PASSO FUNDO E A MARCHA ATÉ O TOPO

Reportagem produzida pelos estagiários Bernardo Fernandes, Gabriel Rosa e pelo jornalista Augusto Borges.

Passo Fundo: uma das cidades mais influentes do Sul do Brasil. A 10º cidade gaúcha mais populosa, a 6º maior economia do Rio Grande do Sul, o principal polo econômico, educacional e de saúde do Norte do estado. Todos títulos comemorados com grande orgulho pela população. Entretanto, havia uma lacuna que provocava frustração: o futebol. A última vez que um clube da cidade disputou a elite do Campeonato Gaúcho foi no ano de 2017, cinco anos depois do acesso de 2012, quando o Esporte Clube Passo Fundo terminou a competição no 12º lugar, sendo rebaixado para a Divisão de Acesso.

Passo Fundo é rebaixado para a Divisão de Acesso em 2017.
Foto: Guilherme Canal (ECPF)


Para o torcedor Paulo César Rigon, o grande objetivo sempre foi o Passo Fundo chegar a uma divisão nacional. “Nossa cidade tem potencial para isso, tem torcida, tem um poder econômico, o pessoal gosta de futebol. Então acho que essa seria sim a grande evolução, partir para um calendário brasileiro”, afirma, lembrando que o Clube ficou um ano sem jogar.

Paulo César Rigon acompanha o Esporte Clube Passo Fundo desde a sua fundação em 1986. 
Foto: Augusto Borges

“É um absurdo um clube profissional com as portas fechadas durante um ano. Assim não tem como a torcida se manter, continuar vinculada e apegada e criando novos torcedores.” 

Marcelo Cassol é presidente da torcida organizada Diabos do Planalto e membro da direção do Esporte Clube Passo Fundo e assim como os demais torcedores, gostaria de ver o Passo Fundo disputar uma divisão nacional. “Atualmente a gente é um clube estadual, e a gente espera que daqui a dez anos o Passo Fundo seja um clube de nível nacional, que as pessoas saibam que o Passo Fundo existe no Norte do Rio Grande do Sul”, destaca. Cassol afirma que espera que o Passo Fundo esteja na divisão nacional, pleiteando voos maiores. “Eu acho que a cidade em si evoluiu muito e o clube acabou ficando um pouco para trás. Agora é a hora de alcançarmos a cidade de novo. Se tu olhar para o Brasil inteiro, o Passo Fundo é uma região de destaque, de boa qualidade de vida. Então a gente pode também ter uma boa qualidade de futebol.”

A TRAJETÓRIA ATÉ O ACESSO

No dia 2 de agosto de 2026, o Passo Fundo entrou em campo como mandante no Estádio Vermelhão da Serra para jogar contra o Apafut, de Caxias do Sul, vencendo por 1 a 0 com gol de Talles. A partida no início de agosto, seria o início de uma temporada inesquecível para o clube da cidade e sua torcida. Sob o comando do treinador Márcio Nunes, a campanha do clube na primeira fase foi incontestável: 15 partidas, 8 vitórias, 6 empates e apenas uma derrota, se classificando para o mata-mata em primeiro lugar com 30 pontos, quatro a mais que o segundo colocado. Quem comenta sobre a preparação e essa trajetória é Marcelo Cassol: 

“A preparação foi feita por parte da direção, começando desde o ano passado a pensar nesse campeonato com bastante carinho, sabendo que seria uma divisão de acesso difícil. Então, entendo que o trabalho desde o ano passado foi o principal motivo para o resultado de agora. Corrigindo alguns erros, não existe uma fórmula perfeita para divisão de acesso, mas a gente cada ano vai aprendendo com alguns erros. Acho que esse ano a direção conseguiu minimizar todos esses problemas e trazer o envolvimento mais da comunidade.”

Márcio Nunes sendo anunciado como treinador do Esporte Clube Passo Fundo.
Foto: Alex Borgmann (Uirapuru)

O primeiro jogo do mata-mata foi a partida de ida das quartas de final, contra o oitavo colocado Brasil de Farroupilha. Jogando fora de casa, no Estádio das Castanheiras, a equipe venceu os donos da casa por 2 a 0, com gols de Clayton e Toscano. Na partida de volta, dessa vez jogando como mandante, o clube bateu o Brasil de Farroupilha novamente por 2 a 0, com gols de Talles e Patrickão, – artilheiro isolado do campeonato -, se classificando para as semifinais. No jogo de ida das semifinais, o Passo Fundo jogou como visitante contra o Apafut. A equipe de Caxias do Sul, apesar de ser mandante, jogava longe de casa, uma vez que o jogo ocorreu em Bento Gonçalves no Estádio Montanha dos Vinhedos. Patrickão abriu o placar para o Tricolor do Planalto, mas Clébio empatou para a equipe caxiense, com o placar final sendo 1 a 1. O torcedor Paulo César Rigon lembra da estréia contra a mesma equipe:   

