Se entendemos que a história é um processo dinâmico, é necessário registrá-la para que, através dos tempos, possamos rememorar os fatos.
Na primeira parte da série, vimos que os monumentos de uma cidade ajudam a contar e deixar viva a história de cada acontecimento ou pessoa que contribuiu para a formação da cidade que vemos hoje.
Para entender mais sobre o assunto, buscamos algumas respostas com Eduardo Knack, professor do curso de História da UPF e coordenador da ação pedagógica do Museu Histórico Regional. Confira:
Nexjor: O que significa um monumento sendo entendido como patrimônio da cidade?
Eduardo: Os monumentos podem ser considerados um patrimônio de uma cidade. Nesse sentido, é importante pensarmos no que é um patrimônio. A palavra patrimônio geralmente está ligada à herança de uma comunidade, aquilo que é de todos os sujeitos de uma sociedade. O patrimônio está associado à memória histórica de uma cidade, representa a identidade, os valores, a própria cultura de determinado grupo. Seria ingenuidade considerarmos que todos os bens patrimoniais (incluindo os monumentos, as ruas, as praças, etc.) representam todos os grupos de uma cidade. Constantemente, diferentes grupos utilizam espaços públicos para afirmar sua identidade e sua visão de mundo frente a toda comunidade.
Qual a importância de as pessoas conhecerem os monumentos?
A partir dos monumentos é possível conhecer parte da história de uma cidade, bem como conflitos simbólicos em torno da memória coletiva. Geralmente, os monumentos são construídos com a finalidade de marcar determinado acontecimento, de homenagear alguma pessoa, mas a principal finalidade é fazer com que o monumento vença o traumatismo do tempo, que o monumento carregue o significado que contém para outras gerações. Assim, conhecer os monumentos é conhecer as identidades que diferentes grupos procuraram afirmar, construir e legitimar frente à comunidade, muitas vezes de maneira conflituosa.
Os monumentos podem ser artísticos, representando pessoas, coisas que elas fizeram ou que remetem ao acontecimento em si. Você acha que, dependendo da forma como for feito, o monumento pode chamar mais ou menos atenção e se tonar uma curiosidade para quem passa e o vê?
Na minha visão, não podemos dissociar qualquer monumento ou construção no espaço público de seu significado político, mesmo que os grupos que construíram certo monumento venham a afirmar que seu objetivo é apenas artístico, ele sempre envolve uma ação política (explicita ou implicitamente). Nesse sentido, a beleza é relativa, bem como seu significado histórico, depende muito do contexto em que foi construído. Em Passo Fundo existem monumentos que praticamente caíram no esquecimento e virtude de transformações históricas que ressignificaram os acontecimentos que tais monumentos representavam. Por exemplo, poucas pessoas conhecem hoje o monumento que existe em homenagem à Revolução de 1964, na praça Ernesto Tochetto, isso mostra que houve uma ressignificação da sociedade frente ao regime e ao golpe militar de 1964. Portanto, o conhecimento e a valorização de um monumento dependem de como os grupos que os construíram perpetuam e legitimam junto à comunidade o valor simbólico que atribuíram ao bem no momento de sua construção e de acontecimentos que se operam no presente, ressignificando tanto a memória individual como coletiva.
O que é preciso para que as pessoas dêem mais atenção aos patrimônio? Preservar, promover…?
Para preservar o patrimônio histórico de uma cidade é necessário, em primeiro lugar, a conscientização da importância dos bens culturais de uma comunidade para compreensão de sua história. Isso só será alcançado a partir de um processo intenso de educação patrimonial. Não adianta preservar, tombar inúmeros prédios, monumentos, ruas, entre outros espaços, se não pensarmos em uma política de educação que envolva a comunidade com esses bens, proporcionando o contato com os monumentos. Só assim a comunidade passará a valorizar seu patrimônio.
