Produção e Apuração: Gabriel Rosa e Bernardo Fernandes / Nexjor

‘Cada cidade, como cada indivíduo, tem seu modo de viver’. A frase de Eça de Queirós pode resumir muito bem a ideia de que cada indivíduo, com suas vivências e forma de ver o mundo, terá um olhar diferente dentre o coletivo que forma uma cidade. Mas em especial dois olhares costumam chamar mais a atenção quando fazemos o exercício de tentar descrever nossos sentimentos e pensamentos sobre o local em que vivemos.
Esta sexta-feira (7) marca a data da emancipação de Passo Fundo. Em 1857, um conflito político selou a independência enquanto município. Essa história é rica em personagens, avanços, recuos e conquistas. Mas não é dela que trata esta reportagem. Nossa história vai falar de passo-fundenses de certidão ou de coração, que chegaram e que partiram. Alguns olham para trás com nostalgia e carinho pelo tempo vivido aqui, mas, ao mesmo tempo, outros olham essa terra como uma nova etapa e uma possibilidade de um futuro. Convidamos algumas dessas pessoas para que dividissem as suas histórias e memórias com a gente.
MARIANA
Natural de Salvador, Mariana Guedes saiu da Bahia há menos de um ano, em busca de poder fazer sua graduação na Universidade de Passo Fundo, trocando o litoral nordestino pelo frio do planalto médio. Com sotaque ainda carregado, ela destaca que, em suas primeiras impressões, notou um cheiro diferente de Salvador. A maresia da praia não se fazia presente pelas ruas gaúchas. Além disso, por vir de uma cidade muito turística, que pouco havia espaço para o silêncio, ela relata que essa tranquilidade nas ruas de seu bairro lhe causou no início uma grande inquietação. “Conforme os meses foram passando, esse sentimento acabou virando ao avesso, e hoje acho a tranquilidade uma das principais qualidades de Passo Fundo”, afirma.

A aluna de Jornalismo também já comemora os laços que criou na cidade, seja com colegas do trabalho, da faculdade, amigos do namorado que já morava em Passo Fundo e a família dele. Por tudo isso, Mariana é otimista quanto ao seu futuro na cidade. “Vejo uma cidade que está crescendo muito e que pode expandir cada vez mais, com ligações intermunicipais, o que incentiva as pessoas de cidades vizinhas e próximas a se conectarem com as oportunidades que Passo Fundo oferece, principalmente se tratando da universidade”, conclui.
MARIA VIRGÍNIA
Como diz a música de Milton Nascimento, “tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar… Maria Virginia Daudt Baron saiu de Passo Fundo pela primeira vez em 1969, retornou em 1977 e saiu definitivamente em 1988, quando foi morar em Campo Grande e depois, em 2000, se mudou para Florianópolis. Vivendo longe da sua cidade há quase quatro décadas, se lembra com muita saudade de encontrar os amigos na rua e conversar sobre os dias da juventude e as boas histórias vividas por eles no decorrer dos anos. “Sempre que vou a Passo Fundo, faço questão de ir à praça Marechal Floriano para reencontrar pessoas queridas que moram ali pela região”, lembra, complementando que tenta visitar a sua cidade natal pelo menos de três em três meses. Segundo ela, o sentimento de ser passo-fundense se mantém muito presente. Mesmo vivendo em Santa Catarina há tanto tempo, ela admite acompanhar mais as notícias daqui do que da capital catarinense. “Sou ouvinte assídua das rádios locais e também leio as notícias da cidade para me manter atualizada.”. O sentimento que define sua relação com a cidade é orgulho, “por ter nascido em uma cidade linda e agradável e que não para de se desenvolver”, diz, completando com uma verdadeira declaração de amor à cidade. “Em Passo Fundo, sinto que o coletivo está acima do individual e cada um faz a sua parte, fazendo com que tudo funcione bem”, fazendo referência ao verdadeiro significado da palavra “pólis”.

GIORDANNA
Após cruzar de ponta a ponta o país para fazer sua faculdade, Giordanna diz que sentiu em outro país quando chegou em Passo Fundo, em 2022. “Fiquei impressionada, pois não estava acostumada com uma cidade mais urbanizada”. Ao mesmo tempo, destaca que sempre se sentiu muito segura na hora de se deslocar pelas ruas, tanto a pé quanto no transporte público. Sua mudança de Manaus para Passo Fundo foi para cursar a faculdade de Jornalismo. “No início, eu tinha um receio da frieza por parte dos gaúchos em relação à região Norte, mas com o passar dos meses, fui me sentindo verdadeiramente acolhida pelos amigos.” É inserida nesse contexto de descobertas positivas que ela vê um futuro não só dela, mas da cidade, de muito crescimento.

