Pouca idade e muito talento

A idade é pouca, a experiência também. Mas o talento nasceu com eles.

 

O cinema sempre foi um reflexo da sociedade (ou o contrário). Os filmes que retratam a vida de uma forma mais realista, sem efeitos demasiados, têm grandes possibilidades de ganhar destaque e aplausos, tanto dos cinéfilos quanto da crítica. E enganam-se os que pensam que para dar brilho ao filme, é necessário um elenco repleto de atores/atrizes consagrados.

Levou algum tempo para o cinema perceber que o talento não se limita aos mais velhos. E que os estreantes nem sempre precisariam de um ator mais experiente para se apoiar no set. Cada vez mais vemos crianças e jovens artistas em seus papéis de estréia ou entre os primeiros trabalhos, arrancando elogios dos melhores e mais exigentes públicos do mundo.

O astro mirim Jackie Cooper pode ser um exemplo. Ele mostrou seu talento precoce em Skippy (comédia estadunidense de 1931), papel pelo qual foi indicado ao Oscar, com apenas nove anos de idade. Apesar da grande entrada, sua carreira estelar não sobreviveu: ele continuou atuando em papéis menores. O mesmo caso de Jackie Coogan, o menino que acompanha o clássico personagem de Charles Chaplin em The Kid (O garoto/ O garoto de Charlot), de 1921.

As últimas décadas mostraram-se férteis em artistas juvenis talentosos, revelando atuações diferenciadas, difíceis de serem vistas na pele de muitos veteranos. O ponto inicial para tal mudança foi abandonar o cenário infantilizado, onde as crianças apareciam apenas em papéis coadjuvantes e seus personagens viviam histórias pequenas e leves, e, principalmente, não duvidar da capacidade das crianças em território adulto.

Isso não quer dizer que todas as crianças que estrelaram com sucesso no cinema, serão grandes astros. Algumas apostas são arriscadas. Todos acreditavam no talento de Macaulay Culkin, astro-mirim de Home Alone (Esqueceram de Mim ). Também pensavam que Lindsay Lohan continuaria melhorando sua carreira, começada muito cedo. Hoje os dois praticamente não aparecem nas telas, depois de terem problemas com drogas e álcool. Para eles, junto com o sucesso veio a ideia de que poderiam fazer tudo, sem serem condenados pela sociedade. Doce engano.

O oposto aconteceu com Jodie Foster. Todos que assistiram Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese, viram naquela inexperiente atriz um talento como poucos, e acreditaram que ainda ouviriam o nome dela ao longo dos anos. E foi o que aconteceu. Hoje, com 50 anos, Jodie intercala seu trabalho entre atriz e produtora. Prova de que  alguns possuem maturidade suficiente para administrar a profissão.

Precisamos falar sobre Kevin, 2011

Filmes onde artistas de gerações diferentes se cruzam são trabalhos dignos de um olhar mais demorado. A experiência dos mais velhos é um porto seguro, mas a força presente nas primeiras atuações é algo forte. Somado ao fato de o ator ou a atriz estarem diante de ídolos, que muitas vezes os levaram a atuar, o esforço é maior, e a interpretação mais refinada. Em We Need to Talk About Kevin (Precisamos falar sobre Kevin), filme de 2011, baseado no livro de mesmo nome, Kevin é interpretado por três atores desconhecidos. Tilda Swinton, que faz a mãe, poderia tomar completamente a cena. Mas tudo é muito equilibrado, em especial com Ezra Miller, o Kevin adolescente, clímax do conflito familiar.

Novos talentos do cinema são revelados cada vez mais cedo. Alguns sabem desde o início como construir suas carreiras, para que não acabem desastrosamente em poucos anos, e há diretores e produtores que acreditam em tais talentos e recrutam como protagonistas de seus projetos jovens que muitas vezes ainda nem atuaram. Max Records praticamente estreou em Where the wild things are (Onde vivem os monstros), de 2009, e Quvenzhané Wallis estreou em Beasts of the southern wild (2012), elogiada pela crítica e sucesso pelos festivais afora. Trata-se de uma visão do mundo, onde na infância tudo é uma descoberta, e assim deve perdurar.

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