por Cinara Crestani
Na terceira matéria sobre as figuras importantes da política brasileira, o Nexjor ouviu o professor da UPF, mestre em Ciências Sociais, Frederico Santos dos Santos. A proposta desta série de matérias é destacar alguns nomes importantes no cenário político brasileiro, tanto no passado quanto no atual.
“Pensei em alguns nomes importantes para a política brasileira. Mas, muito mais do que se esses sujeitos participam ou não do executivo, legislativo, mas procurei pensar na medida em que eles conseguiram ou conseguem contribuir para a mudança social e a construção desse pais”, enfatiza o professor sobre seu critério de escolha. Em ordem de importância e na opinião do sociólogo, os nomes são:

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa, segundo o professor “muito mais que uma condição partidária”. Para Frederico Santos dos Santos sua atuação foi importante, sobretudo em um aspecto, serviu para demarcar a inclusão de um grupo que estava antes marginalizado das políticas públicas. Lula foi presidente do Brasil por dois mandatos, ficou no poder de 1 de janeiro de 2003 a 1 de janeiro de 2011.
Candidatou-se inúmeras vezes antes de ser eleito, mas sua origem e trajetória de luta sindical, segundo o professor dizem mais do que seu tempo na presidência da república. “Acho que define uma importância na política brasileira. Algumas políticas que até então não estavam sendo pensadas, começam a ser colocadas em pauta no estado”, lembra Santos.
Durante seu mandato, o presidente Lula bateu um recorde de popularidade segundo o Instituto Datafolha, além disso, foi considerado pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2010. Tais fatos, segundo o professor Frederico ajuda a diagnosticar o quanto Luiz Inácio Lula da Silva sagrou-se importante para a política brasileira, “ao longo das trajetórias dos governantes brasileiros ele alcança o maior nível de aprovação e aceitação da sua gestão. Isso mostra o quanto se torna admirável”, enfatiza o sociólogo.
“Uma figura importante no processo de redemocratização do país”, recorda o professor Frederico ao falar do gaúcho Leonel Brizola. A história de Brizola se funde à política brasileira e suas revoluções desde cedo. Seu pai, José de Oliveira Brizola, morreu na Revolução Federalista de 1923, lutando nas tropas de Joaquim Francisco de Assis Brasil, que combatiam os republicanos de Borges de Medeiros.

Mas, voltando ao ponto de partida, quando o sociólogo fala do papel de Brizola na redemocratização do país, ele se referia à conquista das Diretas Já . Segundo o professor, esse fato em especial merece ser recordado pela importância nele contida. “Ele colaborou para demarcar realmente que tivéssemos um processo eleitoral que fosse construído para ser democrático”, enfatiza Frederico. Brizola era considerado um dos herdeiros políticos de getúlio Vargas, mas além dessa herança trabalhista, Leonel Brizola cultuava a tradição republicana e laica de Julio de Castilhos.
O professor Frederico Santos dos Santos ainda lembra as suas inúmeras tentativas de conquistar o cargo de presidente da república, todas fracassadas. A história do menino pobre do Rio Grande do Sul, segundo Santos não perdeu em nada com isso. Brizola foi alfabetizado em casa, por sua mãe, Onivia de Moura Brizola,ingressando no primário só em 1931. Apesar de ter se formado em Engenharia pela Universidade Do Rio Grande do Sul em 1949, ele jamais exerceu a profissão. Sua escolha seguiu sendo a política.
“Ele consegue demarcar um projeto de país, que esta muito preocupado em fortalecimento da indústria nacional, fortalecimento do processo democrático do país, acho que isso torna ele uma figura extremamente relevante” finaliza Frederico dos Santos a respeito do ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola.
Um homem de corpo franzino e olhar expresivo, é assim que a maioria das biografias de Herbert José de Souza, mais conhecido como Betinho, o descrevem. O sociólogo e ativista dos direitos humanos passou boa parte dos 62 anos que viveu empenhado na expectativa de ajudar a construir um país democrático, humanista e solidário. “A atuação enquanto movimento social conseguiu demarcar o quanto tinha de um país que estava marginalizado e que era miserável e que não havia políticas para esses públicos”, recorda o professor Frederico. 
Mineiro, da cidade de Bocaiúva, Betinho se transformou aos poucos em um símbolo nacional de solidariedade e cidadania. Ele e seus dois irmãos o cartunista Henfil e o músico Chico Mário eram hemofílicos, doença herdada da mãe. Mas, isso não o impediu de fundar inúmeros projetos, dentre eles o Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida, considerado um dos mais importantes. Além disso, Betinho mobilizava campanhas para arrecadar mantimentos em favor das pessoas mais pobres e excluídas. Após ficar sete anos na clandestinidade e oito no exílio por conta do golpe militar de 1964, Betinho volta ao país em 1979 e Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). No ano de 1991 ganha o Prêmio Global 500, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep), por sua luta em defesa da reforma agrária e dos indígenas.
Mesmo sem a ajuda do governo o ativista seguia distribuindo alimentos a população carente. O professor Frederico lembra da forte atuação de Herbert de Souza na década de 90. “Ele conseguiu construir toda uma estratégia para que a gente se preocupasse com as pessoas que estavam sem comida e eram marginalizadas nesse país, que viviam em uma condição de vulnerabilidade”, comenta o sociólogo. É no ano de 1995 que finalmente tem seu trabalho reconhecido pelo poder público e é convidado pelo governo Fernando Henrique, a tornar-se membro do Conselho da Comunidade Solidária, que substitui a Fundação Legião Brasileira de Assistência (LBA).
Hemofílico e portador do vírus da AIDS, com seu irmão o cartunista Henfil escreve A Cura da AIDS, no qual afirma que a cura da doença é questão de tempo. Em 1995, a Ação da Cidadania passa a priorizar a luta pela democratização da terra como forma de combater a fome e o desemprego. “Mesmo vindo a falecer logo depois, ele conseguiu deixar um legado importante, consegue tornar visível essas pessoas que não tinham alimento que viviam em uma condição de vulnerabilidade social. Esse movimento feito por ele começa a inserir a tornar visível para que as políticas públicas comecem também a se dedicar a eles”, recorda o professor Frederico.Betinho de Souza morreu em nove de agosto de 1997, em consequência de hepatite C, contraída em transfusão de sangue.
De seringueiro a ativista ambiental brasileiro e sindicalista, Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes como ficou conhecido herdou a profissão do pai, e aos nove anos já era seringueiro. Por falta de opção, já que o menino não teve a oportunidade de estudar. Até o ano de 1970, os donos da terra nos seringais não permitiam a existência de escolas. Chico Mendes aprendeu a ler quando tinha 20 anos. O professor Frederico Santos dos Santos justifica a escolha do nome de Chico Mendes como uma figura importante na política brasileira.

