A resistência ao cinema nacional combina com o medo de esbarrar em mais um clichê: histórias de crianças pobres, vítimas de violência, de preconceito, renegadas pelo presente e submissas a sorte de um futuro incerto. A escassez de exceções ao senso comum causa estranhamento ao expectador que se depara com uma história caracterizada pelo estereótipo da produção cinematográfica brasileira e que, por mais incrível que pareça, consegue encontrar subsídios para escapar da rotulação e cativar o público com um enredo emocionante.
Retratando a vida do menino Roberto Carlos Ramos – que rendeu, inclusive, um comercial para a campanha nacional “Sou Brasileiro e Não Desisto Nunca” -, o filme “O Contador de Histórias” explica como o carinho e o afeto são capazes de mudar a vida de uma criança pré-julgada por todos como um caso irrecuperável. A mãe de Roberto decidiu interna-lo na FEBEM quando ele tinha seis anos, na tentativa de oportunizar uma vida melhor. No entanto, até os treze anos de idade, o caçula dos dez irmãos contabilizou mais de 100 fugas da entidade assistencial.
Não obstante a falta de esperança do menino, o desencorajamento partia não somente da vida, mas também da diretora, que desacreditava na construção de um futuro digno para Roberto. O destino incerto só se transforma em sorte quando uma pedagoga francesa, que visitava o Brasil para desenvolver uma pesquisa, se interessa pelo “irrecuperável” e se dispõe a contradizer a denominação. Apesar da relutância inicial do menino, a pedagoga Margherit Duvas consegue se aproximar dele e iniciar uma relação afetuosa que, com o passar do tempo, se revela uma intensa autodescoberta para ambos.
A completa falta de correspondência entre o futuro programado para um menino de 13 anos, analfabeto, usuário de drogas e personagem de diversos assaltos nas ruas da capital mineira, e a realidade que garantiu espaço na vida do irmão caçula, é o que dá um tempero especial ao enredo. A produção do diretor Luiz Villaça exemplifica o ditado popular: “o mundo dá voltas”. De certa forma, é irônico perceber que justamente aquele que não tinha perspectiva alguma de escrever as linhas da sua própria história se tornou um dos maiores especialistas em literatura infantil do país. Um exemplo de vida, esperança e superação que não beira a monotonia e previsibilidade, e frequentemente persuade o expectador a acreditar que a irrecuperabilidade do caso é incontestável.
Roberto Carlos Ramos não é apenas mais um sobrevivente da guerra diária travada contra as substâncias ilícitas. A nossa pátria amada já perdeu milhares de crianças e jovens para o tráfico de drogas, colocando em xeque o futuro de uma nação em desenvolvimento, que peca, justamente, por sair rotulando “casos irrecuperáveis” país afora sem promover iniciativas que resgatem aquilo que tem morrido antes dos nossos pequenos futuros ambulantes: a esperança. Além disso, o filme é um tapa de luva na hipocrisia daqueles que, assim como eu, desacreditavam no poder de transformação social de um indivíduo com história semelhante ao do contador de histórias.
Uma obra impecável e que até choca pelo consistente entrelaçamento com a realidade. Possivelmente, o mundo esteja precisando de mais pedagogas francesas que esbarrem na ignorância dos índices sociais e acreditem no ser humano por trás de todos os números que ilustram a criminalidade no país. Somente quando a esperança triunfar sobre as rotulações, aí sim, todos teremos boas histórias para contar.
[xrr rating= 5/5]
Assista à crítica Nexjor sobre o filme:
httpv://www.youtube.com/watch?v=3lo9WZU6_Qo
Confira a entrevista de Roberto Carlos Ramos no Programa do Jô. Vale a pena!
httpv://www.youtube.com/watch?v=BMlfGjyHSBQ
httpv://www.youtube.com/watch?v=UCWS5Qm9pYw&NR=1
