Ciência, inovação e jornalismo

Entrevista com Sergio Gwercman, diretor de redação da revista Superinteressante.

Criatividade, conhecimento e inovação. Qual é a fórmula para colocar esses três elementos em um só texto? A revista Superinteressante, desde 1987sabe. E o seu diretor de redação há 8 anos, Sergio Gwercman, conta um pouco desse processo de falar sobre ciência para o mundo, ou melhor, de falar do mundo para as pessoas.

“A gente não escreve mais sobre ciência, a gente usa ciência pra escrever sobre o mundo.”

Nexjor – A Super é a maior ganhadora do Prêmio Malofiej no Brasil. Mas os infográficos foram mudando com o passar do tempo. Como é o processo de inovação na área de infografia?

Sérgio Gwercman – Na verdade, não vale nem falar de uma mudança de infográficos; é uma mudança visual da revista de maneira geral, ela não foi isolada naquelas partes. A gente tem como desafio aqui na revista fazer com que ela se mantenha sempre atual e moderna e, mais do que tudo, tem outro fator importante que é a evolução tecnológica. De 2000 pra cá, o número de programas e ferramentas que você tem à sua disposição pra fazer o mesmo serviço aumentou bastante e com isso aumenta o que você consegue fazer. Se você ficar fazendo sempre a mesma coisa, logo vai estar parado no tempo. E as revistas são organismos vivos, elas precisam evoluir com o passar do tempo. Elas não devem ficar estanques e preservar uma unidade porque, se não, elas param de fazer sentido pra vida dos leitores. Então, o processo de mudanças de infográficos faz parte de um processo maior de transformação permanente da revista.

Nexjor – Há muitos jornalistas que se preocupam apenas com o texto, em escrever bem. Qual é a importância de dominar a infografia para quem está no mercado de trabalho?

Sérgio Gwercman – Não é um valor absoluto. Não é assim: “Ou você domina fotografia, ou você está fora do mercado de trabalho.” Infografia é mais uma ferramenta, ela não é uma solução pra todas as histórias que você contar. Agora, algumas histórias são mais bem contadas e mais simples quando elas têm infografia. E, mais do que infografia, eu acho, é a capacidade do jornalista utilizar recursos visuais para contar suas histórias. Se você é capaz de fazer isso, você abre o leque de histórias que pode contar, de lugares onde você pode trabalhar e até de informações que você pode apresentar ao seu leitor. Agora, também não acho que isso deveria ser uma nota de corte. Tipo assim, se você não sabe trabalhar com infografia, você não tem espaço no mercado de trabalho.

Nexjor A Super circula desde 1987. Assim, dependendo da época, ela atinge públicos diferentes. O que mudou na forma de falar de ciência no texto?

Sérgio Gwercman – Eu acho que mudou bastante. Acho que, quando a Super foi lançada, o acesso à informação científica, o acesso ao conhecimento de forma geral, era muito mais complexo e menos bacana, menos interessante e divertido, digamos assim, do que ele é hoje. Assim como infográficos, à medida que esse tempo foi passando, também a maneira como a gente fala de ciência precisou se atualizar. Eu acho que um ponto que eu veria como bem importante dessa transformação é que a ciência parou de ser um fim para a Super. A gente não escreve mais sobre ciência, a gente usa ciência pra escrever sobre o mundo. A ciência é uma ferramenta que temos para contar as nossas histórias. A Super não escreve mais sobre Newton, por exemplo, usa Newton para explicar o mundo em que a gente vive hoje.

NexjorComo lidar com os assuntos polêmicos que a revista traz? Por exemplo, sempre que o assunto é religião, vocês recebem muitas críticas. Você acha que isso é bom porque levanta debates, ou é ruim pelo fato de perder leitores?

Sérgio Gwercman – Certamente não é ruim. Eu acho que a preocupação não deve ser essa. Ah, se a gente fizer isso, os leitores vão largar, até porque a revista sabe que eles não largam. Vamos até perder um ou outro leitor, mas em geral são leitores que estamos perdendo, que talvez não estivessem alinhados com o projeto editorial da revista. Agora, mais do que isso, acho que a questão dos temas polêmicos não deveria ser olhada do ponto de: “ou são bons ou ruins”. Se eles são polêmicos, é porque despertam muito interesse nos leitores. Então, quando eu estou escrevendo sobre um tema polêmico, estou simplesmente atendendo à expectativa do meu leitor. O meu leitor gosta de ler sobre isso. É difícil acreditar que vamos perder leitores quando se está escrevendo um tema de alto grau de interesse. Essa lógica me levaria a concluir que a melhor coisa que eu tenho a fazer é provavelmente escrever sobre a reprodução das minhocas anencéfalas, porque elas não têm nenhum potencial de atrito com o meu leitor. Quando o tema tem um baixo atrito com o leitor, possivelmente ele também tem um baixo interesse do leitor. Então, em última instância, a questão não é escrever temas polêmicos ou não polêmicos, mas escrever sobre temas relevantes para o leitor; isso vai garantir a permanência ou a perda deles.

