Pelo fim da camisa de força

Há pelo menos 40 anos, quem nascesse com algum distúrbio mental no Brasil era logo taxado de louco e excluído da sociedade. Hoje, essa realidade está mudando.

O tema é polêmico. Já integrou e ainda faz parte de muitas discussões. A luta antimanicomial, que teve seu pontapé inicial na Itália, em 1978 – quando uma lei proibiu novas internações em manicômios e determinou seu esvaziamento progressivo – ainda continua sendo defendida por muitos. Os psicólogos, profissionais da saúde com o papel mais significativo no movimento, trazem-no à tona e buscam uma consolidação das melhorias que a mudança proporciona.

Qual, afinal, a diferença entre uma cadeia e um hospício? A principal é a razão pela qual os indivíduos estão lá. Os presos infringiram alguma regra da sociedade. Porém, qual regra um doente mental deixou de respeitar? É essa a pergunta que os integrantes do movimento fazem à sociedade, para defender a liberdade de quem nasceu com algum distúrbio mental. Eles lutam pela ideia de uma sociedade sem manicômios, na qual todos possam conviver bem. No entanto, o tratamento não pode deixar de existir. Na concepção de quem defende a luta antimanicomial, os pacientes são tratados, não trancados, nem excluídos. E os Caps foram um grande passo nessa luta. Os Centros de Atenção Psicossocial foram criados em 1987. Atualmente existem 882 deles espalhados por todo o Brasil. Dois deles ficam em Passo Fundo.

Os Caps são divididos em 5 modalidades diferentes. Em Passo Fundo, há o Caps II, que funciona em municípios de 70.000 a 200.000 habitantes, e o Caps AD, que atende pacientes dependentes de álcool e drogas. O Caps II, intitulado Nosso Espaço, começou a funcionar como grupo em 1991 e hoje faz um trabalho de socialização e tratamento de doentes mentais graves. A nutricionista Clara Sales Bastos está na coordenação do Caps há 4 anos, e explica que a loucura passou por diversas fases de aceitação ao longo do tempo, influenciada pelas diferentes culturas. “Os loucos na história tiveram várias dimensões. Em uma época eles eram considerados deuses, porque faziam coisas diferentes, falavam coisas diferentes, se expressavam de forma diferente. Para outras culturas, eles eram o reflexo do demônio; então, eles tinham que ser segregados, não podiam viver com o resto da comunidade”, explica ela, ressaltando que “até hoje algumas tribos vêem os pacientes com sofrimento psíquico graves como enviados dos deuses.”

Sejam como loucos, sejam como deuses, os doentes mentais eram tidos como pessoas à parte da sociedade. Foi a partir do momento em que se passou a entender um pouquinho mais da mente humana que começou um movimento para que os doentes mentais fossem tratados.  Eletrochoques, banhos frios, surras e outras formas de “curá-los” começaram a integrar a rotina de atividades de um manicômio. “Tudo isso tornou os manicômios locais de muito sofrimento, onde eles batiam, colocavam em quartos escuros, separavam eles dos outros, deixavam eles nus, às vezes sem comer”, conta Clara. Ela explica que parar em um manicômio significava nunca mais sair de lá. “os manicômios eram locais muito tristes, essas pessoas iam pra lá e de lá elas não saíam nunca mais, as famílias abandonavam, a comunidade abandonava.”

Foi então que surgiu a consciência de que essa era mais uma doença no meio de tantas outras. É aí que vem a ideia de conviver em comunidade, como pessoas normais. “Começa todo um movimento pra que essas pessoas passem a desfrutar de um espaço na comunidade, dentro da família, que se fechem os manicômios, que eles passem a ser cidadãos de novo”, explica Clara.

Iniciativas que deram certo

E para que essas pessoas passassem a ser cidadãos, era preciso que se fechassem as “casas de horror” que haviam se tornado os manicômios. Para isso são feitas muitas estratégias pelo SUS. O Programa de volta pra casa, os Naps- Núcleo de Atenção Psicossocial, os Residenciais Terapêuticos e os Caps são alguns deles.

