Amazônia nunca vista

“Hospital é lugar de pegar doença”, ri o caboclo que aparenta suas 65 primaveras, ao embalar-se na rede que faz das árvores de jambo sombra de convivências. “Você entra lá com uma ferida e sai com tuberculose. É lá que tá o vírus de todas as doenças. Nossa terra sim que é sadia”.

Foto: Guilherme Cavalli
Francisco é o pai da família Canavarro. Hoje seu trabalho é fazer rede, já que não pode mais pescar.

A terra de Francisco Canavarro é a Amazônia. O caboclo já não pesca, por estar com uma de suas pernas presa por “alguma coisa”. A matriarca da casa, acompanhada pela bengala que denuncia seus 95 anos, conceitua o “alguma coisa” como “reza braba”. Na viagem de culturas, é da tradição indígena a figura do Xamã, que ainda se faz presente e responsáveis pela reza e espiritualidade.  Tratam feridas humanas com remédios cedidos pela floresta e manipulados pela Mãe Terra.

Povoadores do extremo. “Cultura exposta”, nas palavras de um professor. Comunidades ribeirinhas que das 365 luas do ano, 182 vivem sob águas e 182 sobrevivem na sina da seca. A lua que resta não os faz falta, não acompanham o cronos do relógio. É o prazer do kairos que mistura a raça da qual brotou o novo povo que tem sua pele cor de ouro já extinto. Extinto ou roubado? Aldeias nômades, sobreviventes da caça e da pesca. No sabor de viver na Amazônia, a farinha improvisa a vez do feijão ao misturar-se com o arroz, o bife cede o lugar ao peixe recém pescado, que também foi improvisado no quintal da casa. Ninguém contou, foi presenciado.

Foto: Guilherme Cavalli
De pele morena, olhos puxados e cabelo grosso, Luana Canavarro representa os traços do povo que mora no norte do Brasil.

De nariz chato, olhos achatados, testa larga e cabelo grosso, a criança representa as características físicas dos moradores do calor tropical que distinguem-se na pluralidade da floresta. Lusos e espanhóis tentaram unificar a variedade étnica. “Não somos cultura pronta”, exclama convencido Raimundo Mendonça de Castro, aquele que também adjetivou a cultura amazonense como exposta. Mesmo considerados como um “povo novo”, são os antigos povos datados do ano de 1500 que hoje cultivam e reverenciam a história dos antepassados. Foram eles também a casta decepada de direitos, abortados da Gaya. “Somos filhos da terra e vivemos juntos dela. É do barro que se origina nossa cultura”.  Entre uma colherada de arroz e um pedaço de peixe, conta o educador que – ainda – sustenta o cargo de sábio.

– Sua benção pai.

A menina chega em casa depois de lavar a roupa nos braços que envolvem a floresta. Ela nem mesmo estranha o narrador que ali está vasculhando sua cultura. Permanece envolvida na toalha ao estender as roupas no varal. A jovem de olhos de jaboticaba demonstra familiaridade ao local quando, ao caminhar na floresta, quase apanha pássaros e descreve a flora diversa, inclusive os espinhos que turista algum escapa. Na flor de seus 18 anos, além da roupa que lava também é responsável por direcionar a rabeta da família, barco de motor que serve de automóvel.

Foto: Guilherme Cavalli
Dona Coração é a matriarca da comunidade Tilheiro. Mãe de Francisco, a senhora de 95 anos permanece forte e lúcida. “Gosto muito de tecer meu crochê, é minha diversão”.

O respeito pela tradição é a raiz mais profunda desse povo. É também ele que dá cor a cultura que racha o cimento. É a flor que brota em meio à calçada. Calçada é cultura metropolitana, mas é o barro quem suja os pés desse povoado. Do barro é que surgiu a  aldeia que tem suas origens a figura de Dona Coração. Há duas gerações antes dela, moldava-se o barro para fazer telha que eram levadas à Manaus. Reuniam-se trabalhadores que gestaram a comunidade. A dona da bengala foi quem cedeu às terras herdadas de seu pai para que outros ali se alojassem. “Não me lembro de ter índios por aqui. Recordo bem de meu avô espanhol ser casado com minha avó, a portuguesa. Todas as terras que podem ver era dele. Meu avô tinha ganhado do seu pai, que era juiz de Direito vindo da Espanha”. No tom de voz baixo, a senhora de pele enrugada e que não passa de um metro e meio, deixa notar sua personalidade pacienciosa. Dona Coração é organismo que deu sustento a comunidade do Tilheiro, sinônimo de telha.

A pluralidade dos povos da Amazônia simplifica sua história no apresso a tradição.  Costumes de gerações atravessam a família Canavarro de avó até netas, em uma mistura de tempos. “Pai e mãe são figuras sagradas”, diz a filha  mais nova do casal. Seu Francisco e sua esposa, Socorro, são exemplos de que Terra Mãe e sangue do Filho se misturam. Ela indígena, ele dos espanhóis e portugueses já citados. A dupla faz  memória ao vermelho derramado pelo atravessar das balas durante o encobrimento.  Hoje se encontram nas matas e fazem culto a liberdade, que também livrou a  América Latina da unietnia. Amazônia, o pulmão do mundo? Se consciente ou não, seu Francisco diz que “barro permanece vermelho como o coração”.

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