Sem barreira etária

Quando a idade chega acompanhada da vontade de aproveitar o tempo, sem espaço para baixo astral

 Charles Chaplin dizia que a vida deveria ser ao contrário. Acreditava ele que o verdadeiro ciclo está de trás pra frente. Brincalhão em sua teoria, defendia que teríamos que morrer primeiro para nos livrar logo disso. Depois, deveríamos viver num asilo até sermos chutado para fora de lá por estarmos muito novos. Em seguida, ganharíamos um relógio de ouro e trabalharíamos por 40 anos. Somente após isso, ficaríamos jovens o bastante pra aproveitar a aposentadoria. Nada mau, hein? Mas a vida real não é assim. O sonho de Chaplin fica na imaginação e o ciclo natural se mantém. Mesmo assim, muita gente vem ignorando aspectos negativos que porventura possam surgir e encarando a idade da experiência como uma nova boa fase da vida: a ordem é ocupar o tempo livre com atividades de lazer e integração. Sem espaço pra monotonia e acomodação.

A dança é uma das atividades oferecidas pelo Creati

Passou-se o tempo em que a terceira idade era sinônimo de ficar em casa esperando a vida passar. A nova filosofia de pessoas que chegam a essa etapa da existência é aproveitar ao máximo a comodidade que a vida de poucos compromissos oferece. Atividades que envolvam corpo e mente são alternativas, coisas que, acima de tudo, levam ao bem-estar e qualidade de vida. A dona Nadir Drum de Oliveira sabe bem o que é isso. Aos 66 anos ela conta, emocionada, que sua vida mudou quando começou a participar de grupos de convivência. Semanalmente ela tem compromisso marcado. Uma das tardes é dedicada ao encontro com os amigos. Recreação, dança e risadas fazem companhia aos participantes. Nos domingos, a diversão é garantida: dia dos bailes e encontro com grupos da região.

Futuramente, a porcentagem de pessoas com mais de 60 anos, no mundo, vai aumentar e surge então a necessidade de estudar o envelhecimento humano e de se criar políticas voltadas à qualidade de vida dessa faixa etária.

Coordenadora do Creati, Mônica Matte

A análise é da coordenadora do Centro Regional de Estudos e Atividades para Terceira Idade – Creati UPF, Mônica Matte. “É preciso que as pessoas que estão envelhecendo se deem conta da importância dessa interação social. A longevidade está aí e é preciso dar qualidade”, ressalta explicando que hoje os idosos têm uma esperança de vida melhor do que se tinha antigamente e isso é resultado das alternativas que têm para ocupação. “Tempos atrás, as pessoas, quando tinham 40 anos, eram vistas e se consideravam velhas. Hoje a gente vê pessoas idosas que fisicamente não aparentam a idade que realmente têm. Antigamente a pessoa se aposentava, colocava um chinelinho e um pijama e ia pra cadeira esperar a morte chegar. E agora não. Eles realmente têm um compromisso de estar aqui. Sabemos que depois dos 50 ou 60 anos a saúde complica um pouco, mas não é por isso que não se pode ter qualidade de vida”, enfatiza.

Ao comentar sobre os motivos que levam os idosos a procurarem os serviços, Mônica destaca como principais a busca por uma atividade de entretenimento, e principalmente, por compensar o que não pôde ser feito no passado. “As pessoas chegam aqui dizendo: isso é o que eu sempre quis fazer e nunca consegui, pela minha situação financeira, por ter que trabalhar, criar os filhos, cuidar da casa”, acrescenta. “Agora os filhos estão crescidos e chegou a hora de aproveitar. Essa é a regra dos idosos que, geralmente, começam a participar convidados por amigos que conhecem os serviços” relata.

