Será que Jango foi assassinado? É o que o jornalista Juremir Machado da Silva investigou durante três anos, depois de ler cerca de 10 mil documentos, entrevistas, viagens, visitas a prisões, enfim muito trabalho para escrever um livro de cunho histórico. Juremir esteve esta semana em Passo Fundo para lançar o seu livro: “Jango, a vida e a morte no exílio” e o Nexjor bateu um papo sobre o seu novo livro e jornalismo. O jornalista, historiador, sociólogo, professor, cronista do jornal Correio do Povo que não tem medo de dar sua opinião sobre todos os assuntos, principalmente os mais polêmicos.
Muitos jovens jornalistas acham que basta o conhecimento técnico, mas uma formação mais ampla, como em sociologia e história, pode auxiliar um jornalista de que forma?
É muito bom o acadêmico se aprofundar na área que gostaria de trabalhar. A gente ganha em credibilidade, e ganha até mesmo em prazer de descobertas, de conhecimento, mas ganha também no dia-a-dia, quando vamos entrevistar um filósofo devemos estar bem preparados, ter uma base bem forte, tem que estar bem emparelhado. Eu aconselharia todo mundo a ter jornalismo e outra faculdade, sociologia, filosofia, economia, história, letras, duas dão uma base muito boa.
Em suas crônicas observamos que o Sr. não tem medo de expor sua opinião sobre todos os assuntos. Como em uma que o Sr. chama o deputado Jair Bolsonaro de analfabeto intelectual. O Sr. acha que falta jornalistas com mais coragem?
Existem muitos jornalistas com coragem, não existem muitos veículos que deixem os jornalistas expressar a sua coragem. Mas por exemplo, na internet, hoje, os blogs estão fazendo esse trabalho mais corajoso, mais explícito, tem muito blogueiro chamado de blogueiro sujo que está detonando isso e aquilo. O ministro Joaquim Barbosa está aborrecidíssimo com os blogueiros e ameaçando, que em algum momento vai tomar providências. Eles estão tendo a coragem que a imprensa mais convencional.
A jornalista Eliane Brum publicou um texto tempos atrás comentando que a geração atual é a mais preparada em termos de recursos e acesso à informação, mas ainda despreparada para lidar com as dificuldades que a vida impõe. Para os acadêmicos de jornalismo, que hoje têm acesso fácil à informação e a recursos de ponta, quais são as principais qualidades que eles devem desenvolver para serem bons jornalistas.
Curiosidade, coragem, capacidade de ser irônico, não ter medo de perder emprego, conhecimento e talvez, principalmente disposição para comprar brigas, polêmicas de se expor.
E como está o jornalismo no Brasil hoje?
Mediano. Na imprensa convencional um jornalismo mediano, já na internet começa a aparecer um jornalismo muito mais provocativo, irônico, corajoso, inovador.
Como o Sr. vê o jornalismo atual, a influencia das redes sociais e de que maneira tudo isso é positivo e negativo para a credibilidade das informações?
É mais positivo do que negativo. O problema de ser muito rápido pode produzir informação mal apurada, mas o essencial é que tem mais espaço, mais contraposição. Antes quatro ou cinco veículos diziam alguma coisa e acabava ali, hoje tudo pode ser contestado. Eu posso ter o meu veículo, você pode ter o teu, cada um pode ter o seu, é mais complexo, mais difícil, mais interessante. Tem erro, claro que tem, mas se tu errares e tu mentires na internet e for algo importante, milhares de outros vão te desmentir, assim como se produz mentira rapidamente se produz a negação da mentira muito rapidamente.
Ainda falando nas redes, você escreveu dias atrás em sua coluna, relembrando os livros que escreveu, que “Por falta do que fazer, escrevi.” Falta à essa nova geração fazer isso também, escrever mais? Escrever de verdade, não apenas usar redes sociais e reduzir sentenças a frases curtas?
Começa muitas vezes com os leitores que estão acostumados ter coisas curtas, rápidas, fáceis, tem que recondiciona. Determinados assuntos precisam de mais espaço, de mais raciocínio, de mais tratamento, de mais aprofundamento. Eu acho que isso está vindo, há mais espaço para esse jornalismo de aprofundamento.
A gente quer propor algo que não se deveria propor, que é uma espécie de “achismo”: O livro começa enfatizando que Jango vai morrer. A divulgação do livro no site da L&PM enfatiza que você” logo descobriu que mais importante do que a vida, era a morte de Jango.” Você se arrisca a imaginar como seria o país se Jango não tivesse sido deposto?
Claro que me arrisco, o Brasil estaria muito melhor, ele estava levando o Brasil a um sério risco, o risco de ficar melhor, ele ia fazer reforma agrária, reforma tributária, reforma bancária, reforma na educação, e todas as reformas que ele queria fazer prejudicavam os interesses das camadas privilegiadas donas de tudo que mantinham o país em um atraso horrível. Então como ele iria melhorar o país ele foi derrubado.
E ele voltaria à vida pública no Brasil, assim como Brizola voltou, quando a ditadura acabou no Brasil nos anos 80? Você acha que ele teria um espaço de destaque?
Eu acho que sim, o Jango só saiu da vida pública porque foi derrubado. Ele queria voltar ao Brasil, mas não podia e não duvido que ele iria se candidatar novamente. Ele era um politico que só saiu da política porque o obrigaram. Se o Jango tivesse continuado, as coisas que hoje estão sendo feitas, podiam ter sido feitas antes.
Depois de suas pesquisas Jango foi assassinado ou não?
Ele não foi assassinado, da pesquisa que eu fiz a minha conclusão é que não. Não posso confirmar isso categoricamente, porque os restos mortais dele vão ser exumados pode ser que descubram outra coisa. Mas da pesquisa que eu fiz ele não foi assassinado.
