Acordar cedo se tornou rotina. Sair do saco de dormir, ir ao banheiro e descer para alguns minutos com a família que nos hospedava. A vida de carioca dormia tarde e madrugava cedo, para amanhecer já na estação Bangu, em direção à Central do Brasil. O sábado não foi diferente, a única surpresa seria que, ao atender o pedido do Papa Francisco, a juventude permaneceria dormindo nas areias de Copacabana. O que não seria novidade seriam as filas, que só podiam ser vividas em sentido de sacrifício e peregrinação. Mas dessa vez ultrapassava todas as experiências de espera vividas até então: eu subiria no palco e me encontraria a 10 metros daquele que veste branco e calça o par de sapatos surrados.

Se a vida é feita de desafios, o dia a dia daquele que vive (ou esteve no Rio por uma semana) não é diferente. A cidade maravilhosa convida para sua beleza, mas morar nela exige. Para aquele trabalhador que acorda cedo, exige horas de metrô e trem para chegar ao centro, muitos minutos em filas e demasiada paciência. Esperar teve que ser uma das experiências de Jornada Mundial da Juventude, e a melhor maneira de vive-la era na alegria de quem estava embalado pela simplicidade e humildade do argentino
As primeiras 8 horas do sábado – das 7 às 15 – foi de caminhada, já que era dia de peregrinação e por isso os metros não estavam funcionando. O Papa estava em seus compromissos, e a juventude do papa esperaria ansiosa sua chegada. No palco, muitos shows e o flashmob, com a participação de padres e bispos (foi um dos momentos mais surpreendentes da primeira da tarde). Atrás do palco, um grupo com cerca de 100 jovens de todas as nacionalidades que ali estavam. Fui convidado e me propus com alegria a esperar embaixo do sol a organização dar sinal verde para que pudêssemos olhar nos olhos de Francisco e nos alegrar com sua simpática mais de perto. Foi dali que pude notar melhor a humanidade em suas palavras, melhor entender a sensibilidade daquele que pede que a Igreja seja mãe que acolhe no contato, e não por cartaz e documentos. Ao denominar a Igreja como mãe, diz ser necessário a presença dos jovens e de seu entusiasmo, criatividade e alegria.
Já anoitecendo, é subido ao palco. Não demorando mais que 20 minutos, Papa Chico começa a atravessar a praia com seu papa móvel que já não é uma caixa de vidro. Ao chegar diante do palco e perto de onde nós estávamos, decidiu subir a rampa a pé – até por que quebrar protocolo é com ele mesmo. A noite quente carioca adentrou sob apresentações que contaram com nomes como Toni Ramos e Luam Santana. A partilha de experiência e situações difíceis partilhadas por 4 jovens mostraram como encontraram razões para viverem na fé. É aí que Francisco pede que façamos de nosso coração um terreno sensível para as debilidades humanas, para aqueles que não tem um prato de comida ou escola para estudar.
A sensibilidade ao falar com nós jovens me chamou a atenção. Com mais de 3 milhões de peregrinos o ouvindo, o Bispo de Roma usou a metáfora do futebol para mostrar que até mesmo os profissionais do esporte precisam de treinamento. É preciso que nós jovens sejamos revolucionários, que busquemos as projeções de melhores realidades e que não sejamos cristãos de fachada, só pela metade.

O Domingo: fim de JMJ
O domingo amanheceu no calor, que já não era só humano. O Rio de Janeiro voltou aos seus típicos 30 graus. Esse seria o último dia de JMJ, mas o primeiro do mandato de ir aos porões da humanidade, proposto por Francisco na noite passada – no sábado de vigília. Se for obedecido o Papa, a juventude promoverá a revolução como início da missão de ser chamado a promoção da vida digna, como aquele que diz não a violência. Essa foi a mensagem daquele que veio de Roma, como quem traz esperança aos jovens. Sua homilia de domingo trouxe a necessidade de nos fazermos discípulos e missionários – essência da Igreja que é Missionária -, para que todos sejam receptores da Boa Nova que deve ser libertação. Na metáfora da criança que passa fome e não tem escola, Francisco provou que a utopia pode sim – e deve – projetar a libertação daqueles que sofrem. A JMJ se encaminhava ao fim como a mesa onde 3 milhos e 700 mil jovens comungavam o amor na transformação.

Todos os quilômetros caminhados tiveram como resultado algumas bolhas. As horas de filas. A chuva. A fome. Quando nos capacitarmos para compreender todas as dificuldades sob o exemplo da compaixão para aqueles que sofrem, conseguiremos entender a verdadeira mensagem do caminho percorrido até então. A doação é necessária para que a cultura da paz se perpetue. A alteridade, o por-se no lugar do outro como quem constroem um infinito diálogo de infinitas possibilidades, é a conservação da vida, caso contrário surgirá a alienação pela fé. O projeto condoreiro de quem luta pela justiça – a exemplo de Jesus Cristo – sobrevoa a humanidade e faz todos discípulos missionário quando comprometidos à restabelecer a dignidade daqueles que sofrem. A JMJ deve ser constituível para a revolução que pede paz e amor. A Jornada Mundial da Juventude foi um insistente convite para sermos discípulos missionários da mensagem profética do Evangelho que busca vida plena.
