A moda feminina brasileira: o passado, o presente e o futuro

Do copiar a moda do exterior ao produzir criações nacionais que valorizam a cultura brasileira; confira as eras da moda feminina no Brasil, o cenário atual e as projeções futuras

O cenário da moda feminina brasileira passa atualmente por transformações significativas, moldadas por eventos marcantes como o São Paulo Fashion Week e, mais recentemente, pela pandemia que acelerou a digitalização do mercado. Mariana de Castro, criadora de conteúdo informativo de moda formada pela Faculdade Santa Marcelina (FASM), compartilhou suas perspectivas sobre essa evolução e o que podemos esperar para o futuro. “Eu acho que a gente agora, em 2023, já tá passando pela peneira. A gente já tá vendo as marcas que realmente chegaram para ficar, que estão fazendo um trabalho diferenciado, seja no tipo de produto, na criação, no modelo de negócios, no posicionamento, na comunidade que estão construindo. São muitas possibilidades para você se destacar no mercado”, afirma ela. Desta forma,  a fase de “mais do mesmo” está sendo superada, na avaliação da consultora, e o mercado está se abrindo para marcas autênticas e inovadoras.

Além disso, a indústria da moda é a segunda que mais emprega no Brasil, seja diretamente ou indiretamente, são 10 milhões de profissionais, o equivalente a cidade de São Paulo. Durante e até antes mesmo da pandemia, diversas marcas que fazem um trabalho especial apareceram no mercado e contribuíram ainda mais para o crescimento da indústria. Mariana explica que várias dessas marcas estão começando a estrelar no São Paulo Fashion Week, que já foi considerada a quinta semana de moda mais importante do mundo durante um certo período. Com isso, essas marcas começam a criar um nome no mercado e vão ganhando força, fator animador para os profissionais da indústria. 

A criadora de conteúdo informativo cita duas marcas que estão fazendo um trabalho inovador no Brasil. “A Laura Cangussu, é uma marca incrível, autoral, que fala muito também da brasilidade, da nossa história, muito sobre modernismo. É uma marca fantástica que eu acho que deveria ter tanto destaque como a Misci, que também tá trazendo uma proposta nova, mas que são marcas que às vezes não tem um incentivo para crescerem de fato. Então, é um problema externo à moda. Às vezes a marca tá fazendo um trabalho bacana, mas ela não tem força para competir com uma grande empresa. Ela não tem força para competir com uma Shein, né?“, explica ela. Mariana ainda diz que o público brasileiro também não é educado para valorizar o produto nacional e que, novamente, isso é um problema externo à moda, além de ser muito mais caro, afinal, o pequeno empreendedor não tem como cobrar mais barato porque ele não tem incentivos, desta forma é um mercado que não gira porque o consumidor prefere comprar quatro blusas da China ao invés de comprar uma peça com maior qualidade e produzida por uma marca local, por exemplo.

“Pensar em moda brasileira na verdade é um grande mito, porque a gente é um país de dimensões continentais, tem tantas culturas diferentes dentro do Brasil, como a gente vai falar em uma única moda brasileira? Na verdade, seriam várias modas brasileiras”

– Mariana de Castro

Ainda sim, Mariana se diz otimista com o cenário brasileiro, que parece promissor, afinal, o mercado está testemunhando uma nova geração que está moldando a narrativa da moda no Brasil, está fazendo um trabalho significativo, que tende a ser mais diversificado e inovador nos próximos anos.

Uma moda dita brasileira

Dos anos 1970 para trás, a moda produzida para a elite no Brasil baseava-se muito no que era criado e lançado no exterior, principalmente em Paris. Os modelos sofriam do copiar e colar e durante muito tempo as revistas de moda vinham com modelagem para que a consumidora levasse até a sua própria costureira para reproduzir as peças. Com o passar do tempo isso foi mudando. Mas será que podemos falar em moda brasileira? Para Mariana, pensar a moda brasileira como um conceito único não passa de mito: “pensar em moda brasileira na verdade é um grande mito, porque a gente é um país de dimensões continentais, tem tantas culturas diferentes dentro do Brasil, como a gente vai falar em uma única moda brasileira? Na verdade, seriam várias modas brasileiras. Então é uma pena, na verdade, que talvez isso até dificulte a gente unir forças para se jogar, se lançar no mercado internacional”, afirma ela.

