O fantástico universo de Machinarium

Seguindo os passos de “Braid”, jogo indie impressiona pela beleza e diversão

Podia ser uma lata de sardinha, uma peça, ferramenta ou então a sofisticada parte de uma nave espacial, mas não é. O nosso herói é um simples pedaço de lata, um pequeno e solitário robô. Ok, nem tão simples assim, já que ele consegue se esticar um pouco para cima e guardar itens em seu interior, mas está longe de ser destrutivo como o Robocop ou malígno como Hal-9000. O tal robô vive em um mundo parecido com o nosso, mas onde tudo é feito de metais. È um lugar ao mesmo tempo complexo e simples. Diga-se de passagem, esse é o principal atrativo desse simpático robozinho.

Criado pela equipe do Amanita Design, estúdio independente fundado em 2003, Machinarium é uma daquelas obras raras que realmente dão gosto de jogar tanto pela sua ideia e concepção quanto pela diversão proporcionada. Machinarium pode ser um divisor de águas àqueles que duvidam do valor artístico dos games. Junte gráficos desenhados à mão com a forma clássica de se contar uma história e teremos uma jornada fantástica em um universo de pixels metálicos.

Misturando parcelas consideráveis de humor e romance, a obra é classificada como ficção científica. O jogo é um point and click, ou seja, você aponta e clica com o mouse para efetuar as funções e desenvolver a história. Feito originalmente para PC e Mac’s, Machinarium também será lançado para Wii e PS3 ainda em 2011. Apesar do visual caprichado, não é preciso um PC da Nasa para rodá-lo. O único requisito é ter o Flash instalado no computador – mesmo programa usado nos jogos de redes sociais.

Em uma época de controles de movimentos, de gráficos que ultrapassam os milhões de pixels por segundo e dos MMORPGs que entopem as conexões da web, ainda é possível encantar o público com pura criatividade e simplicidade. Enquanto a indústria caminha para um momento cujo foco é a mobilidade e a interatividade, ideias como Machinarium surgem simbolizando uma espécie de resistência às mudanças, uma alternativa inteligente ao mercado mainstream. O jogo entra no hall de obras como Braid, Osmos e World of Goo, todos produzido por softhouses independentes e grandes sucessos de vendas e críticas, apesar dos orçamentos não chegarem aos pés de títulos como Call of Duty e GTA.

Acontece que ambos os estilos, comercial e artístico, podem conviver e coexistir tranquilamente. O cinema é um exemplo disso. Muitos afirmavam que a evolução digital acabaria com valor artístico do cinema propriamente dito, mas nada disso ocorreu. O mesmo vale para os games e seu inerente peso cultural e interface artística. A popularização de obras como Machinarium é uma prova de que existe uma fatia do mercado extremamente receptiva para os games independentes. A iniciativa do site Humble Bundle corrobora essa ideia. Você pode comprar Machinarium em um pacote com cinco jogos neste link.

Pulando da indústria para o game propriamente dito, a identidade visual Machinarium é o que mais chama a atenção. Seus cenários são pinturas feitas à mão, dos elementos mais simples até as deslumbrantes paisagens e horizontes. Conforme os produtores, a inspiração para o universo do jogo veio de máquinas enferrujadas e indústrias abandonadas. Vários filmes e livros de ficção científica serviram de base — Douglas Adams, Júlio Verne, Ray Bradbury e Stanley Kubrick. Da mesma forma os games Grim Fandango, Gobliiins e Myst foram a influência.

O protagonista é banido da cidade e acaba sendo jogado em um lixão por robôs vilões, que aterrorizam os moradores. Movido pela saudade de sua namorada, ele retorna ao local para encontrar seu amor metálico. Não existem nomes, somente sons e movimentações. Assim como nos filmes de Chaplin, a trama é contada sem uma única palavra. Tudo é relatado através de gestos, seja pelas cenas in-game, seja nos balões de falas similares aos quadrinhos. O nível de dificuldade dos quebra-cabeças é um atrativo para os gamers mais aficionados e/ou experientes. Apesar da aparência simpática, em muitos momentos será preciso bem mais do que alguns neurônios para resolver os problemas.

Em poucas palavras, esta não é uma obra para o jogador casual, não é para os fãs de franquias que ganham um novo episódio a cada seis meses. Este jogo não é para quem vê o videogame como uma brincadeira passageira. Com um visual impressionante e uma trama contada de maneira criativa, Machinarium é uma odisseia irresistível em um parecido com o nosso, além de ser a prova cabal de que existe vida — e muito inteligente — fora do mainstream.

Machinarium
[xrr rating= 5/5]Amanita Design – Para PC e MAC
PRÓ
– Visual arrebatador
CONTRA
– Dura pouco tempo
TRAILER:
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