Foi com um chamamé de raízes fincadas em solo gaúcho que Luiz Carlos Borges subiu ao palco em Passo Fundo
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O cantor Luiz Carlos Borges apresentou o espetáculo “Quarteto”, com os músicos Marco Michelon, Yuri Menezes e Rodrigo Maia esta semana no Teatro do Sesc em Passo Fundo. Baseando-se no regionalismo, Borges participou do Movimento Nativista no Rio Grande do Sul, que se desencadeou pela criação de festivais. E foi em um destes festivais que Luiz Carlos Borges iniciou sua carreira, durante a 9ª edição da Califórnia da Canção RS, a composição Tropa de Osso foi premiada e engrenou sua participação em festivais.
Músico, compositor, arranjador, instrumentista e intérprete, ele possui 35 discos gravados, fez shows por diversos países da Europa e devido sua intimidade com os ritmos sul-americanos possui parcerias com alguns cantores argentinos. Minutos antes do show o cantor conversou com o NexJor.
NexJor – O início da sua carreira solo foi marcada pela premiação da composição “Tropa de Ossos”, na 9° edição da Califórnia da Canção Nativa RS, movimento que revolucionou a música gaúcha. Como é estar sempre investindo nessa renovação da música regional?
Borges – A Tropa de Osso é meu divisor de águas. Antes dessa composição e da premiação na Califórnia da Canção Nativa, eu era cantor de baile. Adorava viajar e tocar com os Irmão Borges, um conjunto da família. Então fui convidado pelo Humberto Zanatta (também autor da Tropa de Osso), para inscrever este trabalho na Califórnia da Canção. Mandamos, sem pretensão, e a música foi premiada. A partir disso o Borges começa a se transformar. Aos poucos me ausentei dos bailes para compor exclusivamente para festivais e vislumbrei uma luz. Não sabia se era um movimento nativista e se realmente existia esse movimento, mas participando desses encontros me dei conta de que existia uma idéia nesse sentido e fui um dos fortalecedores da iniciativa. A partir dos anos 80 nasceram outros festivais colaborando para o movimento, fortalecendo a música regional. E embora hoje, a formula dos “festivais” dentro do movimento nativista esteja enfraquecida, desgastada, o movimento não está. Ele cresceu e é modelo, uma referência de manifestação cultural no Rio Grande do Sul. Por isso, nós precisamos encontrar alternativas o movimento.

NJ – Em 1992, você lançou seu primeiro CD Internacional Gaúcho Rider e fez shows em diversos países da Europa. Como foi a experiência de levar, através das canções, a cultura regional gaúcha para outros países, e como ocorreu essa integração?
B – No início achei estranho e ao mesmo tempo surpreendente. Os primeiros shows foram complicados, mas eu tinha uma coisa que me ajudou muito, que eram outros músicos brasileiros, que moravam lá, e com quem eu fui tocar: Alegre Correa, Gringo Sargioratto, Claudio Frasê e Fernando Paiva. Como eles tocavam Bossa Nova, Jazz, MPB, quando surgiu a oportunidade de levar a música regional gaúcha, eles adoraram. Fizemos uns vinte shows e logo em seguida gravamos o CD Gaúcho Rider.
NJ – Você gravou um CD na Argentina, com cantores e compositores argentinos. Existem semelhanças entre a sonoridade, composições e cultura Gaúcha e Argentina?
B – Nós somos semelhantes aos gaúchos argentinos na bombacha, na bota, no lenço, no sombrero que é o chapéu, no churrasco, no encilhar o pingo. Temos uma irmandade cultural com a Argentina. As expressões idiomáticas estão muito próximas, calcadas no espanhol. Sou apaixonado pela Argentina, fui quase que um irmão para Mercedes Sosa e ela pra mim.

NJ – Nas composições, nos arranjos, o que mais te influencia. Você busca essa sonoridade em outras culturas além da música gaúcha?
B – Eu sofro influencias de tudo um pouco, sou uma pessoa muito moldável em termos de cabeça musical. Adoro Luiz Gonzaga, um dos maiores compositores de todos os tempos e tenho influencias dele. O velho Pedro Raimundo que tocou a música gaúcha e aderiu a nossa bombacha. Ele era um catarinense de Laguna, que durante os anos 30, 40 e 50 deixou uma obra maravilhosa e demonstrou uma afeição pela cultura regional. Tenho influencias também na Argentina, como Juanito Barbosa, Teresa Paródi e o canto da Mercedes Sosa, que é uma coisa muito universal, não “gaucho”, mas do mundo todo. Sou fã de um bom Jazz, de um bom Blues. Basta lembrar dos grandes músicos que vieram do Mississipi e do velho folk americano: eu amo, passo noites ouvindo. Não copio, porque acho que bateria de frente com meu estilo, mas busco elementos de informação. Sempre digo que em termos de estilo e inovação, só pode alçar vôo quem tem porto para voltar, ou seja, esse porto de volta é o conhecimento. Se eu sei vanerão, sei chamamé, chote, rancheira, conheço um pouco da tradição e história do Rio Grande do Sul, e a partir disso posso inovar sem perder a referência. Se eu não tenho base da minha raiz folk para me amparar, é difícil alçar vôo, porque eu vou me perder no espaço e não vou ter para onde voltar.
NJ – Como você, Luiz Carlos Borges, vê a música nativista atual, composição e sonoridade. E como os novos cantores vêm se enquadrando nesse “nativismo”?
B – Tem uma moçada inovando dentro do movimento. Eu ainda não tenho certeza se para o bem, para o médio ou quem sabe, até um pouquinho para o mal da música regional e nativa gaúcha. Mas não importa ainda ter essa definição, o que importa é ter gente tentando. Temos hoje bons seguidores de Telmo de Lima Freitas, Elton Saldanha (que eu acho uma grande referência) e do próprio Borges. Tenho sido referência para alguns colegas mais jovens, no estilo de tocar acordeão e talvez no de compor também. Nas propostas novas temos de Érlon Péricles, Ângelo Franco e Shana Müller, que não é compositora, mas é uma excelente intérprete, atenta ao antigo e ao novo. Para mim ela é a melhor voz feminina do estado hoje. Essa idéia de inovação foi o que eu sempre fiz, busca-la, sempre com muito cuidado e pés no chão. O que eu noto hoje, é que está faltando base para alguns jovens cantores, o porto de volta.
Interação com o Público
O ponto alto do espetáculo e de delírio para o público foi quando Luiz Carlos Borges cantou Gaúcho de Passo Fundo de Vitor Mateus Teixeira – Teixeirinha.
