Um quinto dos jovens brasileiros é “nem-nem”. Apesar da semelhança fonética não estamos falando de crianças, embora os protagonistas desse fenômeno tenham algo em comum com bebês: diferentes entre si, quase 10 milhões de jovens na faixa dos 15 aos 29 anos nem trabalham, nem estudam, daí o nome “nem-nem”.
Os dados do IBGE, baseados na Pnad 2012 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), foram divulgados ainda no ano passado. Maior que a população do estado de Pernambuco, o número representa 19,6% dos indivíduos entre 15 e 29 anos. A pesquisa Síntese dos Indicadores Sociais apontou ainda que a maioria dos que formam a “nem-nem” é de mulheres. São 70,3%, das quais 58,4% já tinham pelo menos um filho, na época.
Dentre as regiões o nordeste lidera o ranking com 23,9% dos integrantes da geração “nem-nem”, seguido do norte com 21,9%, e das regiões Sudeste (18,1%), Centro-oeste (17,4%) e Sul (15%), todas abaixo dos 20%. Na divisão por estados, Amapá figura no topo com 27,8%, estados como Alagoas e Pernambuco também apresentaram índices elevados. Por outro lado, Santa Catarina foi destaque por possuir o menor número de “nem-nem”, apenas 12,7% dos catarinenses entre 15 e 29 anos não trabalham nem estudam.
A gestação dos “nem-nem”
O fenômeno não atinge somente o Brasil. Além de atingir países como a Espanha, estados da União-Europeia afetados pela recessão desempregaram uma parcela significativa de jovens com idade inferior aos 25 anos. As causas e o ponto inicial da geração “nem-nem” divide os especialistas.
A crise financeira que atravessa o mundo desde 2008 seria uma das pistas apontadas para entender a origem do fenômeno. No entanto, os dados nacionais nos levam à possíveis explicações para entender a ordem interna da questão. Dentre as regiões brasileiras, o nordeste lidera o ranking, de quebra, possui os estados mais pobres do Brasil. Mas isso é só a ponta da linha que nos leva a um nó de conflitos.
Uma grande gama de especialistas em áreas como Economia, Sociologia e Psicologia, acredita que a origem de fenômenos como esse estejam atreladas à uma série de complicações históricas. “As ciências sociais sempre alertam para os fatores estruturais que influenciam este tipo de comportamento. Na maioria dos casos não é uma questão individual, de “acomodação”. Mas de uma estrutura social que não fornece perspectivas para as pessoas”, lembra o mestre em Ciências Sociais e professor da UPF, Vinicius Rauber e Souza.
Entre os “nem-nem” as mulheres são maioria. Dentre elas, mais da metade já são mães. Esse fato, em especial, para a doutora em Economia e professora da UPF Cleide Fatima Moretto, representa uma espécie de regressão para o gênero feminino, “são mulheres que acreditam que não precisam trabalhar e estudar porque já construíram uma família”. Há uma retomada da condição da mulher unicamente como mãe e dona de casa.
E se lá fora a principal causa do desemprego entre os jovens é a recessão, aqui se acredita que seja a falta de perspectivas e um desalento. No caso do Nordeste, pela falta de oportunidades, ou até mesmo de estrutura, como comenta o professor Vinicius, “sabemos que a Região Nordeste do país historicamente sofre por receber menores investimentos do Governo Federal para criação de universidades, por exemplo, ou para obras de infraestrutura que permitam atrair investimentos”.
A professora Cleide compartilha da opinião de Vinicius, e acredita na existência de um desalento enorme por parte dos jovens brasileiros. Ao contrário de outros países, o Brasil oferece maiores condições, a dificuldade financeira é menor, o que torna esse desânimo um tanto quanto injustificável, “o nosso nível de dificuldade financeira não é tão sério quanto o deles, tem problemas estruturais. Digamos que o Brasil tem tudo por fazer ainda. Nós carecemos de pessoas com capacitação”, lembra ela.
A necessidade de pessoas qualificadas para o mercado de trabalho só aumenta. Enquanto isso muita gente segue inerte, sem ação diante da construção de seu futuro. Existem aqueles que não se conformam com os rumos que o ser humano está dando ao Brasil e ao planeta. Neste caso, simplesmente parte de si mesmo a vontade de não contribuir com isso, por acreditar que se continuarmos nesse ritmo destruiremos a chance que há de futuro promissor ou saudável.
“Falta pensar em uma política pública que trabalhe essa questão: da expectativa, da motivação, resgatando aspectos da cidadania, de como esse sujeito se sente, de como ele pode se apoderar ao longo do tempo”, aponta a professora Cleide, que acredita nesse como um modo de inserção desses jovens ao mercado de trabalho ou mesmo uma volta aos estudos.
O parto de um futuro incerto
A falta de oportunidades ou falta de vontade dos “nem-nem” levará a uma realidade senão mais dura, mais sofrida. A doutora em Economia e professora da UPF, Cleide Fatima Moretto acredita que os maiores danos para a economia do país virão em longo prazo, “Nós estamos perdendo quase que 20 anos da nossa história socioeconômica, isso terá impacto na qualidade de vida das pessoas, na perspectiva de crescimento e de desenvolvimento do país”, lembra.
Do ponto de vista social os problemas podem ser ainda maiores. Aos que sobra vontade, mas falta oportunidade restará seguir o rumo da crueldade. Haverá a necessidade de sustentar a si próprio e até mesmo a uma possível família. Os índices de violência poderão apresentar grandes saltos nos próximos anos. “Os problemas de ordem social se dão justamente naqueles que estão nesta classificação contra a sua vontade própria, que podem ir para a criminalidade para conseguir o seu sustento”, comenta o professor Vinicius Rauber.
As estimativas mostram números nada animadores para os próximos anos. Uma geração que segue sem rumo, desafiando o rótulo de “nem-nem”. São milhares de jovens, de diferentes classes sociais, que na maioria dos casos, possuem causas desconhecidas para fazer parte dessas estatísticas. Um exército com potencial enorme, que hoje, pode ser manobrado para o bem ou para o mal.
