Crianças que apanham podem se tornar adultos com problemas psicológicos
Os castigos físicos empregados pelos pais na educação de crianças e adolescentes levantam questionamentos há muito tempo. A sociedade atual não vê mais na violência uma forma normal e sadia para exemplar e sustentar valores. As intervenções violentas dentro de casa podem ocasionar problemas na vida adulta de crianças e adolescentes. Estudos comprovam que crianças que sofrem intervenções como empurrões, palmadas, beliscões ou surras podem desenvolver na vida adulta algum tipo de distúrbio. Em pesquisa da Universidade de McMaster, no Canadá, uma equipe reuniu dados de 600 americanos inscritos no Exame Nacional de Epidemiologia em Álcool e Condições Relacionadas, dos Estados Unidos – que coletou dados de 34.653 pessoas maiores do que 20 anos entre 2004 e 2005 – e pôde observar que entre 2% e 7% dos distúrbios mentais apresentados, entre eles os transtornos de humor, ansiedade, bulimia, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), abuso de álcool e drogas, foram atribuídos a punições físicas na infância.
Segundo a psicóloga Márcia Angélica Dalla Lana, que atende famílias que sofrem com a presença da violência dentro do lar e que são encaminhadas para acompanhamento pelo Conselho Tutelar de Passo Fundo, torna-se quase que uma regra, a repetição, ou seja, quando os pais durante a infância conviveram com maus-tratos – pois as agressões se manifestam de forma repetitiva, aliadas a uma forma de exemplificação e doutrinação, e não em manifestações isoladas de violência – na vida adulta, reproduzem com os filhos a mesma forma de tratamento baseado na punição física. “Eu confirmo com o meu trabalho diário, uma estatística de 99% de repetição da criança ferida na infância e que, quando cresce e não elabora, não trata, não trabalha com esses sentimentos, manifesta o desapego também, o desamor em relação ao filho. Quase que em todas as situações o agressor hoje foi o agredido ontem”, diz Márcia.
Segundo a psicóloga, aquilo que pode se tornar um tipo de transtorno na vida adulta está inserido em alguma forma de abandono ou de distanciamento por parte dos pais durante a infância do filho. “Um pai ou uma mãe que bate ou negligencia a educação do filho, como deixá-lo cada dia em um lugar ou não se preocupar com a sua escolarização, ou que o presenteia excessivamente, sem construir vínculos estreitos de afeto, são a base de problemas emocionais que podem vir a se manifestar”, explica Márcia.
A pessoa que vivenciou momentos de maus-tratos na infância, agora, na vida adulta, manifesta transgressões de comportamento por não gostar de sua imagem, por não se querer bem. “É a criança ferida que se arrasta vida adulta afora trazendo consequências, fazendo com que não faça uma boa escolha profissional ou conjugal, por exemplo”, avalia. 
A resposta pode estar na atenção aos pais
Em problemas com crianças e adolescentes, em ocorrências que estão relacionadas às drogas ou ao álcool e ao crime, por exemplo, é nítida a presença de fatores relacionados a conflitos na relação com a família, mais precisamente com os pais. Quando pais e filhos entram em processo de avaliação psicológica pelo Conselho Tutelar, a fonte do distúrbio, e consequente resposta à razão do conflito e solução da maioria dos casos, se encontra na orientação e acompanhamento dos pais. Quando o pai e a mãe, como responsáveis pela criação de um ambiente sadio para o crescimento e desenvolvimento da criança, negligenciam e comprometem a educação do filho com o uso de violência dentro de casa, criam um indivíduo que luta contra o sistema que é forçado a presenciar, originando uma personalidade baseada na rebeldia e, consequentemente, adotando um comportamento equivocado.
A psicóloga Márcia Dalla Lana explica que o método para sanar as deficiências dentro de uma estrutura familiar que oferece dificuldade na relação pai/filho, e que é atingida por casos de violência, é o tratamento e acompanhamento dos pais, e não exclusivamente focando na vítima da agressão. “A minha pergunta para os pais é : como foi quando tu eras criança? E daí vê-se que se trata de uma repetição”, conta Márcia. O auxílio à família que tem pais já vitimados por violência na infância tende a resultar em um lar preparado para oferecer condições de desenvolvimento que não resultem em problemas mais tarde. Quando os pais mudam o comportamento na interação com os filhos, a criança, que, antes era transtornada por seqüelas sentimentais de agressões, reage. O círculo familiar estruturado transforma a criança e sua realidade sem precisar necessariamente a intervenção de tratamento direto com a vítima. “Os pais também têm que se sentir acolhidos, e não julgados. Aí não se trata de procurar culpados, se trata de resgatar pessoas”, conclui Márcia.
[stextbox id=”custom”]Barreiras sociais que impedem a chegada de denúncias e de tratamento para violência
Segundo o Conselho Tutelar de Passo Fundo, um grande parceiro nas denúncias de violência doméstica contra crianças e adolescentes são as escolas públicas. A instituição, ao perceber que existe algum indício de maus-tratos, encaminha a denuncia.
O que se percebe é uma menor ocorrência de casos de violência infantil em famílias de classe média e alta, ou seja, famílias que não estão em contato com a vulnerabilidade social. Já existem denúncias feitas e casos de violência acompanhados que comprovam a existência indiscriminada de violência partindo de famílias de classes ricas, porém, em volume menor se comparadas às denúncias que partem de famílias pobres.
A assistente social do Conselho Tutelar de Passo Fundo, Emanuela Fernanda dos Santos, classifica as denuncias e diz que existe muito menos exposição de famílias ricas.
“É muito difícil de uma escola particular entrar em contato com o Conselho para fazer uma denúncia. A maioria das denuncias partem de escolas estaduais e municipais, e quando a gente chaga na casa para verificar, é uma pessoa de poder aquisitivo menor. As denuncias são dificultadas porque as escolas particulares não nos trazem o caso. Outra criança, que está mais em contato com um vizinho ou com outras crianças na rua, conta o que acontece”, diz. Emanuela ainda acrescenta que o Conselho Tutelar foi responsável pelo tratamento de adolescentes que sofreram agressões e que hoje, na vida adulta, não apresentam sequelas. “Em muitos dos nossos casos, houve o encaminhamento psiquiátrico, e as vitimas, tempos depois, não apresentaram problemas na vida adulta”, conclui.
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