O vandalismo traz junto o desprezo pela cultura e memória da cidade. Isso nos faz pensar ainda mais sobre a responsabilidade que temos pela conservação desses patrimônios. Fale sobre isso, o vandalismo e os transtornos que gera: gastos com restauração, dinheiro que poderia ser investido em outras melhorias…
Bem, a depredação do patrimônio público em geral mostra a necessidade da educação patrimonial, especialmente se pensarmos nos monumentos. Ninguém destrói aquilo que valoriza, que conhece. O poder público deveria pensar em implantar projetos de educação patrimonial que envolvam alunos das escolas de ensino básico, bem como a comunidade em geral, pois certamente reduziria os custos de manutenção, reforma, restauro e reconstrução de bens públicos depredados. Porém é necessário ter em mente que os esforços para conscientização da população a partir da educação patrimonial é um processo a longo prazo e os resultados só vão ser percebidos depois de anos.
[stextbox id=”custom” caption=”Programa Momento Patrimônio”]
Os cursos de História e Jornalismo, o Museu Histórico Regional (MHR) e a UPFTV da Universidade de Passo Fundo (UPF) produzem o programa televisivo Momento Patrimônio. Confira os programas completos.
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Nesta segunda parte, vamos mostrar outros monumentos da cidade, onde estão e a razão de sua existência.
HOMEM VOADOR
Onde está?
Parque da Gare
O que significa?
O conjunto arquitetônico que forma o Parque da Gare relembra o antigo local onde passava o trem, tendo O monumento simboliza que o ferroviário, no seu trem, voava com o mundo nas mãos.


Onde está?
Praça Armando Sbeghen. Av. Brasil, esquina com a Ângelo Preto.
O que significa?
Homenagem às jornadas literárias de Passo Fundo. Nela estão presentes os túneis literários contendo poesias, a Árvore das Letras e o quiosque que proporciona à populacão acesso ao acervo literário e a internet. Recentemente, estão sendo realizados cursos de inclusão digital gratuitos a todos que tiverem interesse.
CARAVELA
Onde está?
Localizado na entrada da cidade, no início oeste da Avenida.
O que significa?
Este monumento foi construído em concreto armado em homenagem aos 500 anos do descobrimento do Brasil.
MARCOS DO PULADOR
Onde estão?
Campo dos Melo, como eram chamados.
O que significam?
São dois marcos históricos da Batalha do Pulador, ocorrida durante a Revolução Federalista de 1883. Areferida Batalha ocorreu no dia 27 de junho de 1894. Os marcos são em forma de capitel. De um lado posiciona a força revolucionária dos federalistas ou maragatos, de outro, a uns500 metros, o marco das forças legalistas republicanas ou chimangos. No local, além das pedras da 1ª homenagem aos heróis ali tombados, outras duas placas registram o fato histórico.
MONUMENTO DAS MISSÕES
O que significa?
É uma homenagem à Redução de Santa Tereza de Igaí, considerada marco da expansão da Companhia de Jesus, os Jesuítas, no Planalto Médio. Foi trabalhado, basicamente, com simbolismos. A Cruz de Caravaca (conhecida como Cruz Missioneira) representa os jesuítas europeus. A pena de papagaio (usada pelos indígenas como ornamento cerimonial designativo de hierarquia) simboliza o silvícola (que ou quem vive nas florestas; selvagem; indígena). O brasão do Município de Passo Fundo lembra a nossa comunidade dos tempos modernos. A cruz e a pena entrecruzadas sugerem a interação, o entrechoque de duas culturas muito diferentes.

A evolução da história dessa Redução de Santa Tereza de Los Piñales é representada pela construção de uma muralha de pedras que cresce, em seu eixo longitudinal, desde o rés do chão até uma altura de cinco metros, formando o seu bordo superior um plano inclinado em arco. O tempo, essa dimensão imaterial que tudo separa e tudo une, é a via onde caminha a História. O vão existente entre a muralha e o pilar que sustenta o brasão municipal simboliza esse período transcorrido. Da mesma forma, a interpenetração do medalhão com o brasão municipal no espaço físico da muralha, simboliza a interdependência entre o presente e o passado na formação da comunidade.







