Um novo olhar

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Após perder a visão ainda adolescente, Fábio foi um dos criadores da APACE 

Ser jovem é viver em um mundo completamente seu. É criar asas para poder voar o mais alto possível. É, de certo modo, não se preocupar tanto com o futuro. É curtir e viver intensamente essa fase da vida. Fábio Flores viveu toda essa energia positiva, mas aos 17 anos sua vida ficou um pouco mais escura. “Fiquei um ano e meio sem sair de casa achando que a vida tinha acabado,que eu era uma pessoa inválida, que eu não ia poder ser útil em alguma coisa”. Quando estava grávida de Fábio, a mãe dele contraiu rubéola, o que prejudicou um pouco a visão da criança. Estudou até a 7ª série com muita dificuldade. E aos 17 anos, depois de várias tentativas para regularizar a visão, acabou ficando cego.

O apoio da família e dos amigos foi fundamental para que Fábio conseguisse levantar a cabeça e seguir em frente. Com a total perda da visão e ainda muito novo, Fábio teve que se adaptar a sua nova vida. “Estava com a autoestima muito baixa, só queria chorar. As pessoas que enxergam têm um preconceito consigo mesmos. Pensam que nunca vai acontecer com elas,” relata Fábio, que encontrou muita dificuldade no início para aprender o braile e aprender a andar sozinho de bengala.“Tinha aquele pensamento ‘o que as pessoas vão achar’, eu adolescente, o que as gurias vão achar. Então eu andava por perto de casa. No começo me batendo nos muros e nos lugares”, lembra.

A necessidade falou mais alto, e aos poucos o aprendizado de andar sozinho sem depender de ninguém foi ganhando espaço na vida de Fábio.

Fábio Flores ( primeiro de preto, da direita para esquerda) e o presidente William Flores (segundo de preto) na comemoração dos 15 anos da APACE. Foto/Divulgação
Fábio Flores ( primeiro de preto, da direita para esquerda) e o presidente William Flores (segundo de preto) na comemoração dos 15 anos da APACE. Foto/Divulgação

Cursos de reabilitação também o ajudaram nessa fase de sua vida.A família e os verdadeiros amigos o levaram até uma sala junto à APAE. (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) que auxiliava as pessoas cegas. Foi naquela sala onde frequentava as aulas de braile com a professora Lorene Lucas, que a sementinha de criar uma entidade para cegos foi plantada. Ao sentir falta de uma instituição que pudesse defender e representar os direitos dos cegos em Passo Fundo, a professora Lorene fez com que Fábio se interessa-se pela ideia. “Na época, em 1999 não se via nenhuma pessoa com deficiência visual transitando nas vias da cidade, podendo desenvolver alguma atividade por si”, ressalta Fábio.

Foi então que começou o movimento até às rádios e espaços públicos, buscando saber quantas pessoas com deficiência visual havia em Passo Fundo para poder fundar uma entidade.

A APACE

Em 23 de julho de 1999 a APACE (Associação Passofundesne de Cegos) foi fundada através do núcleo ACERGS ( Associação de Cegos do Rio Grande do Sul) que tem sua sede em Porto Alegre. A APACE é uma entidade que tem como objetivo habilitar e reabilitar as pessoas com deficiência visual para poderem andar sozinhos, ter acesso ao estudo através do sistema braile, fazer suas atividades diárias e procurar ter uma acessibilidade cada vez maior. Fábio nos conta algumas conquistas desde que a entidade foi fundada. “Já conquistamos a sinaleira com o sinal sonoro para termos uma autonomia maior, o piso tátil na beira das calçadas, para podermos nos guiar com melhor condição”, exemplifica.

Neste ano a entidade completa 15 anos de história. A APACE hoje conta com a diretoria do presidente William Gabriel Flores, do vice-presidente Rodrigo Rubenich, secretária Vera Lúcia Allig e do tesoureiro Fabio Flores. Além da equipe técnica, professores, uma psicóloga e uma assistente social. A entidade conta também com professores voluntários para contar histórias e dar aulas de informática. Mantém, ainda, o projeto de estimulação precoce para crianças com deficiência visual, que tem como finalidade proporcionar à criança, nos primeiros anos de vida, determinados estímulos de forma a possibilitar que seu desenvolvimento seja tão normal quanto possível.

Uma entidade que traz um novo olhar para todos que frequentam o local. São novos aprendizados, simples conquistas do dia-a-dia, desde conseguir fazer seu próprio café até conseguir andar sem acompanhante somente com a bengala. A entidade hoje tem mais 150 associados, mas é limitada pra um atendimento de 50 pessoas por conta da estrutura.giseli

Para Fábio a entidade é um marco muito especial em sua vida. “Me envolvi em criar a APACE e estou até hoje na batalha. Gosto de trabalhar pelo movimento de mostrar que não é por causa da limitação visual que vamos ter dificuldade ou acabar não usufruindo das questões que podem ser encaminhadas durante o dia a dia”, avalia, destacando os benefícios da entidade para as pessoas cegas. “As pessoas que perdem a visão têm uma enorme dificuldade de aceitação, pois elas acabam ficando limitadas e acabam se martirizando já que tudo ainda é muito visual”, comenta Fábio. Por esse motivo, ele explica que a APACE visa a oferecer a inclusão social, o acesso à informação e ao entretenimento a todos. “A perda da visão é ver o mundo com outra perspectiva, com um novo olhar”, sintetiza Fábio.

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foto divulgação

Orientação e Mobilidade 

    Uma das atividades aplicadas para os alunos da APACE é o da bike acessível. São bicicletas duplas onde é treinado a coordenação motora, o equilíbrio, percepção espacial além de praticar atividade física. O professor de Educação Física Nataniel Borba da aulas de orientação e mobilidade.Para ele, a bike acessível é muito mais que uma atividade de reabilitação. “É um momento lúdico, de prazer, uma coisa divertida que todos eles gostam”.

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