Caps II Nosso Espaço

O funcionamento de um Caps II é simples. Ele atende das 9h às 15h e fazem parte da equipe uma enfermeira, dois técnicos de enfermagem, uma fisioterapeuta, uma nutricionista, uma assistente social, três psicólogas, uma farmacêutica e uma psiquiatra. O trabalho com os pacientes se dá nesse horário. Eles vão até o local, ganham café da manhã, almoço, lanche da tarde e também participam de oficinas. São essas atividades, basicamente compostas de grupos de alfabetização, de artes, passeios, educação física e atendimentos individuais, que ajudam no desenvolvimento dos pacientes e os inserem na sociedade.

Os usuários entram lá de diversas formas. “Eles podem vir encaminhados pela estratégia de saúde da família, pela vara de família do fórum, pela Promotoria Pública, pelo Conselho Tutelar, eles podem vir da rede de assistência social ou simplesmente a pessoa pode passar aqui na frente, olhar, gostar e vir”, explica Clara, ressaltando que, hoje, eles estão acolhendo apenas dois novos pacientes por mês, porque o local já está lotado.

Os pacientes andam tranquilos pelo ambiente, esperando pelas atividades. João*, um rosto alegre e inquieto no meio de tantos outros, passa a maior parte do tempo tomando chimarrão. Ele conversa, quer saber quem são as pessoas novas circulando no ambiente que ele está tão acostumado a freqüentar. João vai ao Caps nas segundas e quarta-feiras. “Aqui é a nossa segunda casa”, diz.

A chance de convivência com pessoas de grupos diferentes anima os pacientes. Todos querem contar quem são, o que fazem e também fazer perguntas. Maria* e Diana* estão esperando pelo curso de tricô. Maria explica que já aprendeu a fazer toucas e mantas, mas Diana diz que está difícil acertar. “Minha cabeça não ajuda.”

O 18 de Maio e o evento que traz a mudança

Alunos de Psicologia da UPF em excursão ao Mental Tchê 2012

Agora, imagine um lugar onde circulam ao mesmo tempo médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, secretários de saúde de vários municípios, usuários dos Caps, técnicos, familiares de usuários e estudantes. É num ambiente assim que acontece todos os anos o Mental Tchê, no dia 18 de maio. O evento tem como sede São Lourenço do Sul e surgiu da iniciativa de uma secretária de Saúde do município, que, ao ver moradores que sofriam de doenças mentais sendo enviados para hospícios de outros munícipios, decidiu pensar em uma nova maneira de tratá-los, ali mesmo. Foi então que o município criou uma rede de atendimento psicossocial, sendo o primeiro do Rio Grande do Sul a instalar um Caps. A iniciativa deu certo e São Lourenço do Sul se tornou uma referência para quem conhece o assunto. O Mental Tchê é apenas uma consequência da ação.

Flávia Albuquerque, estudante do 7º nível de Psicologia na Universidade de Passo Fundo, participou da 7ª edição que aconteceu em maio desse ano. Sua percepção do ambiente se confunde com a sua opinião sobre a luta: ela não vê diferenças em um indivíduo com alguma doença mental e um cidadão dito normal. “E o mais interessante é que todos circulavam no evento sem nenhuma distinção de quem era quem. Portadores de doença mental circulavam entre pessoas ditas ‘normais’, ou será que os ‘normais’ circulavam entre os doentes mentais? E é assim a proposta da reforma psiquiátrica, que portadores de doença mental possam viver livremente em sociedade”, ressalta.

Luciane Albuquerque, que também é estudante de psicologia e participou do evento, tem a mesma opinião. Ela defende o tratamento fora dos manicômios, mas entende que essa é um luta árdua, que caminha devagar. “Não é possível simplesmente dizer ‘vamos fechar as portas dos hospitais e derrubar os muros das instituições’ sem antes implementar essa rede alternativa de atendimento.” E lembra também que essa mudança não depende apenas da boa vontade de alguns. “Isso é um processo que deve ser bem estruturado no município e depende do interesse público para que aconteça. É preciso oferecer essa rede de atenção de forma efetiva e eficaz em substituição ao modelo convencional, e isso não acontece da noite para o dia”, diz.

“A GENTE É NORMAL, A GENTE É IGUAL”

            Esse é um dos depoimentos de pacientes e de ex-pacientes que pode ser encontrado no site Rede Humaniza.

* Os nomes dos pacientes foram trocados para preservar suas identidades.

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