Causa e efeito andam juntos em qualquer circunstância. Na narrativa de Precisamos falar sobre o Kevin,a teoria é levada à risca e mostra passado e presente numa fusão entre atitudes e consequências. O discurso não-linear – que tem como protagonistas mãe e filho numa relação que envolve desafeto e culpa – mostra o extremo do comportamento humano originado em aspectos psicológicos.

A ficção envolve o público num clima de tensão e angústia e mostra toda a complexidade que envolve gravidez indesejada, criação de um filho e assassinatos.
O filme é uma adaptação do best-seller, de Lionel Shriver, levado para as telas em janeiro deste ano e tem como diretora Lynne Ramsay. A narrativa consegue demonstrar sofrimento, através da fisionomia da atriz Tilda Swinton (Eva, mãe de Kevin), e ódio, na interpretação do ator Ezra Miller, personagem principal da trama. A história começa quando Eva se vê prisioneira de uma gravidez que vai impor limites a sua vida de aventuras e liberdade. A forma como a futura mãe recebe a notícia de que está carregando um ser em sua barriga e seus sentimentos dali em diante são decisivos no futuro do próprio filho e no seu também.
“Eu era feliz antes de você!”. A declaração de Eva, ao embalar o filho recém-nascido, pode ser usada para resumir o enredo. Kevin, assim, surge como um castigo a uma pessoa que assume as responsabilidades carregadas por obrigação e amargura. O ambiente familiar, que também conta com o marido de Eva, é onde gradativamente Kevin é criado com desprezo e com problemas de convívio social, aprendizado e falta de limites. O clima começa a mudar quando nasce a segunda filha do casal, e a mãe aprende o sentido da palavra maternidade. Eva tenta reverter a situação, revendo as atitudes que teve com o filho mais velho. Tarde demais.
Com o passar dos anos, para Kevin, a falta de afeto é compensada com desejos de vingança. Aos 16 anos, o psicopata estava criado. Kevin comete assassinato de vários colegas de escola e, como se não bastasse, do próprio pai e da irmã. A mãe fica viva pra sentir na pele todo o sofrimento. Culpa, tristeza e frustração. É com esses sentimentos que Eva divide os dias após a prisão do filho.
Precisamos falar sobre o Kevin é, sem dúvida, uma grande história que leva a reflexões profundas sobre comportamentos da sociedade, que, de alguma forma, têm reflexos no cotidiano. A forma como o filme consegue envolver o espectador é o que torna a trama mais atrativa e próxima. Ora nos colocamos no lugar de Eva, ora no lugar de Kevin. É claro, não se pode generalizar, mas a narrativa leva à análise de que, além de precisarmos falar muito sobre o Kevin, também é necessário considerar a importância do amor materno, convivência com afeto e formação de caráter. Falar sobre os problemas é o ponto de partida para solucioná-los.
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