
20 anos, duas pessoas, um dia.
[xrr rating=3.5/5]
Sexta-feira, 15 de julho de 1988
Rankeillor Street, Edimburgo
— Acho que o importante é fazer diferença — disse ela. — Mudar alguma coisa, sabe?
— Você está falando de “mudar o mundo”?
— Não o mundo inteiro. Só um pouquinho ao nosso redor.
Um clássico moderno. Um formato diferente para uma história comum. Uma linguagem única e uma proposta irreverente. Um dia, de David Nicholls, é um romance puro – e poderia ser comparado ao estilo Malhação, em que o casal se encontra, quase fica junto e se separa uma dúzia de vezes – se não fosse a linguagem e o formato escolhidos pelo autor. Não existe linearidade, e a linguagem utilizada nas páginas surpreende no ritmo.
Emma Morley é uma revolucionária que busca nos protestos a realização do objetivo de “ser melhor”. Dexter Mahyer, ao contrário, é um legítimo “filhinho de papai”, apaixonado por garotas e bebidas. As diferenças gritantes entre os personagens fazem da relação um desafio para a própria história, que busca se desenvolver salientando o ponto de vista de cada personagem e relatando atitudes próximas da realidade. Dexter é o mocinho trazido dos filmes noir o qual, por vezes, chega perto de tornar-se o vilão, tamanha insensibilidade, irresponsabilidade e inconsequência. Emma assume, então, a posição de boazinha que acaba se dando mal – sempre e em todas as escolhas. À primeira vista, os personagens parecem chatos e impossíveis de fazer uma história dar certo. E, de fato, sozinhos não fazem de Um dia um bom livro. O enredo é salvo pela proposta.
São 20 anos de história e apenas uma data para contá-los: 15 de julho – o dia em que Emma e Dexter se conheceram. Talvez David Nicholls tenha escrito cada dia dos 20 anos e tenha escolhido somente os referentes à metade de julho. Sempre no mesmo dia, um pedaço da vida de Emma e Dexter é descoberto e a cada capítulo o fim torna-se menos previsível. A narrativa é densa, mas compensada por diálogos inteligentes e, algumas vezes, engraçados. O ponto negativo do livro fica por conta do caráter derrotista que assume em certo ponto. Os personagens, frustrados com o presente vivido, parecem se tornar a encarnação do próprio fracasso e Nicholls consegue transparecer isso para o leitor. Nem tão negativo assim é o fato de o autor conseguir fazer o sentimento de quem lê assemelhar-se com a própria história.
Como não poderia deixar de ser, o filme se aproxima do livro apenas por detalhes. A história, nas telas, perde a graça e torna-se comum. Incompreensível e confusa para quem não tem conhecimento das páginas. Muitos dos episódios narrados foram modificados – ou omitidos – e acabam não se encaixando na narração de Nicholls. Dirigido por Lone Scherfig, o filme traz Anne Hathaway e Jim Sturgess como Emma e Dexter e se sustenta nisso: a atuação de ambos condiz com o livro e, realmente, revela as personalidades escolhidas por Nicholls para os personagens. No entanto, o filme é frio. O roteiro é sem paixão e não propõe que quem assista torça para um provável casal, o que acontece com o livro. Nem mesmo o encontro de Emma e Dexter é confiável.
Que páginas e telas trazem propostas diferentes é sabido, e em Um dia a principal diferença está na confiabilidade da história: enquanto o livro se sustenta por ser próximo à realidade e fugir de romances fantasiosos, o filme passa longe de convencer o público.
Ainda assim, David Nicholls merece ser lido.
Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Alegrar os amigos, permanecer fiel aos próprios princípios e viver com paixão, bem e plenamente. Experimentar coisas novas.
httpv://www.youtube.com/watch?v=Noshw3upFw4
