Não apagar a chama do fogão. Esquecer onde deixou as coisas. Deixar de ir a encontros marcados. Comum? Se for, pode se tratar de um problema de memória. Atualmente, entre tanta correria, tantos compromissos, tanta confusão e tanta informação, acabamos não percebendo quando esquecemos quando a memória falha e esquecemos mais que o normal e encaramos isso como atitude habitual de um cérebro que, em meio a tantas atividades, falha de vez em quando por não conseguir processar tanta informação. Aí está o problema.
A perda de memória é um processo longo e nem sempre fácil de diagnosticar. A memória é uma função que cerebral conserva e recupera informações obtidas por todo o sistema nervoso, incluindo a mente. São diversos os tipos de memória e diferentes estruturas responsáveis pelo seu funcionamento. A psicologia cognitiva responsável pelo estudo da área, determina que existem dois sistemas de memória primária na mente humana: a memória a curto prazo, também chamada de memória de trabalho que guarda informações temporariamente apenas sobre algumas coisas em que estamos pensando no momento e a memória de longa duração, capaz de absorver uma grande quantidade de dados sobre experiências adquiridas durante toda a vida.
É importante perceber que nem todo esquecimento à curto prazo se caracteriza como uma deficiência na capacidade cerebral, mas talvez na incapacidade da pessoa de se focar em uma única tarefa. A memória de curto prazo recebe as informações já codificadas pelos mecanismos de reconhecimento de padrões da memória sensorial-motora e retém essas informações por alguns segundos para que estas sejam utilizadas, descartadas ou mesmo organizadas para serem armazenadas, ao passo que a memória de longa duração tem o processo de formação de arquivo e consolidação, são exemplos desse tipo de memória nossas lembranças de infância, sendo responsável pelas seguintes operações: armazenamento, esquecimento e recuperação. Existem dois tipos de memória de longo prazo, a episódica, que consiste em um fato marcante, e a semântica, que inclui nosso conhecimento aprofundado.
Falha na memória e mal de Alzheimer estão intimamente relacionados quando o assunto é deficiência no sistema nervoso central. O Alzheimer é caracterizado por um declínio progressivo e irreversível da capacidade mental, tendo como principal sintoma a incapacidade de memorizar informações e, portanto, de recordá-las. A expressão “ataque hipocampal” é utilizada nesse caso porque ambos os lados do hipocampo (esquerdo e direito) são afetados. Em seguida, essa incapacidade se estende a outras funções mentais, reduzindo os pacientes a um estado de completa dependência do seu círculo familiar e de amizades. O Alzheimer esteve presente na vida de Leticia Parizotto, que viu sua tia Florinda sofrer com os sintomas da doença e necessitar de atenção de toda a família. “Minha tia começou, lentamente, a esquecer das atividades diárias, porém lembrava claramente de coisas que ocorreram há muito tempo.” A tia de Letícia acabou falecendo em decorrência da degeneração provocada pela doença. A família não identificou as características do Alzheimer em dona Florinda a tempo. O silêncio da doença e o esquecimento aparentemente corriqueiro retardam o tratamento prévio, diminuindo as chances de combate.
[stextbox id=”grey” caption=”Dori, personagem de procurando Nemo (Disney, 2003), tinha problemas de perda de memória recente.”]httpv://www.youtube.com/watch?v=F-10fmPFoxA[/stextbox]Um dos maiores especialistas mundiais em fisiologia de memória, o argentino Ivan Izquierdo, que atua há mais de 50 anos na área – hoje pesquisador da PUC-RS – é enfático ao dizer que a arte de esquecer deve ser aplicada para o bom funcionamento da memória de trabalho. Aqui, esquecer é necessário, para que haja o bloqueio das inúmeras informações que retemos ao longo da vida. “Fazemos um esforço consciente para esquecer coisas desagradáveis, como as humilhações. Mas às vezes não nos damos conta desse esforço. Existem processos que permitem ocultar certas memórias. Isso é um aprendizado importante. Há lembranças que precisamos extinguir. Caso contrário, passaríamos a vida fazendo coisas que não nos interessam. Por um mecanismo de autoproteção, o cérebro simplesmente apaga determinada memória. É um fenômeno que os psicanalistas chamam de repressão. Isso ocorre o tempo todo, mesmo sem percebermos”, diz Izquierdo. Outro ponto defendido pelo especialista é a falsificação de memórias que o cérebro às vezes produz como um mecanismo de defesa, para nos sentirmos melhor com uma lembrança parcial ou distorcida de alguém ou de algo, no lugar dos aspectos desagradáveis ligados a esse alguém ou algo.
Para a psicóloga de Lagoa Vermelha, no Rio Grande do Sul, Daniela Weber, de um modo geral o começo das alterações de memória dos pacientes é lento; especialmente, os de bom nível intelectual e social adaptam-se a determinadas deficiências com alguma facilidade fazendo com que não se perceba ou não se valorize demais determinadas alterações. A intimidade do dia a dia, a vida atribulada das grandes cidades, entre outros fatores, especialmente os de origem sociocultural, colaboram com a aceitação pelos familiares de determinadas perdas e alterações comportamentais, especialmente quando se trata de pacientes idosos. “A primeira e mais característica marca do início da doença está relacionada com o comprometimento da memória recente ou de fixação. Essas alterações não são constantes e se apresentam como falhas esporádicas de memória que se repetem com frequência variável, sem constância. É, portanto, de vital importância que os sintomas iniciais sejam valorizados, na tentativa de se estabelecer um diagnóstico de probabilidade o mais precocemente possível, o que infelizmente não é o observado na prática diária”, acrescenta Daniela.
Hoje, nosso estilo de vida mudou e são muitas as informações processadas no cérebro diariamente. Isso levou, por si só, a um maior desenvolvimento da memória para que ela se adeque a essas necessidades. Passar pelas atividades rotineiras tem exigido muito das pessoas, a vida já não é tão tranquila quanto antes e o stress aparentemente veio para ficar. A memória é um mecanismo que pode ser estimulado com pequenas atividades, evitando, assim, problemas maiores. Aprenda a desafiar sua memória de forma lúcida a fim de explorar a verdadeira capacidade de seu cérebro.


