
Trainspotting (Danny Boylle,1996) exige apenas um pré-requisito do telespectador: que ele tenha estômago. Utilizando uma estética realista e repugnante, a produção retrata o turbulento submundo das drogas e como a dependência química afeta as relações sociais. Em seus pouco mais de oitenta minutos de duração mostra como um grupo de amigos reage à vontade de largar o vício e à necessidade de mantê-lo, apresentando essa luta em um cenário de violência, morte e heroínas que não são conhecidas por salvar vidas no fim da história.
Especialistas costumam dizer que educar as crianças desde cedo, tratando abertamente de temas polêmicos, ajuda a prevenir que, futuramente, elas acabem se envolvendo com drogas e mergulhando no mundo da criminalidade. No entanto, a abordagem explícita de substâncias ilícitas, sexo e violência de Trainspotting é uma agressão visual e psicológica a quem está desenvolvendo processos cognitivos de aprendizagem. Além de estômago, o público precisa ter um perfeito discernimento entre a temática do filme, de acordo com seu propósito, e as concepções que possui acerca do tema, de modo que só assim é possível encontrar nas imagens uma mensagem bem definida e ilustrada a respeito do cotidiano dos dependentes químicos e psíquicos de heroína.
O velho clichê “Vou abandonar as drogas” não foge à regra e é utilizado sem restrições ao longo do filme. Logo nas primeiras cenas, quando o personagem Renton (Ewan McGregor) vai ao banheiro, é possível ter uma prévia do quanto a estética arquitetada para o filme influencia nas sensações do telespectador. Essa cena, em especial, acontece em um espaço completamente asqueroso e é difícil assisti-la sem se sentir completamente anojado, o que demonstra uma inter-relação entre o contexto produzido e a reação do público. A imundície é tamanha, que se torna quase impossível resistir à ideia de avançar para a próxima cena.
“Parece uma opção mais suave, mas viver assim é como um trabalho em período integral”. A definição dada pelo personagem atesta a importância que a heroína adquire na existência de cada um dos viciados. Diversas comparações são utilizadas na tentativa de descrever perfeitamente a sensação de satisfação pela qual os personagens são tomados quando a substância é injetada em seus corpos. Nesse momento, os closes assumem papel fundamental para elucidar essa manifestação de prazer e dão credibilidade às descrições, principalmente aqueles em que a câmera foca o rosto dos personagens em ângulo contra-plongée, passando uma ideia de submissão.
Outro ponto importante da narrativa é a morte do bebê de Alisson. Os gritos da mãe causam um profundo desconforto no telespectador e, novamente, colocam a heroína em um papel que ela não desempenha: a de milagrosa solução para os problemas sociais. É assim que muitos jovens experimentam a droga pela primeira vez, por crer na ilusória proposta de que isso irá ajudar a enfrentar as adversidades e acalmar os pesares quando, na verdade, a heroína se torna a causa de tantas outras complicações. Chega a dar calafrios quando a cena é enquadrada em primeiríssimo plano e detalha a droga sendo injetada no braço de algum personagem. É possível se sentir tomado por uma agonia, como se tentássemos, inutilmente, convencê-lo a abandonar o vício.
Seria muita hipocrisia negar que o filme de Boyle apresenta a realidade de maneira convincente, ainda que, a utilização dos recursos mais repugnantes, por assim dizer, pudesse ter sido mais controlada, já que não acrescenta uma argumentação efetiva ao contexto. Não é o tipo de produção indicada para ser assistida em um sábado à noite, enquanto se saboreia uma bacia de pipoca; muito pelo contrário. Frequentemente, o filme associa comida a todo esse extremado realismo, o que provoca uma verdadeira aversão e enojamento. Analisando mais esteticamente, percebe-se que os enquadramentos facilitam essa caracterização proposta pelos produtores. Ainda assim, a proposta interessante se esvai por uma abordagem demasiadamente forte, que exige do público um considerável esforço psicológico para completar a exibição do filme. Se esse for o caso, todos os momentos de vertigem até então serão recompensados pela verdadeira heroína do filme, a salvadora: a trilha sonora.
Confira o trailer do filme:
httpv://www.youtube.com/watch?v=PUOTs55KY40
[xrr rating= 2/5]