As cercas e os muros de Guilherme: uma infância despercebida

 “É uma ilusão. Enquanto a gente tem droga, agente tem amigo, tem tudo. A gente se acha grandão. Parece que as pessoa tem medo de mim, tipo… Mas isso ai é só ilusão (sic)”. Guilherme, aos 12 anos, já não morava em casa. A casa de seus pais passava de lugar de convívio à hotel. O menino, filho único, voltava para seu lar só para dormir. Já respondia por liberdade de adulto e crescia no meio à uma realidade embaçada pela fumaça da amnésia governamental, típica de um lugar que não contribuía para o progresso financeiro do país, que não renderia visibilidade comercial aos gringos de primeiro mundo. Logo, presente de ser marginalizado. Neste perambular, entrava em curvas perigosas e ruas desertas.

O miúdo, como se denominou ao relatar seus primeiros roubos, respondia por adulto, convivia com jovens, mas utilizava (ou utilizavam) de seu físico de criança para adentrar em lugares apertados. Essa foi à maneira de ganhar a confiança do grupo, e também, as moedas para comprar o lanche na escola. Sim, Guilherme estudava e sempre estudou até seus 14 anos. Normal seria estar pulando muros para invadir parques e divertir-se com seus amigos nos brinquedos que ali estariam, ou então, rasgando cerca para jogar bola com sua turma no campo do clube da cidade. Cambiar bolinhas de gude era a rotina de outros adolescentes de sua idade.  

– Na infância eu não brincava, não parava em casa. Sempre na rua. Nunca falava com meu pai, porque de dia ele trabalhava e de noite saia fazer festa. Eu tava sempre jogado ai na rua (sic).

 As cercas que Guilherme destroçava, rasgava uma infância tradicional. Os muros que saltava, contrário do habitual que o definiriam como criança travessa, o denominava como ladrão. Ao receber esse pseudônimo, o que seria atribuir o sobrenome de usuário de droga? É quase uma corrente viciante, de certa forma imposta para sustentar o vício de realidades esquecidas: primeiro ladrão depois drogado, ou vice versa, porque a ordem dos fatores não altera o desfecho de sua história. Na verdade, Guilherme, antes de tudo, foi um menino esquecido. Seria então: Esquecido Ladrão Drogado o nome desse jovem que teve infância roubada? Ainda mais, se Guilherme, para a turma da boca vulgo “Gezinho”, teve a infância roubada por ser esquecido, não seria ele a vítima desta história?

[stextbox id=”custom” caption=”Os capítulos que marcaram a vida de Guilherme”]

CAPÍTULO I – Primeiros passos de Guilherme como “Gezinho”

CAPÍTULO II – Uma nova identidade

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