Sonhar, acreditar e nunca desistir

O depoimento de mulheres que estão na luta por mais espaço e reconhecimento no jornalismo esportivo

Por Cassiê Becker e Hana Backes

A luta das mulheres por direitos e espaços já é pauta na sociedade há várias décadas, seja no campo político ou empresarial. Não seria diferente, também, no esporte. Marta, Megan Rapinoe e Serena Williams são apenas algumas atletas que lutam pela igualdade entre homens e mulheres nesse âmbito. Além delas, muitas outras profissionais, como as jornalistas, também estão nessas batalhas e lutas constantes. Porém, apesar de todos os esforços, a representatividade feminina no jornalismo esportivo continua em baixa e “atrasada” em relação a outros setores. 

No Brasil, foi há apenas três anos que uma mulher passou a comentar partidas de futebol de times masculinos no canal aberto da TV Globo. Ana Thaís Matos rompeu uma importante barreira no ano de 2019, 54 anos após a fundação da TV, comentando o campeonato paulista daquele ano, e assim abriu portas para outras mulheres que viriam a seguir. Hoje, o time feminino da TV Globo que atua nas telas das transmissões esportivas masculinas é composto por seis mulheres: Ana Thaís Matos, Renata Mendonça e Fabíola Andrade como comentaristas; Natália Lara e Renata Silveira como narradoras; e Fernanda Colombo como comentarista de Arbitragem. 

E as mudanças também chegaram aos gramados. No fim deste ano, 2022, acontecerá a 22º edição da Copa do Mundo, e é a primeira vez em que mulheres pisarão em campo trabalhando na arbitragem. Foram necessários 92 anos para que o evento mais tradicional do mundo do futebol trouxesse aos gramados nomes como o da brasileira Neuza Back, árbitra assistente e representante do nosso país. De forma tardia e lenta, o futebol está deixando de ser um espaço proibido para as mulheres. 

Quase um século de exclusão feminina nos esportes mostra, porém, que a vida não é um mar de rosas, e para chegar no topo é preciso batalhar, e muito. Porém, nos últimos anos o cenário vem mudando, o mercado está mais receptivo, e as coberturas esportivas já contam com uma maior quantidade de mulheres nas reportagens, comentários, análises e narrações. 

OCUPANDO SEUS ESPAÇOS

Andreana é formada em gastronomia e iniciou o curso de jornalismo em 2021.

Quando se trata de esportes, a capacidade da mulher sempre foi questionada. Os espaços sempre foram mínimos e os desafios maiores, e nem mesmo isso parece ter sido suficiente para pará-las. Para a comentarista Andreana Chemello, o momento é de novas oportunidades para as mulheres que queiram ingressar nesta área. “Eu acho muito importante as oportunidades estarem surgindo, porque a gente tem pouca referência de mulheres mais velhas. A mulher sabe tanto quanto o homem, até mais em algumas coisas”, diz Andreana que atua na Rádio Inferno (identificada com o Internacional), em Porto Alegre. Michelle Silva, estagiária da BAND-RS, diz que uma das maiores adversidades é quebrar barreiras para que se possa abrir as portas a outras mulheres, a outras mulheres negras e à comunidade LGBTQIA +, que não possuem tanto espaço nesse cenário. “Tem muitas pessoas que estão com essa mentalidade diferente, mas dentro dos espaços é algo que ainda precisa ser mudado”, completa. 

Michelle tem um canal no Youtube onde faz lives com análises da dupla Gre-Nal.

Entre as entrevistadas, é consenso que o machismo, o preconceito e o assédio atrapalham muito o trabalho. Apesar de o mundo do jornalismo esportivo já ter evoluído bastante, de ser perceptível um maior número de mulheres, principalmente nas reportagens na beira de campo, ainda há muito para ser conquistado. “Se eu pudesse pedir algo pro futuro seria isso: oportunidades iguais. Porque na hora que a gente tem a oportunidade, na hora de mostrar, a gente mostra.”, diz Michelle. 

AS CRÍTICAS 

Julia Brasil, estagiária de esportes da RDC TV de Porto Alegre, diz que já foi chamada de “sem moral”, mas nunca teve sua capacidade ou vontade questionadas diretamente. Ela complementa que muitas críticas são construtivas, para ajudar a evoluir, mas que a maioria delas são críticas que detonam as mulheres como profissionais de jornalismo esportivo. São críticas que afetam “pontos” exatos de vivências e que abalam profundamente. 

Julia tem o sonho de trabalhar com jornalismo esportivo desde os oito anos.

As situações de tensão costumam surgir tão logo a profissional inicia sua trajetória no campo. No caso de Julia, logo em seu primeiro jogo como repórter, ela já teve sua experiência negativa. “No meu primeiro jogo, Novo Hamburgo e Grêmio no Estádio do Vale, eu conhecia o estádio mas não a parte da imprensa. Subi para pedir informações para um jornalista e ele me olhou dos pés à cabeça, me analisou, pra daí sim dar a resposta. Me senti muito mal, foi uma coisa que me marcou muito.”

