Abordando a temática “Jornalismo em Pauta”, Rodrigo Lopes, jornalista multiplataforma do grupo RBS, falou sobre a emoção ligada à profissão e o uso de novas tecnologias na produção de conteúdo em concorrida palestra na UPF
Uma vasta bagagem de experiências e muitas histórias para contar. Quem participou da palestra em comemoração aos 47 anos de Zero Hora, realizada na UPF na ultima quinta-feira, dia 5, entende o sentido dessa frase. O jornalista multiplataforma do Grupo RBS, Rodrigo Lopes, conversou informalmente com os acadêmicos e o público presente, que lotou o auditório do prédio G3. Em entrevista especial para a equipe do Núcleo Experimental de Jornalismo, Lopes contou um pouco mais sobre o novo perfil do jornalista no mercado de trabalho e compartilhou algumas curiosidades de suas coberturas internacionais.
Nexjor: Você afirmou no seu twitter pessoal que a entrevista dos seus sonhos, atualmente, seria com o atirador que disparou o tiro fatal em Osama Bin Laden. Por quê?
Rodrigo Lopes: Há muitas pessoas que eu gostaria de entrevistar, mas acho que fui movido pela curiosidade: há tantas questões obscuras sobre a operação que matou Bin Laden, que acho que só mesmo os soldados que estavam lá sabem. Logo, se ele pudesse falar, acredito que teríamos detalhes muito interessantes. Minha primeira pergunta seria: Bin Laden reagiu como, se estava desarmado? O que ele disse? Falou em árabe? Onde estava? Na cama mesmo, como se falou? Como o soldado se sentia ao matar o mentor dos atentados que fizeram tantas pessoas sofrerem em 11 de setembro? Ele se sentia um herói? No que pensou ao atirar? Nas famílias das vítimas do terrorismo? Nos filhos dele? Ele se sente orgulhoso? Ou não pensou em nada e apenas cumpriu sua missão? São algumas perguntas que eu faria.
N: O jornalismo é caracterizado, principalmente, por seu papel social. Participar de coberturas especiais, como a morte de João Paulo II, a catástrofe do furacão Katrina, o terremoto no Peru, entre outras, certamente lhe proporcionou uma enorme bagagem de experiência. Qual das coberturas mais lhe enriqueceu como profissional? Por quê? Como é essa sensação de ajudar a escrever a história do mundo?
R: Cada cobertura tem um enriquecimento pessoal e profissional. Acho que cresço muito como ser humano em cada uma delas, estou sempre aprendendo. O frio na barriga é o mesmo da primeira vez: o medo de não conseguir entrar num país sitiado, de não conseguir transmitir, por causa da internet falha, o que encontrarei pela frente. Muita ansiedade passa pela minha mente enquanto voo em direção a uma cobertura. A mais difícil do ponto de vista emocional foi o terremoto do Haiti, por causa das cenas muito fortes. No Katrina, por exemplo, eu ainda era muito jovem e inexperiente, então considero que aprendi muito naquela também. A sensação de ser testemunha da História é o que me leva a gostar tanto do que faço. É muito incrível, emocionante, me arrepio ao lembrar que estava lá no Grant Park de Chicago, por exemplo, quando Obama fez o discurso da vitória ou quando Bento XVI foi anunciado Papa. Se um dia os historiadores contarem essas histórias, certamente um pouco de mim estará lá também.
N: Como profissional multimídia, qual você considera a característica indispensável e fundamental exigida ao perfil desse novo profissional?
R: Conteúdo. O profissional tem que ter conteúdo. Se não tiver conteúdo, não haverá mídia que sustente. A base de uma reportagem é a narrativa, seja ela em rádio, tv, jornal, internet ou qualquer outra mídia que inventarem. É preciso ser dinâmico também, gostar de tecnologia e ser organizado.
N: Em uma escala de 0 a 10, qual a importância da Internet para o Jornalismo hoje em dia? Você acha que o jornalismo “sobrevive” sem a tecnologia?
R: Atualmente, não sobrevive mais sem tecnologia. Acho que daria nota 7, pois a internet é importante para interconectar pessoas. Hoje, praticamente podemos reportar de qualquer lugar do mundo graças a ela, mas as exigências também aumentaram. Já não se aceita mais erros primários de informação. Qualquer pesquisa no Google resolve uma dúvida, mas volto a afirmar que, se não houver conteúdo bom, não adianta ter a melhor das tecnologias.
