“Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria!”. Neste verso da música Monte Castelo da banda Legião Urbana está retratado um dos sentimentos mais contraditórios e enigmáticos do mundo. De que forma definir algo que atravessa gerações como uma incógnita?
Apesar de estar presente em poemas, músicas, cinema e ser o tema central de muitos estudos e livros, o amor não é algo de fácil e cômoda definição, é bem e mal, luz e escuridão lado a lado. E passou por inúmeras mudanças ao longo do tempo, que lhe deram inúmeras definições.
O casamento ao longo dos anos
Quando surgiu, o papel do casamento era bem diferente do qual ele possui hoje. Não passava de um acordo, onde o que importava era o jogo de interesses entre as famílias, e o amor tido como base para a relação, era inclusive, proibido. O casamento é resultado de dois fatos da Igreja Católica, o primeiro em 392, quando o Cristianismo foi proclamado religião oficial, e o segundo, anos mais tarde, em 965 e 1008 quando foram batizados os reis da Dinamarca, Polônia, Hungria, Rússia, Noruega e Suécia.
O matrimônio na Idade Média tinha um objetivo principal: o da procriação, era a única maneira aceitável de perpetuar a linhagem, ou seja, gerar filhos para herdar os bens e o nome da família, construindo assim uma dinastia e, além disso, garantia a continuidade de sua propriedade. A grande maioria dos casamentos naquela época eram arranjados e cuidadosamente escolhidos pelos pais dos noivos. Com as mudanças e revoluções ocorridas na História, o casamento foi sendo visto de outras maneiras, a mulher passou a ser mais valorizada e aos poucos foi buscada a existência do sentimento para que assim houvesse o enlace.
A dona de casa Rosecler Roani Pedro se casou em 1993, e fala da construção de uma vida a dois no dia a dia. “Exige paciência e cumplicidade, às vezes se trata muito mais de respeito que de amor em si”, ressalta. Para ela é esse o problema na maioria dos casamentos, a falta de cumplicidade e de ajuda mútua, “quando um faz mais do que o outro, contribui mais nas despesas, por exemplo, já é um motivo de cobrança, que em momentos de discussão vem à tona”, comenta a dona de casa.
E a velha história de que os opostos se atraem, pode ser que tenha um fundo de verdade afinal, duas pessoas que guardam mágoa e brigam por qualquer motivo, seria garantia de longas e duras discussões, o segredo então seria que um dos dois cedesse. “Tolerância é muito importante, construí um casamento de 45 anos baseado na confiança e no companheirismo, não há coisa melhor do que ter um amigo, acima de tudo para todos os momentos”, comenta a dona de casa, aposentada Terezinha Lopes.

Amor Cortês
Trata-se de um conceito que surgiu na França na Idade Média, como uma forma de afronta perante a instituição do casamento. Um modelo de relação e de conjunção sentimental e corporal entre um homem e uma mulher, onde a dama era o centro, já que era casada e passava então a ser desejada por um rapaz solteiro, que na maioria das vezes frequentava sua casa. O poder feminino se revela ainda maior na medida em que ela pode aceitar ou recusar tal oferta.
Para muitos autores esse modelo é visto como uma possibilidade de promoção da condição da mulher que até então era tratada apenas como um objeto negociável e que era útil para a reprodução. Um modelo de relação e de encontro sentimental e corporal entre um homem e uma mulher.
O amor cortês funcionava então como um critério de distinção na sociedade masculina e pode ser considerado o impulso de progresso da sociedade do século XII, pois é ele o instrumento e o produto do crescimento que liberava a sociedade feudal da brutalidade, que a civilizava, uma vez que o jogo era visto como um processo educativo para os jovens, que tinham que aprender a controlar seus impulsos.
Amor Platônico
O termo amor platônico foi usado pela primeira vez pelo filósofo Marsilio Ficino no século XV. Sua definição tanto pode dizer respeito a um amor impossível, não correspondido ou de grande dificuldade, como também a uma relação afetuosa ou idealizada em que se abstrai o elemento sexual. Muitas vezes a pessoa que nutre esse tipo de sentimento nunca tenta sair dessa fase ou por medo de se machucar ou de verificar que suas fantasias e expectativas não correspondem à realidade.
O amor platônico se fundamenta na virtude. Platão também é o criador da teoria do mundo das ideias, onde tudo era perfeito, já o mundo real seria então uma cópia imperfeita desse mundo. De tal modo o amor platônico, ou qualquer outra coisa tida como platônica, se refere a algo dotado de perfeição, mas que não é palpável, não existe no mundo real, somente no mundo das ideias.
A professora mestra em Psicologia da UPF, Carla Maria Ventura Tarasconi fala sobre os aspectos desse amor, que por vezes torna-se doentio, “no momento em que surge e permanece o sentimento de possessividade dirigido ao objeto amado. A pessoa fica totalmente vulnerável e dependente”, afirma a psicóloga.
Amor Prático
Funcional ou prático, esses termos nos remetem a algo de fácil manuseio, ou seja, determinada função que não dê trabalho e qualquer um possa fazê-la ou aprendê-la, com o amor às vezes não é muito diferente. Acredita-se que o amor prático surge no momento em que os indivíduos conseguem alcançar a sabedoria e assim enxergar o amor e os outros sentimentos por novas perspectivas, aí então ele percebe que apesar desse amor não gerar tantas emoções, ele pode funcionar muito bem.