Ainda, o país não tem tempo de existência para ter uma história longa sobre moda brasileira, como a França, considerada o berço da moda, por exemplo. Isso porque o conceito de moda tem mais ou menos a mesma idade que o Brasil e ainda falta tempo para construir uma indústria que vá brigar com os principais países da área, que viveram e até hoje vivem da moda. Mariana diz que outro fator da indústria nacional olhar para o exterior e não desenvolver a ideia de uma “moda brasileira” é a própria sociedade não ter respeito pelo cenário cultural local e pela história, e a moda não ser reconhecida e respeitada é uma consequência disso. Por isso Mariana pensa que a indústria brasileira sempre vai olhar um pouco para fora, afinal, são eles que ditam o mercado. No entanto, ela traz, novamente, a marca Misci, como exemplo de representação de moda produzida no Brasil. “Porém, eu acho que a gente já tem criadores aqui que querem fazer diferente. A Misci, por exemplo, o Airon, o diretor criativo e fundador da marca, está sempre falando sobre a nossa brasilidade e que dá para fazer moda de luxo no Brasil sim. O produto dele é um produto premium, é um produto de muita qualidade, é um produto de muito estudo.” 

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O que é “moda”?

Para alguém que gosta ou estuda moda a definição do que ela é pode ser mais compreensível, mas e para quem não faz parte desse mundo? Mariana explica que é muito difícil definir o que é a moda, afinal, sequer existem sinônimos para a palavra, mas a origem mais bem aceita é a de que ela surgiu quase que juntamente com o sistema capitalista, isso porque a burguesia começou a se destacar na sociedade pela primeira vez na história da humanidade, afinal, foi uma classe social que conquistou o próprio espaço pelo próprio trabalho, diferente da nobreza, onde o poder era instituído pelo sangue, sobrenome ou religião. A burguesia então entendeu que precisava se posicionar na sociedade e precisava ser respeitada e para isso foi necessário se igualar, desta forma, começou a imitar os nobres na forma de se vestir. Pedia para que os costureiros imitassem as roupas da nobreza, que se irritava e pedia por novas, então a burguesia novamente pedia para que fizessem as mesmas roupas e assim começou a se perceber uma ideia de sistema de moda, da necessidade do novo simplesmente porque ele é novo, ou para se diferenciar do outro e para estar sempre à frente do seu tempo. 

Desta forma, a moda está ligada a um tempo específico que muitas vezes é limitado simplesmente porque sim, não precisa ser racional. Por que as saias estão curtas agora? Porque elas eram longas e vice versa e esse comportamento não é único da moda, as coisas vão mudando, muitas vezes pelo gosto pessoal, outras vezes por necessidade. “Quando a gente está falando de moda, a gente já está falando dessa ideia de que surge algo, chega no topo da pirâmide e dali vai crescendo, vai caindo para a base, é meio que como o movimento de surgimento de uma tendência. E se a gente for parar para pensar, esse é o movimento do sistema de moda”, explica Mariana.

Paralelamente, a moda é como uma linguagem, uma expressão de comunicação, mas ela não tem a obrigação de comunicar algo, até porque essa comunicação é uma invenção social, afinal, não existe nenhuma explicação natural que justifique um terno ser uma roupa sofisticada e um short não. Esse entendimento e regras foram criados pela sociedade. Ainda, a moda também é uma expressão artística, assim como um filme, como uma música ou uma obra de arte que pode ter a intenção de denunciar, protestar, vender, ou seja, comunicar.

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