N: O Jornalismo B criticou arduamente as postagens do seu blog em 2009, argumentando que você era um jornalista que escrevia sem emoção. Qual a relação que deve existir entre o sentimento e a informação na hora da escrita? Existe como discernir o lado pessoal do profissional em situações como as que você vivenciou nas coberturas internacionais?
R: Acho que a emoção é uma das principais características das minhas coberturas. Não há como separar o jornalista do ser humano. O jornalismo é o templo da subjetividade e o jornalismo sem emoção está fadado ao fracasso. Sou um cara extremamente emotivo, me comovo com as histórias das pessoas. Não há como ficar isento diante do sofrimento em situações de catástrofes, vendo o ser humano dilacerado física e emocionalmente.
N: Jornalista costuma ser reconhecido como um profissional que trabalha muito e ganha pouco, e, exatamente por isso, deve amar o que faz. Mesmo sendo um jornalista envolvido emocionalmente com a profissão, existem pontos negativos. Qual a pior parte de ser um profissional da comunicação?
R: Precisamos, como categoria, nos unir mais para reivindicar alguns direitos, mas, infelizmente, a maioria dos sindicatos está envolvida com partidos políticos, o que faz com que percam a independência e legitimidade. Acho que a remuneração ainda é um grande problema, especialmente no Rio Grande do Sul.
N: O perfil dos telejornais mudou bastante ao longo dos anos. Hoje, produtos do Grupo RBS, como o próprio Jornal do Almoço, alteraram seu formato para melhor se adequar às necessidades do público. Essa interatividade prejudica a qualidade da informação?
R: Acho que a interatividade, em si, não altera a qualidade da informação, mas deve haver um limite entre o que o público quer e o que os jornais dão. O profissional da comunicação ainda é o cara que deve estabelecer, baseado em critérios claros e objetivos, o que é notícia. Produtos como o Jornal do Almoço ou o Diário Gaúcho conquistaram um público que está crescendo muito: a classe C. O DG, por exemplo, conquistou um público que não lia jornais. Isso é muito legal. As pessoas se sentem representadas por esses produtos e isso muda, sim, a sociedade. É aquele tal do papel social.
N: Antigamente, o jornalista corria atrás da informação; hoje, muitas vezes, é a própria informação que chega até o jornalista, através das redes sociais que proporciona uma enorme instantaneidade ao dissipar o conteúdo produzido. Essa inversão de papéis, por assim dizer, prejudicou os jornalistas ou aumentou o nível de exigência para o profissional atuante no mercado?
R: Acho que em alguns momentos prejudica, sim. Há muitos jornalistas que preferem ficar apurando pela internet que tendo contato direto com as fontes. Nada substitui o pisar no barro, o repórter em campo, o olho no olho, a emoção do toque, do aperto de mão, a boa e velha conversa. Isso só se dá em um contato direto com o entrevistado. O e-mail não substitui a entrevista.
N: “Jornalista é abutre”. Com essa frase, você explicou sobre o interesse do jornalista em estar sempre bem informado. Em que ponto essa curiosidade aguçada pode prejudicar o trabalho?
R: Quis dizer que jornalista é abutre porque parece que estamos sempre atrás de notícias ruins, mas não concordo com esse meio de se fazer jornalismo. Acho que boas notícias também vendem jornais e temos que olhar mais para elas.
N: Adaptar a linguagem aos diferentes tipos de mídia é um dos maiores desafios do profissional multimídia. Qual o principal critério para definir o que deve ser dito em qual meio?
R: Cada veículo tem sua especialidade. No rádio é a notícia imediata, o breaking news; se uma informação é exclusiva, deve ser dada imediatamente no rádio. O jornal é mais análise, contexto, explicação, textos mais apurados, com muita emoção. A televisão tem a questão da imagem: se tens uma boa imagem, deve guardá-la para a televisão, aproveitar a emoção que ela provoca. Já a internet é a união de tudo isso em prol de um trabalho mais completo. O que não pode ocorrer é a repetição de informações pelas mídias, ou seja, o mesmo texto do jornal, no rádio ou na TV. Hoje, o público não aceita mais isso. Exige conteúdo exclusivo e diferenciado pra cada uma das plataformas.
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