NexjorQual o tempo, em média, que uma grande reportagem de capa demora para ficar pronta desde a definição da pauta até o último retoque de arte?

Sérgio Gwercman – Não tem um único tempo. De maneira geral, eu diria que dois meses é uma janela mais do que suficiente pra você fazer um grande trabalho, entre ter a ideia de pauta, começar a fazer a apuração, escrever o texto, pautar as ilustrações. A gente já fez em muito menos que isso, mas às vezes a gente leva mais por causa do contexto, mas em geral em dois meses, não tem erro, dá pra fazer.

NexjorVocê fazia direito e trocou para jornalismo. Essa é uma decisão que muitas vezes provoca desentendimentos com os pais e, principalmente, dúvidas enormes quanto à carreira. Quero que você deixe algumas dicas para quem está com essa dúvida e também para quem está começando na profissão.

Sérgio Gwercman – Não tem uma resposta certa quando você pensa em trocar de curso. Meus pais encararam a situação de maneira bem racional e que faz bastante sentido. Eles fizeram uma conta de probabilidade de eu me dar bem ou não me dar bem. Ganhar dinheiro era mais fácil estudando direito do que estudando jornalismo, isso é uma verdade. Do mesmo jeito que é uma verdade a resposta que eu dei pra eles, de que eu só tenho chance de me dar bem profissionalmente fazendo uma coisa que eu gosto. É verdade que advogados ganham melhor que jornalistas, mas só os bons advogados. Os maus advogados não ganham melhor do que os bons jornalistas. E o cálculo que eu estava fazendo naquele momento era que eu achava que ia ser um melhor jornalista do que um advogado. Eu acho que uma questão muito importante também é levar em conta quais são as nossas reais motivações na vida. Uma das distorções que esse processo de escolha profissional tem é que a gente toma essa decisão em uma época em que dinheiro parece muito menos importante na nossa vida do que realmente é. Quando você está pensando aos 18 anos, não está pagando suas contas, não entende o quanto é difícil conseguir se virar, daí, você tende a diminuir o valor do dinheiro na sua decisão. Quando você chega aos trinta, entende não é que dinheiro traz felicidade, não é isso, mas que dinheiro te ajuda bastante no seu dia a dia. E talvez, se você tivesse pensado isso aos seus 18 anos, teria tomado uma outra decisão. Por outro lado, eu acho que você tem que ter consciência de que a maneira mais fácil de ganhar dinheiro é ser um profissional excelente e realizado. E para isso você vai ter que fazer a opção pelo que você gosta e respeitar a sua natureza. Não adianta achar que engenharia tem ótimas oportunidades profissionais, se você não gosta de matemática. Não vai dar certo, não vai ser pra você. Enfim, no fim das contas, a única coisa que você tem que saber é que vai ter que se esforçar em qualquer lugar, porque não existe uma opção em que vai ser fácil e que tudo está na sua mão. O seu sucesso ou o seu fracasso profissional vai depender mais de você do que qualquer outro fator. Então, pegue em suas mãos e faça.

[stextbox id=”info” caption=”O Jornalista Gwercman”]

Sergio Gwercman é jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi estagiário e depois editor de Esportes Internacionais do programa Esporte Total, da Rede Bandeirantes de Televisão, onde começou a trabalhar em 1999 e saiu em 2001, depois de participar da cobertura dos Jogos Olímpicos de Sidney 2000. Atuou como repórter do portal Terra Networks fazendo reportagens para as editorias de Cidades e Economia entre 2001 e 2003.

Desde fevereiro de 2004, trabalha na revista Superinteressante, da Editora Abril, onde exerce o posto de diretor de Redação, responsável por toda a produção editorial da revista e por sua integração com plataformas digitais. Antes de assumir a direção, foi repórter, editor e redator-chefe da publicação.

Venceu, em 2005, o Prêmio Cidadania em Respeito À Diversidade, na categoria Especial, promovido pela Associação do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), pela matéria de capa da edição de julho de 2004 da Superinteressante, Casamento Gay. Em 2011, conquistou o Prêmio Abril de Jornalismo, na categoria Vídeo Online, com o vídeo O tempo que se perde perdendo tempo, do site da Superinteressante, como parte da equipe composta por Adriano Sambugaro, Bruna Carvalho, Bruno Xavier, Emiliano Urbim, João Kowacs, João Vitor Leal, Lívia Aguiar, Nara Gisela, Nati Canto e Olavo Costa.

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