Ele se define como um repórter peregrino, que busca no Brasil e no mundo histórias capazes de mudar pensamentos e opiniões. Por outro lado, se define como um cronista provinciano que traz em suas crônicas o que passa despercebido em nossas vidas. Sua simplicidade, poeticidade, leveza são claras tanto em suas crônicas quanto em suas matérias sendo capazes de tocar até a alma do leitor e do telespectador.
Marcello Canellas nasceu em 1965 em Passo Fundo e aos dois anos de idade se mudou para Santa Maria. Prestou vestibular para Agronomia, mas acabou abandonando o curso para fazer Jornalismo. Em 1987, formou-se na Universidade Federal de Santa Maria e começou a carreira como repórter de Polícia do jornal A Razão. Depois, fez um teste e foi contratado pela afiliada da RBS em Santa Maria. Em 1980, foi indicado para a emissora afiliada da TV Globo em Ribeirão Preto, São Paulo. Desde 1990, trabalha como repórter especial na TV Globo do Rio de Janeiro.
Fez questão de que a segunda cidade em que lançasse seu primeiro livro “Provínicas: crônicas de uma alma interiorana” fosse sua cidade natal a qual segundo ele sente uma relação muito forte. O Nexjor aproveitou a participação do jornalista na Semana Acadêmica da Faculdade de Artes e Comunicação e tirou algumas dúvidas.
[stextbox id=”custom”]”O papel do jornalismo não é de transformar a realidade, mas de transformar em notícia o que é visto com preconceito pelas pessoas”[/stextbox]Abordagem de temas delicados
Marcelo Canellas optou, nos últimos anos, por tratar de temas mais delicados que envolvam problemas sociais e os direitos humanos. “Eu sempre me preocupei com essas questões como jornalista, porque eu sempre me preocupei como pessoa, como cidadão”, afirma. Cita o texto “O jornalismo e a ética do marceneiro” do jornalista Cláudio Abramo e defende: “Você não separa a ética do cidadão com a ética do jornalista”. Para ele , só o tratamento muda: ” O jornalístico investiga, busca entender porque aquilo acontece para poder contar direito o que está acontecendo”.
[stextbox id=”custom”]“Tenho uma caixa cheia de caderninhos. Sou repórter à antiga, dos que ainda rabiscam num papel”.[/stextbox]
Qualidades do bom jornalista
Diante dos mais de 40 prêmios nacionais e internacionais no jornalismo Canellas é a pessoa certa para dizer as qualidades que os futuros jornalistas devem desenvolver para serem bons profissionais. “Nunca devemos esquecer da independência intelectual, da própria capacidade de crítica, de questionar e desconfiar das aparências”, cita.
Salientou que não se pode esquecer as questões técnicas, as ferramentas necessárias, aquelas que irão impedir que o repórter seja enganado pelas aparências e por pautas furadas. Além de dominar principalmente a língua: ” Esse domínio que vai permitir a construção de narrativas e contar histórias”.
[stextbox id=”custom”]”O acadêmico de jornalismo que não lê todo dia sobre tudo terá uma visão medíocre da realidade”[/stextbox]Um jornalismo mais pensante
Hoje em dia, nota-se um jornalismo mais informativo e objetivo. Para Canellas, falta um jornalismo mais aprofundado, com grandes mergulhos em grandes assuntos. “Em geral não existe uma rotina da grande reportagem”. Para ele, uma das razões desse jornalismo mais objetivo é o enxugamento das redações, o que em sua opinião é uma economia burra.
“O que da prestígio para uma empresa de comunicação, é o grande tema, a grande reportagem, o grande assunto, que o jornalista descobriu, assim conquista-se leitores e audiência”. Além disso, para ele há uma tendência geral para sintetizar tudo. “As pessoas tem tempo para ler quando acham uma reportagem bacana, sem clichês, feita de uma maneira diferente e criativa”.
Crônicas
Com uma carreira de mais de 25 anos na televisão, há alguns anos atrás foi convidado pelo jornal Diário de Santa Maria a ter uma coluna semanal. Optou pelo gênero crônica que lhe mostrou uma nova realidade. “A crônica me permite fazer exercícios narrativos, que o jornalismo não me permite”, afirma Canellas. Para ele, a crônica ganha seu valor quando atinge a subjetividade das pessoas.
[stextbox id=”custom”]“Minha cidade é hoje o Brasil em luto. “Minha juventude perdida é o meu país, perplexo e tonto, impotente a velar meu corpo. Santa Maria, rogai por nós.” [/stextbox]Profissional x Emocional

A profissão de jornalista, como tantas outras, coloca os profissionais diante de tragédias e momentos de extrema emoção, como o incêndio da Boate Kiss em Santa Maria. Canellas diz que em situações como essas é impossível conter a emoção, seria desumano não senti-la. “A emoção é necessária. O que eu acho que não é adequado é você tornar a sua emoção tão notícia quanta a emoção legítima do entrevistado” justifica.
Como Canellas cresceu e estudou em Santa Maria sentiu ainda mais a tragédia. “Eu me vi naqueles meninos, porque eu fazia isso, me divertia como eles, ia para a boate. Então há uma projeção daquilo que você foi”. É muita frieza pensar que vai ter uma postura distanciada daquilo ali é desumano.
