Um bate-papo sobre cinema e educação

Em 2005 conversei com Pedrinho Guareschi, que veio à convite de um evento sediado na UPF.  Ao término do evento tivemos um bate-papo sobre cinema na educação.

Passaram-se seis anos desde a minha conversa com Guareschi e,  neste tempo, que não parece muito, algumas novidades impactantes no universo da arte cinematográfica surgiram. Ainda não tínhamos o cinema 3D e tecnologias como no filme Avatar (2010) que iniciaram uma nova fase de entretenimento. As premiações mais famosas do cinema, Oscar e Palma de Ouro, premiaram em suas várias categorias no ano de 2005 filmes como O Aviador, Homem-Aranha 2, Os Incríveis (filme de animação), Mar Adentro, Brilho Eterno de Uma Mente Sem lembranças, Menina de Ouro, A Criança, entre outros. Filmes estes com estilos bem diferentes daqueles que Pedrinho cita durante a entrevista. Para ele o cinema continuou nostálgico, mostrando que a essência dos filmes antigos permanecem em sua vida e que a arte dos fotogramas em movimento pode ser uma parceria construtiva na educação.

Pedrinho Guareschi tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social, atuando principalmente nos seguintes temas: mídia, ideologia, representações sociais, ética, comunicação e educação. Com a temática voltada aos meios de comunicação escreveu e organizou vários livros: Mídia e Democracia; Mídia, Educação e Cidadania; Uma Nova Comunicação é Possível; Comunicação e Controle Social; Comunicação e Poder e Diário Gaúcho: que discurso, que responsabilidade social?

Fabiana: Quando eu falo a palavra cinema, o que lhe vem à mente?

Pedrinho: O cinema para mim é uma arte que me ajuda a compreender o cotidiano, saber como o mundo vai. É alguém que me leva, que me tira dos afazeres cotidianos corridos por uma hora e meia ou duas, e me obriga a ver um começo, meio e fim de uma aventura, de um romance ou mesmo de um documentário. Então, para mim, o cinema é uma espécie de descanso, de recreação educativa, porque é neste momento que você se concentra, você está sozinho, você não fica falando durante o filme. Você recebe uma mensagem, mas tem tempo de reflexão em torno dela, de crítica. Eu escolho muito bem os filmes que vou assistir. Para mim é uma oportunidade de ter contato com o mundo, ver o que os pensadores, os artistas estão discutindo do cotidiano, que temas importantes estão selecionando para trabalhar, e como que, disso, eu posso também conhecer melhor o cotidiano, conhecer melhor a mim mesmo muitas vezes e, ter ao mesmo tempo uma recreação, um descanso, um prazer.

F: De que forma, dentro da educação, um professor que trabalha em sala de aula pode colocar o cinema dentro do dia a dia dele profissional?

P: Eu penso que os professores cada vez mais tendem a trazer o cinema sim, mas também, partes das novelas, dos noticiários, parte dos programas de auditórios para a escola, para se fazer uma reflexão sobre isso. Nesse livro Mídia, Educação e cidadania, o quarto capitulo, a gente tem até umas indicações de como a escola pode trabalhar estes elementos todos, e, até eu sugiro lá, passos pra isso.

“Um exemplo é colocar dez minutos da novela para assistirem, depois fazer 02 perguntas: O que você gostou ou não gostou? O que acontece neste momento?; por incrível que pareça às pessoas estão falando, participando criticamente, não estão mais só vendo e ouvindo.”

