Ansiedade por informação: quando estar conectado vira dependência

Que a tecnologia contribui consideravelmente para estarmos bem informados todo mundo já sabe. Mas você já parou pra pensar até que ponto somos dependentes dessas informações? E por que trocamos a vida real pela virtual e não estar conectado nos causa sintomas de ansiedade?

Não desgrudar do celular nem mesmo quando se está dormindo, passar o dia inteiro visitando páginas virtuais ou checar o facebook inúmeras vezes. Comportamentos como esses são consequências da sociedade globalizada, fazem parte do nosso dia a dia com uma intensidade cada vez maior e alertam para uma nova ansiedade – que surge na mesma proporção à velocidade com que as informações são divulgadas e digeridas -. A rapidez desse fluxo causa a constante sensação de estarmos desatualizados, conforme explica a doutora em psicologia, Ciomara Benincá. “É como se estivéssemos que estar conectados 24 horas por dia. A ansiedade é gerada na medida em que achamos que não estamos conectados o suficiente. Se cria uma cultura onde informação é poder. Se o outro sabe mais do que eu, ele estaria mais qualificado e assim, eu seria um profissional ou uma pessoa menos culta ou menos informada”, exemplifica, afirmando que essa é uma exigência que a própria sociedade impõe. Além disso, essa ansiedade pode estar relacionada a outros aspectos: a troca da vida real pela virtual, por exemplo, pode existir para compensar questões pessoais que não estão indo bem.

Estar conectado pode virar uma dependência e causar a ansiedade por informação

Estar conectado não seria, teoricamente, um problema. A psicóloga explica que o fato negativo está em não se ter o controle da situação. “O problema é quando a pessoa dá o start e não consegue parar. Não tem o momento de dizer ‘agora chega, vou viver no mundo real’”. Ciomara compara essa necessidade em estar conectado a um workaholic (termo usado para designar quem não consegue parar de trabalhar).  “As pessoas que não conseguem se desconectar da rede sentem como se estivessem perdendo alguma coisa, como se não estivessem sendo alimentadas por informação. E isso escraviza, pois falta medida”. A tecnologia, neste contexto, contribui para o aumento dessa dependência. Celulares e computadores mais portáteis e com recursos avançados possibilitam o acesso a informações em tempo real e em qualquer lugar. “A pessoa que não está conectada é como se estivesse fora da tendência da sociedade. E para seguir isso, se submete a passar o tempo inteiro conectada”. Mas, afinal, quais conseqüências isso pode gerar?

Os danos não são tão simples e mudar o comportamento depende de boa vontade e disciplina. A psicóloga afirma que a ansiedade causada por este tipo de dependência é altamente prejudicial. “É como se o cérebro não tivesse o momento que para e descansa para poder retornar no dia seguinte. Mesmo quando estamos dormindo, o celular está ligado, as pessoas dormem pouco porque não podem sair da rede. Para reverter a situação, a pessoa tem que se disciplinar e ter momentos em que ela se desconecta”, ressalta Ciomara.

Controle-se!

Esse sentimento, familiar a muita gente, pode trazer cansaço e esgotamento. Ciomara associa esses sintomas aos da Síndrome de Bournout, que é caracterizada por um alto nível de estresse relacionado ao trabalho. “É quando o cérebro diz ‘chega, eu não aguento mais receber informação, preciso de ajuda’. E como tratar? Tem que ser algo pensado e planejado pela própria pessoa, pra saber qual é o melhor momento que ela pode fazer isso”.

E se você está pensando que desconectar apenas na hora de dormir é suficiente, Ciomara traz dicas que vão além. “Pode ser em momentos em que estamos entre os familiares, ou quando chegamos em casa depois do trabalho, folhear uma revista, apreciar um lanche, tomar um chimarrão. É preciso deixar o cérebro se reciclar, fazendo coisas que não exijam pensar e metabolizar alguma informação”, sugere, fazendo também a seguinte análise: “ Se ela não consegue fazer isso sozinha, provavelmente ela precise de ajuda, porque talvez seja um mecanismo compensatório de outras questões de ordem pessoal que estejam se manifestando através disso”.

O fundamental é controlar-se. “É saber que aquela hora que a gente desconecta não vai fazer diferença na vida da gente. Pelo contrário, só vai trazer benefícios. Vai nos proteger em termos de saúde mental”, destaca, finalizando com uma metáfora que serve pra definir como a correria da vida moderna pode trazer conquências negativas, principalmente à nossa saúde, e que alerta para importância de um auto-controle. “É como um caminhão que tem determinado tamanho e carregava determinada carga. Agora a carga dobrou, só que o caminhão é o mesmo. E isso, obviamente vai trazer sintomas. Essa necessidade de estar conectado deve ser controlada e combatida, como qualquer outro sintoma”. Para isso, vale a dica: permitir momentos em que o cérebro possa estar conectado com a gente mesmo talvez seja a melhor alternativa.

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