Desapegue-se

Desapegar: segundo o Aurélio, largar; soltar-se; desagarrar-se, ou seja, uma tarefa nada fácil.

Faça um teste: pense em seus armários e gavetas e imagine tudo que está lá dentro. Deve ser muita coisa, certo? Agora pense em tudo que você não usa: por estar velho, porque enjoou ou porque não gosta mesmo. Já pensou em se desapegar dessas coisas? Não é tarefa fácil. Muitas vezes criamos uma relação de afeto com peças de roupa, brinquedos, calçados, coisas que não usamos, mas deixamos lá, guardadas com a ilusão de que um dia ressurgirão das cinzas.

Não é fácil, mas não é impossível. Cerca de 2.800 pessoas em Passo Fundo já estão conseguindo se desapegar. Como? São membros do Desapego PF: um grupo criado no Facebook que reúne pessoas com um único propósito: desapegar-se e dar um novo dono para suas coisas “encalhadas”.

O grupo surgiu há cerca de um mês com a ideia de duas estudantes de publicidade e propaganda da Universidade de Passo Fundo. Stefany Koeche comenta que a ideia surgiu do nada: “Uma amiga minha, Renata (Muller), me mostrou um brechó de Lages, que era a mesma coisa que o Desapego, só que menor. Entrei, dei uma olhada e pensei por que não fazer umem Passo Fundo.”Afalta de lugares apropriados para compra/venda de roupas usadas motivou as meninas: “Eu pensei em abrir um brechó aqui, porque eu também procurei brechós por Passo Fundo e não achei. Os que eu achei tinha coisas velhas, ultrapassadas, sem condições de uso. Tentei vender também pra um, não quiseram comprar minhas coisas. Então, eu pensei: vou criar no facebook, que tem muita gente que é capaz de comprar e deu certo.”

Com a ajuda das amigas, também estudantes de publicidade e propaganda, Luciana Kurtz e Taíse Souza Barfknecht, o grupo deu tão certo que surpreendeu até as próprias estudantes: “Criei o grupo, mas pensei que não ia fazer sucesso. Começamos com 10 pessoas; quando tinha 50, eu já estava bem feliz. Agora são cerca de 2.800 já, cresceu muito rápido. Em um mês. Isso é muito bom”, comenta Stefany.

Segundo Stefany, a ideia do grupo é simplesmente desapegar: “Trocar, vender roupas que não usa mais, até porque a gente vive comprando coisa por impulso. Se desfazer dessas roupas e ganhar alguma coisa em cima.”

Para participar é simples: quem quiser, entra no grupo e posta foto do que quer se desapegar. Tem álbuns próprios para cada tipo de coisa: roupas, calçados, acessórios, livros… As coisas têm que ser usadas. Para vender algo novo, tem que conversar com as meninas primeiro.

As vendas/trocas/compras ficam por conta de cada um. Quem vende combina com seu comprador as melhores formas de pagamento e um lugar para se encontrar. Muitos desses encontros acontecem na faculdade, mesmo.

Das roupas para os jogos

O grupo tomou proporções que nem as meninas imaginam. O que começou com roupas e calçados se transformou em um mega brechó. Eletrônicos, móveis, livros agora têm espaço para tudo. “A gente até pensou em não deixar, só que começou a vender”, revela Stefany. Taíse completa: “Começou a vender e está tendo boa aceitação, porque o nosso público eram meninas que queriam vender suas roupas.” O público masculino também entrou no grupo: “Muitos meninos vinham para mim e reclamavam porque não havia coisa para homem, mas é que eles tinham certo preconceito em postar coisas lá, agora já está crescendo, já tem bastante meninos vendendo/comprando eletrônicos, jogos,” conta Stefany.

Para as meninas, o que mudou foi o conceito de brechó. A ideia de roupas velhas e que ninguém quer se perdeu. “Hoje, no Desapego todo mundo pode trocar, vender, sem ter custos, de fácil maneira,” garante Stefany.

 O futuro do Desapego

Com tanto sucesso, como não pensar no futuro? Segundo Taíse, no momento, as meninas não lucram nada com o grupo, só demandam tempo. A ideia das jovens é desenvolver algo que ser torne rentável, mas que não perca o conceito e que as pessoas ainda possam postar de graça e lucrar com as suas peças. “A gente está pensando em fazer um site, algo do gênero, mas a gente pensou que o sucesso do grupo foi simplesmente de graça, senão não ia crescer tanto, porque as pessoas estão ganhando lá e nós só administrando. Mas queremos, sim, tentar manter esse princípio e que seja rentável ao mesmo tempo,” comenta Stefany. Para Luciana, a melhor saída seria a busca por publicidade, com lojas, por exemplo, divulgando no site.

Desapego do bem 

Quem pensa que a ideia do grupo é só lucrar com o que não se usa mais está enganado. As meninas viram na aceitação do grupo uma oportunidade de fazer o bem. Taíse conta que a ideia surgiu de alguém de fora do grupo que questionou as meninas de o porquê de não fazer uma ação social para as pessoas se desapegarem e doarem suas coisas. Deu certo: “A gente pensou: vamos criar uma identidade pra nós. Eu criei a logo, e a gente começou a desenvolver essa ideia de desapegar pra o bem. Criamos essa ação social que é o Desapego do Bem, que vai doar roupas e brinquedos para instituições beneficentes nesse mês das crianças,” explica Taíse.

Luciana comenta que a ideia surgiu, também, porque muita coisa do que era postado no grupo não dava para vender, seria mais doação: “Aí a gente já juntou o útil ao agradável, que seria doar.”

Ficou interessado e quer se desapegar? É simples: Para quem quer doar, uma caixa viajante vai passar por vários pontos da UPF (na Faculdade de Artes e Comunicação, na Faculdade de Engenharia e Arquitetura e no DCE). Cada um faz a sua doação, que deve estar identificada com o nome de quem doou para poder concorrer a prêmios dos parceiros do grupo. Já, para quem quer vender, basta entrar no grupo, seguir os passos indicados e negociar seus desapegos.

Confira o vídeo da campanha Desapego do Bem e o passo a passo para doar:

httpv://www.youtube.com/watch?v=QhJHd7TEIjo&feature=player_embedded

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