“A Apafut, quando esteve aqui no primeiro jogo da primeira fase, jogou muito bem e enfrentou de igual para igual o Passo Fundo, até jogou melhor. O Passo Fundo achou um gol na realidade e ganhou o jogo. Quando eu assisti aquele jogo, eu fiquei meio preocupado, mas de repente ele foi aos poucos melhorando. O que eu admiro é que o Passo Fundo é um time bem treinado. Todos os jogadores sabem o que fazer quando estão em campo. Não é um time que entra em campo e seja o que Deus quiser. É um time bem treinado, bem posicionado, uma defesa firme. Acho que isso é bem interessante. Fazia muito tempo que não tínhamos um time assim.”

Talles comemorando gol contra o Apafut em partida válida pela primeira rodada da primeira fase do campeonato.
Foto: Deborah Melo (ECPF)

 Após empatar o jogo de ida das semifinais, o Passo Fundo entrou em campo no mesmo Vermelhão da Serra contra o mesmo Apafut. O objetivo também era o mesmo da partida válida pela primeira rodada do campeonato disputada em 2 de agosto: buscar o acesso. Quando a partida começou, a apreensão tomou conta da torcida, com os visitantes pressionando muito mais, até que a pressão resultou em gol. Hebert abriu o placar aos 24 minutos do primeiro tempo para o Apafut. Seis minutos depois, outro gol dos visitantes. Caion marca outro gol para a equipe de Caxias do Sul. Por alguns milésimos de segundos, parecia que mais uma vez, – assim como nas últimas quatro temporadas -, o Passo Fundo bateria na trave. Entretanto, uma ponta de esperança veio após Caion balançar as redes: o bandeirinha anulou o gol. O Passo Fundo não estava morto e a torcida começou a acreditar em uma virada. Ela veio pelos pés de Alisson, aos 35 minutos do primeiro tempo. O camisa onze empatava a partida. Aos 44 minutos do primeiro tempo, já perto dos acréscimos, o mesmo jogador marcava novamente.


Primeiro gol de Alisson (Passo Fundo 1 X 1 Apafut).
Imagem: Gabriel Rosa

Segundo gol de Alisson (Passo Fundo 2 X 1 Apafut).
Imagem: Gabriel Rosa

O Passo Fundo vai para o intervalo em vantagem. Estava a meio jogo de subir para a primeira divisão do Campeonato Gaúcho. No segundo tempo, um gol do Passo Fundo poderia garantir a classificação, enquanto um gol do Apafut levaria o jogo para a prorrogação. A cada volta que os relógios dos torcedores passo-fundenses completava, a animação aumentava, porém nada de gols. Até que aos 37 minutos do segundo tempo, o Tricolor do Planalto balançou as redes. Alisson chegava ao seu hat-trick para garantir a vaga do clube para a primeira divisão. 

Terceiro gol de Alisson (Passo Fundo 3 X 1 Apafut).
Imagem: Bernardo Fernandes

Quando o juíz apitou pela última vez, a emoção tomou conta do Vermelhão da Serra. Os torcedores chegaram a entrar em campo para comemorar mais próximos dos jogadores. No campo, torcedores, desde os mais jovens que assim como as gerações passadas se apaixonaram pelo futebol e pelo Tricolor do Planalto, até os mais antigos que acompanharam a fundação do clube em 1986 com a fusão do Sport Clube Gaúcho. 

Torcedores vibrando na arquibancada.
Foto: Gabriel Rosa

DIFERENTES GERAÇÕES, A MESMA PAIXÃO

Pai e filho torcendo pelo Esporte Clube Passo Fundo
Foto: Gabriel Rosa

A paixão do torcedor Paulo César pelo Passo Fundo nasceu quando o Clube ainda era 14 de Julho. “Na realidade, o meu amor pelo futebol nasceu no 14 de julho, quando eu era criança, através do meu pai, que eu acompanhava desde o tempo que o estádio era lá na rodoviária”. 

Já o torcedor Marcelo Cassol conta que a sua família sempre foi do 14. “Eu sinto como se eu tivesse vivido o 14 dentro de mim. Mas efetivamente nunca vi o clube jogar como 14, só como Passo Fundo.”

No sábado, 24.10, após a festa em campo, os torcedores tricolores se reuniram no Bar do Carlão, estabelecimento histórico localizado em frente ao Estádio Vermelhão da Serra e inaugurado praticamente junto com a fundação do clube mandante. No meio de muita comemoração, os passo-fundenses fãs de futebol se olhavam aliviados por o Esporte Clube Passo Fundo estar de volta ao seu devido lugar: a elite do futebol gaúcho.

Torcedores comemorando o acesso no Bar do Carlão.
Foto: Gabriel Rosa

Rolar para cima