CRÔNICA ● PASSO FUNDO: RIO E CIDADE

No mapa, ele aparece como um traço azul, com vários tracinhos ao redor. No dia a dia da cidade, é mais que isso, é um vizinho antigo, coluna vertebral de memórias do passado. O Rio Passo Fundo é o primeiro morador da nossa região.

A história conta que o nome nasceu de um trecho fundo do rio, onde tropeiros vindos de todo lugar se desafiavam a atravessar com animais e cargas. Mas quem o nomeou primeiro vive nestes pampas há mais de 2 mil anos, os povos indígenas da nossa região. GOIO-EN foi o nome escolhido, pois se refere a um trecho de difícil passagem do rio, devido a profundidade. Daí o batismo da nossa cidade, Passo Fundo. Nosso solo era, e ainda é, compartilhado pelos Kaingang e os Guarani, que aprenderam a conviver e a viver do rio, usando ele como base para delimitar seus territórios e tirar o seu sustento. Hoje, será que a cidade respeita seu morador mais antigo?

Para responder esta pergunta, temos que ouvir o rio e quem o conhece. Temos que gravar o rio. Gravador ligado, câmera ajustada, e o rio no mesmo lugar de sempre. Ouvimos quem tem o que falar dele, bem como sua própria expressão natural, em alguns pontos com mais correnteza, outros nem tanto.  Falamos sobre suas origens, histórias no caminho, de gente que ia e voltava por aqui. Cada registro é uma pedra nas suas margens,  do indígena que segue suas margens e o batizou, ao tropeiro que cruzava e o colono que começava uma família. Em quatro episódios, descobrimos quem é o rio Passo Fundo e quem nós somos ao lado dele, ou deveríamos ser.

Com o avanço da cidade, e da civilização como um todo, as regras de convivência precisaram ser revistas. Não há rio que aguente se a cidade virar as costas. Por isso, há normas que desenham faixas de respeito nas margens, áreas que a lei pede que sejam protegidas, cuidados técnicos com o leito e as encostas, rotinas de monitoramento da qualidade da água. É a responsabilidade compartilhada entre quem mora, quem produz e quem governa. O que na letra fria da lei parece obrigação, na beira do rio vira compromisso. A cidade aprende o desenho do seu próprio limite, e descobre que limite, nesse caso, não é proibição, é cuidado.

E o trabalho, o nosso trabalho, parece pequeno e enorme ao mesmo tempo: pequeno diante da história que ele tenta tocar, enorme por abrir uma janela onde a cidade escuta o rio falar.

A websérie “Passo Fundo: o rio e a cidade” foi idealizada para ser como um espelho em ângulos diferentes: o nome que nos batiza, a importância que nos sustenta, as regras que nos protegem, e a infância que nos pergunta. Sim, as crianças também querem saber mais sobre esse gigante. Rio Passo Fundo não deve ser apenas um nome exibido, passando por cima de uma de suas pontes. O rio, com sua constância de velho sábio, continua. Amanhã cedo, ele estará de pé antes do movimento urbano, no mesmo rumo de sempre. E nós, que o demos holofote por um tempo, seguiremos com a certeza de que o trabalho ainda não terminou. Porque o último episódio não encerra a conversa. Temos que continuar ouvindo… e vendo.

Por Fernando Bier, acadêmico do curso de Jornalismo da UPF.

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