São situações como essas que as jornalistas enfrentam diariamente para estar no lugar que tanto desejam. Quem veio primeiro sofreu ainda mais, e assim segue-se o caminho de tentar evoluir e reformular esse meio.

Julia comenta sobre seu período de trabalho no Esporte Clube Novo Hamburgo.

NARRAÇÃO 

Mara iniciou sua trajetória no jornalismo esportivo como repórter de campo em 2010.

E não é só de comentários e reportagens que vivem as mulheres no jornalismo esportivo. Mara Steffens, narradora do jornal Diário da Manhã e da Rádio Web Sintonia Esportiva, diz que as dificuldades de narrar uma partida de futebol são enormes. Além de saber os jogadores de cada equipe, o diferencial de cada um deles, os narradores necessitam ter um vasto repertório de palavras e expressões para poderem levar a transmissão de forma tranquila. 

“O narrador é o principal da transmissão, é tu que comanda. O repórter tá numa zona de conforto, ele sabe o que vai falar e quando vai entrar. O narrador não, ele que comanda! Ele decide a hora que o repórter entra, quando ele chama o comentarista, quando ele vai fazer o comercial, quando ele vai chamar um convidado. É ele que manda ali, é bastante coisa pra cuidar numa transmissão.”

Participante e finalista da segunda edição do programa Narra Quem Sabe, produzido pela ESPN, Mara diz que é visível a preocupação da emissora em proporcionar para as participantes, que tem talento e vontade de narrar, condições e oportunidades para elas se desenvolverem. 

Depoimento da Mara sobre o programa Narra Quem Sabe

REDES SOCIAIS 

Da mesma forma que as redes sociais podem ajudar, elas podem atrapalhar. Andreana, conhecida por Nani, diz que existem vários hates, mas não por ela ser mulher. “O que me incomoda é a questão de assédio. “‘Uau, nossa, uma mulher no futebol’ e um monte de mensagem de assédio. Isso me incomoda”. 

Antenada nas redes, Nani trabalha muito com o Twitter para divulgar as informações, mas que já passou semanas sem entrar na rede pois os internautas se sentem mais livres para ofender e criticar. Entretanto, hoje, ela consegue lidar melhor com isso. 

Contudo, não são só coisas ruins que as redes sociais proporcionam. A Julia diz que essas redes são ótimas formas dos jornalistas multitarefas se estabelecerem no mercado de trabalho e, além disso, realizarem os projetos no seu tempo. “As redes sociais podem te ajudar bastante, porque tu não tá representando uma instituição ou veículo, é tu que faz teu roteiro, tu vai lá e grava quantas vezes quiser e é uma boa forma de tu aprender a falar, escrever um roteiro, editar.”  

COBERTURAS JORNALÍSTICAS

Letícia atualmente trabalha no jornal Diário da Manhã de Passo Fundo.

Quando se pensa na história do futebol do Brasil, é natural pensar em grandes nomes como Pelé, Ronaldo Fenômeno, Garrincha. Todos eles homens. E quanto à seleção feminina? Parece se resumir em torno da atleta Marta. “Os jogadores masculinos têm sempre maior enfoque, matérias próprias voltadas a suas entrevistas no decorrer do jogo. Já a seleção feminina, por outro lado, parece se resumir à figura de Marta.”  A formanda em jornalismo da Universidade de Passo Fundo, Letícia Schneider, traz essa visão, que faz parte do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), onde abordou as questões de gênero no jornalismo esportivo. Uma das conclusões do trabalho é que durante as Olimpíadas de Tóquio, foram publicadas apenas 22 matérias sobre a seleção feminina e 40 sobre a seleção masculina. “Então, podemos dizer que toda a invisibilidade que o jornalismo esportivo dá ao protagonismo feminino parte de decisões que parecem ser editoriais, algo que precisa ser mudado o quanto antes.” O espaço feminino ainda precisa ser buscado dentro e fora de campo.

DICAS

Não resta dúvidas que as mulheres que sonham e batalham todos os dias para trabalhar com jornalismo esportivo, ainda tem muito a conquistar. E para quem está no início de sua caminhada? O que pode ser feito?

“Bota a cara a tapa! Não pode ter vergonha, manda mensagem, entra em contato, não tenha vergonha!”, recomenda a Julia. Já Nani diz que a primeira coisa que deve ser feita é estudar, assistir muitos jogos e não desistir. “É um mercado bem difícil!”. Michelle destaca que quanto mais situações e obstáculos tiverem, mais persistência irá se exigir. Já Mara finaliza dizendo que o espaço está ali, “a gente, mulheres, só temos que conquistar.”

Sonhar, acreditar e nunca desistir. A batalha ainda é longa mas, com toda persistência, capacidade e conhecimento, a história será feita. 

Rolar para cima