Para muitos casais o amor só virá de forma prática. Aos poucos as pessoas aprendem a lidar com este tipo de amor, que tem cara de menos, é verdade, mas por vezes pode até acabar sendo mais. É tudo uma questão de adaptação e assim seguir a vida, com amor, porém sem perder a praticidade, já que apesar de prático ainda se trata de amor.
Amor Romântico
Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Capitu e Bentinho e até mesmo os contemporâneos Edward Cullen e Bella Swan, são alguns dos casais que povoam o imaginário popular, quem nunca quis viver uma história de amor como a deles? Intenso e perfeito assim o amor romântico é estampado nas telas de cinema, e nas páginas dos livros.
Considerado por muitos, como um dos maiores mitos da história, o amor romântico atravessou gerações, como grande destaque nas artes, e justamente por isso é tão vivo em nossa memória. Há quem passe boa parte da vida desperdiçando tempo e energia na busca de fazer com que a realidade de sua vida se ajuste a desse mito.
Esse amor que aprendemos com Sheakspeare, Goethe, Disney, entre outros, é construído sob um alicerce frágil, a idealização. A pessoa inventa e atribui ao parceiro características que na maioria das vezes o outro não possui, e o óbvio acontece, na convivência tal mito vai por água abaixo, pois é praticamente impossível manter a idealização e a imagem de perfeição do outro quando se convive diariamente com a pessoa. E assim ocorre o desencanto, e com ele o final da relação.
E hoje, como amamos?
Se há uma palavra capaz de definir o amor hoje, essa palavra seria “rotatividade”, e a razão é clara, nunca existiram tantas opções, nunca houve tanta troca de parceiros em tão pouco tempo.
“Hoje existe muita liberdade, a liberdade torna tudo muito fácil, e aí que ocorrem os maiores erros”, comenta Rosecler. Já para Terezinha o que torna os relacionamentos tão frágeis hoje é a falta de diálogo entre os casais. “Quando eu namorava, conversávamos sobre tudo, sobre nossa futura vida de casados, fazíamos planos e assim conhecíamos mais um do outro”, ressalta.
Elas não estão muito longe do que pensam os estudiosos da área, apesar da relação afetiva continuar sendo buscada por muitas pessoas, os motivos hoje são diversos, e vão desde a dependência emocional até a financeira, ou até mesmo fortes pressões sociais, como a de que a única forma de constituir uma família é através do casamento.

As relações são pautadas numa eterna dúvida que divide as pessoas na vontade que sentem de estar juntos, mas também na vontade que têm de estarem livres. Há a cobrança pela fidelidade e pela constituição de um relacionamento estável, fatores que não são do agrado de todos.
Enquanto uns aprisionam e sufocam os parceiros em relacionamentos dotados de ciúmes excessivos e falta de liberdade, por medo de serem abandonados, há os que preferem relacionamentos pouco duradouros, e não se limitam a um único relacionamento, se dividem e assim não se privam de vivenciar seus desejos e sua sexualidade com outros.
O designer gráfico Bruno Guisso Savi namora há um ano a estudante Emile Zortéa, em tempos de conexão o casal faz uso das redes sociais e da tecnologia para amenizar a saudade e diminuir a distância, já que moram a cerca de 90 km de distância um do outro. Bruno é de Sananduva, cidade do interior do Norte do estado e Emile mora em Gaurama. Em 2008 um engano fez com que os dois começassem a amizade.
“Nós nos conhecemos pelo Orkut, na ocasião ela me confundiu com outra pessoa e me adicionou. Então viramos amigos. Nesse intervalo de tempo ambos tiveram outro namoro. E no ano de 2013 voltamos a nos falar e nos conhecemos pessoalmente”, revela o jovem, que antes desse relacionamento teve um namoro que durou apenas 24 dias, o motivo: imaturidade e orgulho de ambas as partes, segundo ele, “por ter sido algo por impulso não durou muito tempo, ambos os lados queria tomar a frente, o que não deu certo”, afirma.
Enquanto Terezinha e Rosecler conheceram seus respectivos maridos em reuniões entre amigos e passeios despretensiosos. Bruno encontrou sua namorada na internet, onde hoje, é um local onde muitos relacionamentos começam, com a facilidade de encontrar parceiros na web é um fato que se torna cada vez mais comum. E há quem diga que os tempos modernos já chegaram também para o amor, o sentimento que pode até mudar de nome, de forma, mas no fundo permanece intacto, como o desejo de muitas almas que buscam nele o calor para aquecer o inverno que nessa correria imensa a cada dia mais toma nossa vida, esse inverno chamado solidão.
E ainda que não seja o conto de fadas que vemos nos filmes, com príncipes e princesas em um mundo perfeito, o amor sempre chega, cedo ou tarde, certo ou errado, e se tratando de amor, sempre vale a pena, afinal como diriam os versos do poema Juca Mulato de Menotti Del Picchia. “Ter, a um sonho de amor, o coração sujeito é o mesmo que cravar uma faca no peito. Esta vida é um punhal com dois gumes fatais: não amar é sofrer; amar é sofrer mais”!
Agora, ouça o que as crianças tem a dizer sobre o amor!
Ana Laura Soares 7 anos Ana Laura Soares – 7 anos
Cauê Miorenato 9 anos Cauê Minerato – 9 anos
Dara Hermel 9 anos Dara Hermel – 9 anos
Gabriela Ribeiro 5 anos Gabriela Ribeiro – 5 anos
Giulia Garcia 11 anos Giulia Garcia – 11 anos
leonardo Campana Balbinot 3 anos Leonardo Campana Balbinot – 3 anos
Manuela de Lima Zanatta 6 anos Manuela de Lima Zanatta – 6 anos