“Procurei pensar nomes que pudessem dar um amplo leque de possibilidades de várias áreas do conhecimento”, argumenta ele. Inconformado com a condição de vida das famílias da região amazônica, tornou-se um líder do movimento de resistência pacifica. Empenhado na defesa do meio ambiente e dos seringueiros, Chico Mendes organizou os trabalhadores para protegerem a floresta, suas casas e suas famílias contra a violência e a destruição que se expandia pelas mãos dos fazendeiros.
Por atuar em diversas áreas e conseguir apoio internacional, não demorou muito para que Chico Mendes sofresse as primeiras ameaças de morte por parte dos fazendeiros, o que aconteceu no ano de 1985. No mesmo ano ele começou a enfrentar vários problemas com seu próprio partido: o MDB não era solidário às suas lutas. “Pensando nas questões ambientais, procurei pensar o quanto a partir da atuação de um seringueiro que teve uma articulação com seus movimentos sociais no Acre ele consegue colocar em pauta questões ambientais que antes pareciam de segunda ordem”, comenta o professor Frederico a respeito da atuação de Chico Mendes em prol do meio ambiente.
Foi pela luta ambiental que Chico Mendes se tornou vereador, e mais adiante ajudou a criar o Partido dos Trabalhadores (PT). Mas, infelizmente, apesar de toda repercussão internacional que seu trabalho teve, como lembra o professor Frederico, Mendes também passou por momentos obscuros. Ao mesmo tempo em que recebia homenagens no Brasil e no mundo, por ser uma das pessoas de maior destaque na defesa da ecologia, foi acusado na imprensa por fazendeiros e políticos de prejudicar o “progresso do Estado do Acre”. Quando as ameaças de morte se tornaram mais frequentes, Chico Mendes foi a polícia, denunciou, deu nomes e pediu proteção policial. Foi inútil. Pouco tempo após completar 44 anos, o ativista foi assassinado com um tiro na porta de sua casa.
Em dezembro de 2008, vinte anos depois de sua morte, por decisão do Ministério da Justiça, publicada no Diário Oficial da União de 11 de fevereiro de 2009, Chico Mendes foi anistiado em todos os processos de subversão que corriam contra ele, e sua viúva Ilzamar Mendes teve direito a indenização. Na ocasião, o ministro da Justiça, Tarso Genro, declarou: “Chico Mendes era um homem à frente de seu tempo, um homem que construiu um amplo processo civilizatório”. Hoje, o estado está pedindo desculpas pelo que fez com ele. Chico Mendes foi importante para o Acre e para o Brasil.

É difícil falar em política no Brasil e não citar o nome de Getúlio Vargas. O ex-presidente segue vivo na lembrança dos brasileiros que por mais que não tenham vivido em seu governo, usufruem de seu legado. “O quanto os direitos trabalhistas foram fundamentais em uma época que não setinha garantias para o trabalho”, comenta o professor Frederico a respeito de Vargas. Ele criou a Justiça do Trabalho (1939), instituiu o salário mínimo, a Consolidação das Leis do Trabalho, também conhecida por CLT. Os direitos trabalhistas também são frutos de seu governo: carteira profissional, semana de trabalho de 48 horas e as férias remuneradas.
Além disso, investiu muito na área de infraestrutura, criando a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942), e a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945). Em 1938, criou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Saiu do governo em 1945, após um golpe militar. “Getúlio Vargas conseguiu promulgar toda uma série de legislações que hoje garante uma condição de trabalho e dignidade para o trabalhador que antes não era pensado. Acho que por isso o nome dele também tornasse importante” lembra o sociólogo.
Com uma vasta biografia sobre sua vida e carreira política, Getúlio Vargas não é unanimidade, e talvez seja justamente por isso que siga tão vivo na memória das pessoas. Mesmo, tendo sido um ditador, e governado com medidas por muitas vezes consideradas controladoras e populistas, o governo de Vargas é marcado pelo forte investimento no Brasil. Foi na área do trabalho que deixou sua marca registrada. Sua política econômica gerou empregos no Brasil e suas medidas na área do trabalho favoreceram os trabalhadores brasileiros.
