen Actors Guild (Melhor Elenco), além de prêmios dos críticos da Flórida, de San Diego e de Southeastern. Para completar, foi eleito o melhor diretor do ano pelo Sindicato dos Diretores dos Estados Unidos.

A crítica, essa que o aplaudiu, vaiou o Oscar. A Academia sequer lembrou de indicar Affleck para o prêmio de diretor. Foi preciso se redimir. No dia 24, a estatueta de melhor filme – que Spielberg, Tarantino e Ang Lee cobiçavam – foi parar na prateleira – inundada de prêmios – de Affleck. Nenhuma surpresa, foi merecido.

Argo merece a estatueta de Melhor Filme porque arrecadou US$ 132,8 milhões nas bilheterias americanas e foi produzido com menos de US$ 45 milhões. Merece porque não peca pelo exagero e nem deixa faltar nada. Merece porque não é um filme de atuações expansivas, mas que privilegia o realismo de uma situação. Merece porque, apesar de falar dos americanos, não te deixa mergulhar num universo alienado de defesa. Argo merece porque é extremamente completo.

História e ficção se confundem além dos limites estabelecidos: Argo, o longa de Affleck, é a narrativa de uma produção cinematográfica falsa em meio a uma história real. 1979, Crise de Reféns no Irã. O país está em ebulição: o aiatolá Khomeini chega ao poder e reacende questões geográficas, políticas, religiosas e sociais. O cenário é complexo: o antigo xá ganhou asilo político nos Estados Unidos. O novo governo, dessa vez em comunhão com o povo iraniano, vê nos americanos inimigos, já que o país apoiou o governo opressor do antigo xá.

A população se revolta, as ruas ficam lotadas, os gritos pedem a imediata presença do ex-governante. Os protestos, carregados de rancor e violência, chegam à embaixada americana. De 58 pessoas que estavam no local, apenas 6 conseguiram fugir. 52 foram mantidas reféns por 444 dias. Os que escaparam foram abrigados, de forma sigilosa, pelo embaixador canadense. A CIA precisava, então, de uma forma para tirá-los em segurança do país.

Argo“A melhor pior ideia” surgiu da mente de Tony Mendez – interpretado, no filme, por um surpreendente Affleck. Uma produção de Hollywood como fachada para a operação.  Com um surrealismo exacerbado, Argo te coloca na trama do início ao fim. A curva dramática nunca foi tão bem usada: apresentação, conflito, clímax, complicação, final satisfatório. Repetidas vezes. Você não sai do filme. Você não olha para o lado.

Nos primeiros minutos, Argo já exige atenção máxima: mesclas de desenhos, fotos, reportagens e interpretação explicam o cenário e o contexto que o filme aborda. A narração melancólica, o ritmo das imagens, o tema abordado – tudo, ali, te transporta para uma atmosfera de terror.

O mesmo acontece nas cenas nas quais os manifestantes invadem a embaixada americana. Com saltos, a câmera mostra a invasão, ao mesmo tempo em que acompanha a fuga. A tensão é permanente. E, talvez, nesse momento se apresente a única ressalva de Argo: um americanismo que levemente se torna tangível. Mesmo que, por vezes, você se perceba torcendo para que americanos se saiam bem, em cima do muro é onde Affleck prefere ficar.

A posição de Affleck fica exposta na edição. Digna de aplausos, intercalou realidade e ficção, cenários, contextos e detalhes que se tornam essenciais diante de um filme que exige concentração. A cena na qual Argo – o da ficção/operação – é apresentado é a comprovação de que Affleck optou por não escolher um lado. Atores lendo um roteiro cuja destruição do planeta é o foco ao mesmo tempo em que uma televisão transmite uma iraniana falando da destruição de seu país pelos Estados Unidos. O “fim” dos atores, o fim da mensagem iraniana, silêncio. O público decide quem escolher. Palmas.

E a fórmula se repete. Durante todo o filme, cenários se encontram, conflitos aparecem e o ritmo envolve. Ainda que a tensão permaneça constante e – especialmente no final – se torne surreal demais, a dose não causa ressaca. Drama, suspense, política, humor. A mistura, ainda que não tenha dado certo na carreira de ator de Affleck, em Argo funciona.

httpv://www.youtube.com/watch?v=_Hvz57_gjto

Outro aspecto a ser ressaltado é que há preocupação com a história e com a memória americana. Por se tratar de fatos reais e, mais, de uma operação da CIA, Affleck precisou ter cuidado: o longa explicita, a todo instante, o trabalho de pesquisa e fidelidade aos acontecimentos da época através, por exemplo, do resgate jornalístico e da comparação de fotografias de atores e interpretados no fim do filme.

Além disso, o diretor faz uma crítica carregada de ironia à prórpia indústria cinematográfica. Enganação e falta de escrúpulos são responsabilidades da dupla de atores coadjuvantes John Goodman e Alan Arkin que no papel do premiado maquiador – por Planeta dos Macacos – John Chambers  e o produtor Lest Siegel deixam claro a falsidade que permeia os estúdios de Hollywood.

Sem medo de errar, Affleck arrisca, aposta. Movimentos de câmera e ângulo, aliados à trilha sonora são capazes de captar sensações – a cena em que Affleck está sozinho no quarto, depois de ter sido desencorajado a seguir em frente consegue transpassar toda a impotência que o personagem sentia naquele momento. E Ben Affleck acerta de forma magistral. O diretor, que chegou há poucos anos, tem muito a ensinar.

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