Depois mais 02 perguntas: com o que você concorda ou discorda? Porque um juízo?; aí as pessoas estão falando e pensando. Terceiro passo: Se você discorda, como você faria? Então eles estão falando, pensando e criando, porque estão sugerindo alternativas. E finalmente, se possível, vamos fazer então aqui o novo cinema, a nova novela. A quem vamos encenar? Então elas estão pensando, estão falando, criando, fazendo e encenando. E se você puder filmar aquilo que elas fazem e depois passar numa tela, então desmistificarão aquela idéia de que quem está na tela é só gente boa… Não! Eles se verão lá. As experiências que a gente teve com grupos populares nas escolas são fantásticas, como que desmistifica a idéia. Quando se faz um exercício assim na escola, duas ou três vezes, essas pessoas quando vão ver um filme, quando vão ver novela, quando vão ver noticiário, quando vão ver televisão, nunca são as mesmas, porque elas viram, discutiram e fizeram exercícios, que eu chamaria de consciência crítica. Então, todo esse sistema: de mostrar o filme, depois dizer uma crítica do filme, o que o filme quer dizer, qual o começo, meio e fim do filme, poderia ser diferente esse filme, o que você gostou deste filme, do que você não gostou, e se você fosse fazer um filme diferente como você faria, e ate se possível, fazer encenações de cenas diferentes do filme de que elas não gostaram; torna-se um trabalho fantástico, e isso traz a consciência critica e os alunos, professores, funcionários que participarem na escola serão novos cidadãos, serão críticos no que pensam.

F: Isso não seria de repente uma boa brincadeira, um “jogo” pra se fazer em casa com a família depois de assistir a um filme?

P: Também. Se você conseguir reunir a família (risos). O grande problema é você conseguir reunir a turma. Então nas comunidades de base em Porto Alegre, nas vilas, a gente faz isso. A gente passa um filminho e depois faz então estes passos. Quatro passos, do que gostou e não gostou, com o que concorda ou não concorda, como você faria, e depois se faz algo com o que se viu. O grande problema é a audiência, você ter uma audiência. Mas a escola é uma audiência cativa. Quanto professor que não sabe o que fazer. Tem lá uma hora e meia, duas, sem saber o que fazer. Um exercício ótimo, excelente. Olhe, não sabendo o que fazer, grave um pedacinho da novela e depois vai lá e dá esse espaço  pra  olhar, pra refletir. A experiência que eu tenho é fantástica!

F: Pra ti o que é um grande filme e o que é um pequeno filme?

P: Muitas vezes eu prefiro filmes mais curtos. Um bom filme, um grande filme é quando ele tem uma organicidade, quando ele tem um começo, meio e fim, quando ele traz uma mensagem, quando ele pega um problema humano e tenta desmistificar, tenta complexificar esse problema, então pra mim o grande filme é isso.

“Eu acho que o filme cada vez mais tende a ser uma reflexão sobre a vida humana, onde o ser humano se encontra com problemas que são de alguém, mas de repente são seus também. Então, é uma tentativa de reflexão critica da situação humana.”

Filmes espargos tudo bem, mas mesmo filmes históricos, ele deveria enfocar, problematizar o problema. Por que surgiu tal situação, e claro, se quiser mostrar como foi, sim, mas o fundamental para mim é mostrar a razão daquele acontecimento. Quais foram às causas que levaram a isso. E levar a problematização: Será que não vai acontecer à mesma coisa hoje? Então para mim são filmes que eu chamaria: Reflexivos Educativos.

F: Uma dica de filme bom, um filme que você indicaria para o pessoal assistir, e um filme que você diz: “Não este é muito ruim, não gostei, não quero que assistam”?

P: Eu não sei se eu vou poder te dar do segundo (risos). Mas eu indico os filmes do Fellini, o próprio filme Amarcord, por exemplo, que para mim é um filme fantástico. Ou senão, A Doce Vida, do Fellini, que mostra exatamente a passagem, “O charme discreto da burguesia” (Buñuel), o espanhol. São filmes que mostram passagens de épocas, e são filmes que refletem sobre problemáticas sociais muito profundas, e das quais nós nunca estamos livres. Então estes são os filmes. Eu vi algumas vezes filmes de grandes espetáculos, andam sempre à cavalos, cavaleiros e coisa assim, mas isso não me entusiasma mais.

Na mesma ocasião entrevistei também o jornalista Juremir Machado. A conversa com ele será publicada aqui também.

Colaborou para a transcrição Larissa Fagundes.

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