O jornalismo feito nas ruas

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A cena é rotineira em Porto Alegre: à espera do sinal verde do semáforo o motorista é tentado a comprar o jornal do dia. Mas, dentre tantos que buscam a preferência do leitor, há um cuja história por trás das páginas que vale mais do que os dois reais pedidos por ele.

Muito longe das carteiras de universidades conceituadas e da briga pela audiência do grande público, o jornal Boca de Rua quebra paradigmas e muda vidas em Porto Alegre. O projeto iniciado em 2001 tem fins que vão além dos de um tradicional veículo de comunicação: funciona também como um elemento de inclusão social. Sob a supervisão de jornalistas e colaboradores, o conteúdo impresso na publicação trimestral é totalmente produzido por moradores de rua da capital gaúcha.

O projeto é pioneiro no mundo e nasceu do “inconformismo com a imprensa tradicional que não mostra todas as realidades, o que causa dano à leitura crítica da sociedade e também das políticas públicas”, nas palavras de Rosina Duarte, jornalista e fundadora do jornal.

As pautas surgem da vivência dos participantes. São visões da realidade que buscam chamar a atenção a temas que, na opinião do Boca, são negaceados pelos grandes meios de comunicação. Os assuntos mais recorrentes são o da violência e da marginalização dos que moram na rua, um reclame daqueles que, segundo os integrantes, vivem excluídos de uma sociedade apressada, uma sociedade que prefere não vê-los.

[stextbox id=”custom” caption=”Depoimento de  José Ramíres, integrante do Boca de Rua” float=”true” align=”right” width=”250″] “Antes de conhecer o jornal Boca de Rua, eu não sabia ler, não sabia escrever. Hoje, graças a Deus, eu escrevo, eu bato foto, eu entrevisto e isso pra mim foi uma grande coisa porque quando eu tô com o jornal me sinto uma pessoa totalmente diferente, entendeu? [/stextbox] O jornal tem uma tiragem de oito mil exemplares. É vendido nas principais avenidas de Porto Alegre e a renda é revertida para os participantes. E foi assim, em 2011, que o jornalista Marcelo Andrighetti conheceu o Boca de Rua.  Dois anos depois, ele próprio dirigiu o documentário Boca de Rua – Vozes de Uma Gente Invisível.

A “redação” é composta por 30 pessoas, e outras 149 já passaram pelo projeto, o que equivale a 10% do número total de moradores de rua da capital. Há, ainda, um número que mensura a real importância do Boca de Rua: desde sua criação, em 2001, mais de 70 pessoas abandonaram as ruas após participarem do jornal. Segundo Rosina Duarte, esse não é o principal objetivo do projeto:
“A proposta não é tirar ninguém da rua ou das drogas. A ideia é criar uma ponte entre essa população e a sociedade. O Boca é uma proposta de comunicação e não uma proposta assistencial”.

Além de mostrar a realidade do projeto, o Boca de Rua levanta outra questão importante em seu documentário: o contraponto aos métodos utilizados nos meios tradicionais de comunicação. Logo na abertura, Reinaldo Luiz dos Santos, integrante do Boca, comenta o viés do jornal:

“O nosso jornalismo é para transformar as vidas das pessoas, não é para deixar como elas estão. Nós não acreditamos em jornalismo didático, sensacionalista, que dá a matéria e expõe a pessoa, e a pessoa fica do mesmo jeito que esta está. A gente acredita no jornalismo de transformação, a gente acredita na comunicação como algo transformador.”

O Boca de Rua é uma iniciativa da ONG Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação) e é ligado ao INSP (International Network of Street Paper). Os projetos recebem auxílio financeiro de diversas instituições e doações particulares.

Veja abaixo o documentário Boca de Rua – Vozes de Uma Gente Invisível.

httpv://www.youtube.com/watch?v=5TtoMSiRn0w

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