Está cada vez mais popular a ideia de profissionais que atuam em duas áreas simultaneamente, principalmente entre a geração Z.
Essa ideia não é só lugar comum, é comprovada, e tem relação não só com um mercado de trabalho agressivo, comum nessa geração, como também a busca por independência.

Uma pesquisa da CNN Brasil Business afirma que há mais de um motivo para esta tendência. O maior deles, talvez, esteja na competitividade do mercado de trabalho, que faz com que a segurança que um emprego tradicional traz não seja suficiente para os manterem no mercado formal, fazendo com que optem em criar suas próprias empresas ou irem para o trabalho informal, os chamados freelancer’s (algo que as próprias redes e perfis incentivam com discursos nem sempre realistas).
E essa tendência afeta principalmente aqueles jovens com baixa qualificação: segundo uma pesquisa recente da UOL 43% dos que responderam têm graduação completa e 27% são pós-graduados. Um grande salto comparado aos números antes dos anos 2000 com apenas 15% de graduados estavam na dupla jornada de trabalho. E parte disso tem relação com duas moedas importantíssimas para a geração Z: a remuneração e o tempo.
OS PORQUÊS DA ESCOLHA
Dentre as principais buscas por quem opta por esse movimento estão o salário acumulado, visto que vivemos em um país de economia muito instável, a incerteza das contas não fecharem no final do mês é grande.
Outro ponto que trabalha a favor desse novo fenômeno é a flexibilidade de tempo e opção de fazerem seus próprios horários que consequentemente também conversa com a procura por mais tempo de qualidade para atividades e o autocuidado

O aluno do segundo nível de Jornalismo na Universidade de Passo Fundo, Rafael Soares Müller, além de trabalhar como jornalista, trabalhou como professor de teatro e atualmente é ator, tendo ingressado no teatro em 2020.
“ME DEMANDA MAIS PONTUALIDADE E FACTUALIDADE’”

Diferente do jornalismo, no teatro o improviso e a liberdade criativa são abraçados e que justamente é o que torna os espetáculos imersivos para quem os faz e uma experiência única para cada platéia, o que no jornalismo não tão bem visto, que necessita da factualidade e de seguir a risca os protocolos impostos pelos veículos
“Não têm área que converse melhor com a comunicação do que a arte, sou muito privilegiado por ter seguido este caminho”
Porém, há o outro lado: para Rafael, os palcos não só o fizeram perder o medo e a timidez de se comunicar para pessoas e câmeras, mas também tiveram papel fundamental na sua comunicação mais livre e na criatividade aflorada.
Um aparte aqui para a mudança de pessoa narrativa: hora de falar de mim, que assino esse texto.
Ao longo da produção, comecei a me identificar enquanto pessoa que trabalha com arte e comunicação (meu caso com brechó e moda). Nosso lado criativo é um diferencial na hora de produzirmos nosso conteúdo, seja no visual, sonoro ou textual, tanto pela alta quantidade de referências ou pelo simples fato de não ter medo de se expressar ou executar ideias.

É inegável, porém, o cansaço de todo o processo. De ter que escolher o que priorizar. E, falando em trabalhos que levam nossa assinatura, que expõe nossos rostos, nossa marca pessoal, são pressões que podem levar a um burnout ou até casos de depressão – foram 440 mil afastamentos de trabalhadores ocasionados por transtornos mentais e comportamentais, como ansiedade, depressão e estresse, um salto de quase 67% em relação a 2023.
O cenário expõe um contraste amargo: a busca por complementar a renda e dar maior destaque ao lado criativo esbarra na dura realidade do esgotamento físico e mental. O que no início se apresenta como a solução para a instabilidade econômica da nossa geração, pode se tornar o gatilho para os alarmantes números de afastamentos médicos. Lado a lado, a arte e a comunicação têm o poder de transformar realidades e libertar da rigidez do cotidiano, mas o mercado atual lembra de que o limite entre o desdobrar-se em duas profissões e o colapso é perigosamente tênue.
