“Pânico 4” recupera a série ao rir de si próprio em exercício de metalinguagem

O grande mérito de “Pânico”, franquia criada em 1996 pelo mesmo Wes Craven que deu garras e queimaduras a Freddy Krueger em 1984 – e que criou “Quadrilha de Sádicos”, pouco conhecido do público, nos anos 70 – era o fato de Craven fazer, na série, uma mescla de metalinguagem, sátira, releitura, homenagem e crítica, tudo dentro do mesmo pacote. Revitalizou o “slasher” popularizado nos anos 70 e principalmente nos anos 80 fazendo troça do próprio gênero, mas sem esquecer de falar diretamente à uma geração que estava mais antenada com novos sustos, efeitos e estava atolada em um caminho sem saída. Craven apontou uma saída temporária com um revival saudosista que parecia um sopro de novidade, mas não era nada além de uma esperta sacada: ria de si próprio, porque em breve outros farão isso. Quem não entendeu deu origem a uma série de imitações explorando o slasher – “Eu sei o que vocês fizeram no Verão Passado” e suas continuações, “Lenda Urbana” e outros. Só que a fórmula funciona, realmente, nas mãos de quem sabe fazer esse leitura de forma irônica-crítica-satírica. Craven experimentou do próprio veneno quando o peso dos milhões nas bilheterias se misturou à necessidade de explorar a fórmula. As partes 2 e 3 de “Pânico” pareceram esquecer que seu próprio criador fazia piada do gênero e tentaram ser mais sérios do que deveriam. A série afundou, e com ela o breve sopro de vida do estilo.

Corta para 2011, 15 anos após a estreia do primeiro filme, e o que se vê é um Wes Craven chegando ao cinema trazendo nas costas uma imensa vontade de criticar o que foi feito com o que ele havia criticado e satirizado. Nesse meio tempo, o que antes era terror e suspense se tornou comédia – a infame série “Todo Mundo em Pânico” – comprovando o que o xerife Dewey diz em determinado momento: “O que é tragédia para uma geração é a piada da geração seguinte”.

Se “Pânico 4” é tão melhor do que seus dois antecessores é porque ele goza de si próprio com ainda mais propriedade do que o primeiro filme brincava com os clichês do gênero. Tanto que agora, quando Sidney Prescott volta a Woodsboro e os crimes protagonizados por Ghostface recomeçam, a metalinguagem é ampliada. Não apenas pelo início que mostra o “filme dentro do filme dentro do filme”, mas pela própria situação de inserir um acontecimento como combustível midiático e fenômeno pop dentro de uma diegese fictícia que se alimenta, também, de uma série fictícia – “Stab”, a série de filmes baseada no acontecimento de Woodsboro que só existe no mundo da ficção. Mais confuso ler do que ver e entender. Em “Pânico 4”, também aflora a modernização do discurso de ironia: agora não são apenas as regras e clichês do gênero que são evocadas antes das mortes, mas as regras das continuações e, principalmente, dos remakes. E, então, Craven insere na boca de uma personagem toda a sua mensagem de “não mexa com o original” quando se cita mais de uma dezena de refilmagens de filmes de horror do passado, apontando para a pobreza de ideias e novos rumos no cinema de horror norte-americano (Craven ainda poupou a moda das refilmagens orientais, que poderiam ter aparecido em um ou outro momento).  Completando esse discurso, de forma explícita, a série gore “Jogos Mortais” e sua “pornografia sanguinolenta” recebe um tapa na cara logo na cena inicial, que também usa desses clichês para brincar com seus personagens – todos sabem que esses personagens irão morrer, o que mais importa, nessa sequência, é ver como Craven irá brincar com tudo o que foi sendo formulado para o gênero nos últimos anos.

“Pânico 4” não poderia deixar de seguir a cartilha dos outros filmes, sob pena de perder parte do público que esperava pelo reinício da série. É nesse momento que ele se enfraquece, quando o discurso e a metalinguagem dão lugar ao filme de horror e é preciso definir quem são os assassinos. Não dá para negar que a brincadeira consome o filme e o público tenta descobrir quem são os assassinos, e Craven se diverte com isso, jogando suspeitas sobre todos os personagens. É quando a revelação acontece que o filme cai por terra, principalmente em seu final. Craven poderia percorrer outro caminho e continuar usando um bom humor negro para encerrar de vez a franquia com inteligência, mas ele honra o que ele próprio defende (“Não mexa com o original”). Até esse final, “Pânico 4” já cumpriu seu objetivo. Entre o desfile de conhecidos personagens e a retomada de usuais clichês, recupera a ironia que se perdeu depois de 1996 – e dessa vez com a certeza de que não será seguido por filmes aproveitadores de sua ideia, afinal, ele ri de si próprio.

[xrr rating=3/5]

httpv://www.youtube.com/watch?v=TRqrbyMpYyk

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