Nadir Drum de Oliveira

Os idosos que ocupam seu tempo com atividades saudáveis passam a ter uma nova perspectiva de vida. Ao melhorar a qualidade de vida, melhora também a saúde. Isso é o que a dona Nadir pode demonstrar com exemplos. “Hoje sou outra pessoa, muito diferente do que era antes. Tinha depressão, ficava em casa, só chorava. Hoje sou alegre, tenho vontade de trabalhar”, conta dizendo o que pensa sobre os serviços. “As outras pessoas da família têm seus próprios compromissos, têm a sua própria família. Acho bom ter uma ocupação por isso. Os idosos podem se unir. A gente não se sente sozinho”, reconhece tendo a expectativa na ponta da língua. “Enquanto eu puder, vou continuar participando. E, se Deus quiser, por muito tempo ainda”, finaliza com um sorriso.

Quem dança, seus males espanta!

                                                                                     

O ditado serve pra pessoas de qualquer idade, mas para os idosos a ideia parece ter mais sentido. Pesquisas recentes mostram que o sedentarismo é capaz de matar tanto quanto o fumo, já que compromete a saúde do físico por desencadear inúmeras doenças. Como qualquer atividade física, dançar também libera serotonina – hormônio que entre vários outros aspectos, é o responsável por regular o ritmo cardíaco, o sono e o apetite – e promove o bem-estar psicológico.

Para Mônica, a dança promove uma liberdade de expressão. “A importância dos movimentos e ritmos vai além dos benefícios para a saúde do corpo, quando possibilita a liberação do íntimo, a interação não só com os colegas, mas com a sociedade em geral e permite conhecer culturas diferentes. É, ainda, algo que possibilita equilíbrio. Sentir-se bem espiritualmente”, acredita.

Elas são maioria

 Em meio a tantas informações positivas, um aspecto contraria. Infelizmente, os homens não aderem tanto a atividades como essas. A participação masculina é pequena em relação à presença das mulheres. Vale considerar que o tempo médio de vida dos homens é menor, mas Mônica acredita que a principal causa dessa realidade está relacionada à preocupação com a saúde e com o bem-estar ser mais acentuada no mundo feminino. Além disso, ela cita o preconceito dos próprios homens, que muitas vezes acham que não precisam disso. “Muitos homens não enxergam isso com uma visão de melhorar a saúde”, relata a coordenadora do Creati, e é taxativa na conclusão: “E estão perdendo tempo. De viver mais e melhor”.

É possível, sim, ser feliz em qualquer idade. O que vai definir essa realidade é a escolha que se faz. Independentemente de quantos anos já se viveu, ainda é permitido sonhar.

[stextbox id=”custom” caption=”Saiba mais sobre o Creati”]

  O Creati foi criado em 1990 com a proposta de ser um espaço de debate e estudo de questões que envolvem a velhice. O processo é de caráter interdisciplinar e intergeracional, organizado por meio de oficinas. O trabalho é permanente e se fundamenta nos pilares da aprendizagem, convivência, serviço e cuidado. Proporciona, ainda, palestras, cursos, eventos, apresentações artísticas e culturais. As atividades estão presentes em Passo Fundo, Carazinho, Lagoa Vermelha e Soledade.

Objetivos:

Promover o crescimento pessoal e coletivo e realizar pesquisas e atividades de caráter interdisciplinar; implementar programa de assistência social que beneficie indivíduos idosos diante de situação de vulnerabilidade social e proporcionar um programa de atividades físicas mentais, culturais e sociais, afetivas e espirituais a fim de preservar a qualidade de vida da longevidade.

Oficinas oferecidas:

Alongamento, artesanato, arteterapia, artes visuais, coral, corpo, Dança Bem Viver, Dança Chinesa, Dança de Casais, Dança para Mulheres, Dialogando Emoções, espanhol, ginástica chinesa, hidroginástica, informática, inglês, jogos adaptados e de mesa, jogos matemáticos, literária, origami, Vivências e Convivência, seresta e yoga.

Como participar:

Em Passo Fundo, as atividades do Creati acontecem no Campus III da UPF, localizado na Avenida Brasil, próximo ao Bella Città. A adesão às oficinas se dá por meio de matrícula semestral. O atendimento é de segunda a sexta-feira das 8 às 12 horas e das 13h30min às 17h30min. Informações pelo fone (54) 3316-8580 ou pelo email creati@upf.br.

[/stextbox]
Rolar para cima