WRANA
A arquiteta urbanista Wrana Panizzi morou em Passo Fundo até o final da década de 70. Ao olhar para trás, diz que sente falta da vida comunitária e da proximidade com os amigos, destacando que construiu na cidade uma convivência muito intensa, com amizades que mantém até os dias de hoje. “A Universidade foi um lugar que marcou muito minha trajetória, um espaço onde aproveitei intensamente cada momento e onde construí não apenas minha formação profissional e acadêmica, mas também a minha formação política”, conta ela, que se formou em Filosofia e Direito na UPF . Wrana destaca que uma cidade com uma universidade como a UPF é privilegiada, pois desenvolve cultura, forma profissionais e fortalece a cidadania de todos.

Hoje, Wrana vive em Porto Alegre e embora esteja mais distante de Passo Fundo, ela sempre se interessa quando surge alguma notícia sobre a região. “Continuo acompanhando o que acontece, principalmente por meio dos amigos que ainda vivem na cidade”, afirma, acrescentando que vê o aniversário da cidade como uma oportunidade perfeita de recordar tudo o que viveu por aqui. Para finalizar, deixa uma mensagem aos passo-fundenses: “expresso o desejo de que as pessoas vivam a cidade intensamente e lutem para que Passo Fundo continue sendo um lugar de encontro, capaz de marcar quem mora nela e também de acolher bem quem a visita”. Como urbanista, grande estudiosa de cidades, Wrana sabe o que está falando quando se refere a cidade como um “lugar de encontro”. Voltando à música de Milton Nascimento, quem parte ou quem chega, “são só dois lados da mesma viagem(…)a plataforma desta estação é a vida desse meu lugar”…
BENAMI
Da mesma forma dos entrevistados anteriores, o agrônomo e doutor em Comunicação, Benami Bacaltchuk também cita a palavra “comunidade” ao falar de Passo Fundo. O ex-professor da UPF, que se mudou de Passo Fundo para Porto Alegre em 2019, resgata memórias de uma cidade marcada pela sensação de comunidade, onde as pessoas se conheciam e respeitavam, algo que ele aponta como raridade em grandes centros como Porto Alegre. “Caminhar pela cidade é reviver a própria história a cada esquina, seja ao andar pela avenida Brasil, ao frequentar o antigo comércio perto de casa, ou ao passar por pontos históricos como a Gare”, cita emocionado.

Entre suas lembranças mais vivas está o histórico dia em que nevou na cidade, entre 1965 e 1967, quando as pessoas se reuniram ao redor da Praça Marechal Floriano para brincar com a neve, transitando entre a igreja e o antigo Tourist Hotel. “A própria praça Marechal Floriano e o Capingui eram os grandes pontos de encontro de minha juventude nos fins de semana, época em que os jovens faziam o tradicional “fute”, caminhando em direções opostas ao redor da praça para paquerar”, lembra, acrescentando que essa efervescência cultural e social da cidade de um passado distante também era alimentada pelas idas aos cinemas locais, como o Cine Real, o Cine Imperial e o Cine Coral.
Outro pilar fundamental em sua trajetória é a Universidade de Passo Fundo, instituição que ele viu nascer e frequentou antes mesmo de sua oficialização. Até hoje, Benami mantém o vínculo com a cidade e com a comunidade acadêmica. “Eu acompanho as redes da UPF e participo ativamente de um grupo de ex-alunos e jornalistas de minha turma de formatura de 1971”. Além disso, a curiosidade o mantém conectado ao cotidiano passo-fundense, fazendo com que ele ocasionalmente “espie” as notícias.
Ao observar a Passo Fundo atual, Benami nota uma cidade completamente transformada, onde referências visuais de sua época, como a Catedral e a Chaminé da Brahma cederam espaço para edifícios modernos de 40 andares. Apesar de ver uma cidade diferente, ele projeta um futuro promissor. “Desejo que Passo Fundo se torne uma cidade motivadora de perguntas inteligentes. O município possui uma estrutura econômica, educacional e intelectual forte, além de uma sociedade orgulhosa que valoriza suas raízes”. Sua mensagem final é de incentivo: pede que as pessoas não desistam de Passo Fundo, pois ela continua sendo um dos grandes lugares para se viver.


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