“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. A frase de Glauber Rocha traduz bem o desafio do cineasta Yasser Socarrás. Em um momento em que Cuba passa por grandes mudanças, como a unificação da moeda, o cineasta Yasser sai do país de origem para viver uma experiência totalmente nova em termos práticos de filmagem. Especializado em fazer cinema de baixo orçamento, o cubano participou da XIV Semana acadêmica da FAC.
Mas como se faz cinema com baixo custo? Bom, vamos começar pelo princípio de que o sistema de cinema colaborativo independe de uma grande empresa patrocinadora, ele depende sim de uma ideia. “Um grupo de pessoas se reúne, ou uma pessoa pode fazer cinema sozinha” – explica o cubano.

O desafio de cineastas como Yasser é produzir cinema de baixo orçamento em um cenário dividido: entre grandes produções que arrecadam milhões, e curtas metragens feitos com apenas uma câmera. “Num processo industrial precisa cinco pessoas para operar uma câmera. Uma só pessoa pode operar a câmera e dirigir um curta. A primeira diferença que tem o cinema industrial e o cinema de baixo orçamento em Cuba, é que não é uma opção. O cinema de baixo orçamento é o que você tem à mão para fazer” – lembra o cineasta.
Vale lembrar que no Brasil o cinema tem mais de 110 anos de história e passou por várias fases, mas também nunca se consolidou como indústria. Ficou flutuando entre colaborativo e industrial. Depois do cinema de retomada nos anos 90, despontaram no Brasil grandes produções como Tropa de Elite, que em sua segunda parte teve a maior bilheteria da história do país. Com a marca histórica de 102,6 milhões de reais, Tropa de elite 2, dirigido por José Padilha supera até mesmo o famoso Avatar em faturamento nas salas de cinema do país.
Entre muitos prós e contras, Yasser aponta algumas características dos dois sistemas de produção cinematográfica. “Outra diferença é a liberdade, que de alguma forma se tem sendo independente de uma grande indústria. Tem suas vantagens e desvantagens. A maior desvantagem é colocar isso no sistema de exibição e distribuição” – completa o cineasta. Ele explica também quanto aos incentivos e patrocínios às produções cinematográficas no seu país de origem. “Temos o icaic que é a indústria de cinema oficial do governo que até poucos anos era quem bancava o cinema. Agora começaram a sair pessoas independentes que aí começam a captar orçamento fora do país” – aponta Yasser.
Pode-se perceber uma grande diferença entre Brasil e Cuba com relação ao cinema e a cultura em geral. Você sabe quanto custa uma entrada para assistir um filme nos cinemas cubanos? Custa o equivalente à R$ 0,05. Outra diferença é a cultura do povo cubano, que costuma consumir muitas produções cinematográficas. “É perguntado muito aos brasileiros sobre o cinema brasileiro e eles não conhecem os filmes, mas em Cuba se conhece todos os filmes brasileiros. O cubano está sempre atrás do filme que vai sair” – conta Yasser. Fica a dica aos brasileiros, que tem muitos incentivos, mas não tem cinema por cinco centavos.
