Viver: muito além de existir – Parte III

A luta continua

A vida parece às vezes seguir caminhos sem explicação, e tudo o que está em pé, desmorona. A terceira reportagem da séria baseada na Superação chega ao drama do pai que convive com a dor de ter um filho dependente químico

O olhar assustado de Antônio M. parece introduzir os caminhos da conversa que acontece em um banco da Universidade de Passo Fundo por longos 50 minutos. Seu Antônio, nascido no município de Água Doce, interior de Santa Catarina decidiu abrir o coração e contar sobre a vida que leva após a descoberta que abalou as estruturas da família. Casado e pai de um único filho, não poderia adivinhar o que estava por vir. O menininho de pele clara que carregou nos braços e a quem ofereceu o possível e o impossível para ver feliz encontrou um inimigo pelo caminho: as drogas.

A DESCOBERTA

Matricular o filho na escola, levá-lo ao primeiro dia de aula, sair mais cedo do trabalho para acompanhar a apresentação artística que tanto foi ensaiada. Essa era a rotina que Antônio mais gostava. Os momentos vividos ao lado do filho trazem lembranças que enchem o pai de orgulho, mas há uma que dói, machuca e parece nunca desaparecer. No ano de 2010, o menino de 15 anos era estudioso e muito educado, porém começou a mudar da água para o vinho, tornando-se frio. “Um dia eu vi que ele estava diferente em suas atitudes, o palavreado era estranho e ele começou a ficar agressivo”. Então, vieram as brigas e o pai, preocupado, começou a investigar o que o filho fazia quando estava fora de casa. Foi quando a bomba explodiu. “Ele confessou para a prima que estava usando drogas e eu fiquei sabendo disso”. O pai, desesperado, não conseguia acreditar. “Foi terrível, eu e minha esposa achamos que o mundo ia acabar”. Antônio mal sabia que a pior parte ainda estava por vir.

A INTERNAÇÃO

“A gente acha que nunca vai acontecer com alguém perto, imagina quando descobrimos que o problema está dentro de casa, tudo desaba”. Palavras que traduzem a dor de um pai que viu seu filho ser algemado, sedado e levado à força para clínicas de reabilitação por cinco vezes. A primeira internação foi uma semana após um susto terrível. “Na terça eu tinha entrado com um pedido de documentação para internar ele e na quinta para sexta ele saiu e voltou em um estado lastimável. Depois disso eu consegui a autorização para interná-lo”. Antônio lembra detalhes daquele dia que ficaram na memória. “Coloquei medicamento no suco, para ele dormir, e não adiantou. Chamei meu irmão e meu colega de trabalho para segurarem ele, amarramos e o levamos à força”. A cena repetiu-se por mais quatro vezes. Engana-se quem pensa que a primeira internação é a mais complicada. Para Antônio com o passar do tempo, ao invés de força, o sentimento que acompanha a família do dependente de drogas é o desespero. O pai lembra que a pior de todas as internações foi a quinta, um dia antes de o filho completar 17 anos. “Ele me disse que ia dar uma festa de aniversário e eu me desesperei. Liguei para uma clínica de reabilitação e avisei que era para vir buscar ele de noite, internei à força”. Faltaram palavras nesse momento e os olhos se encheram de lágrimas para descrever a frase dita pelo filho. “De novo, pai? O senhor me prometeu que não ia mais fazer isso comigo”. Nesse momento, Antônio não esconde o tamanho da tristeza. “Eu não desejo essa situação nem para o meu pior inimigo”.

O FUTURO

Hoje, o filho de Antônio trabalha, estuda, frequenta a igreja e não está mais internado. O medo da recaída acompanha o pai, que não deixa o filho nem ir ao trabalho sozinho: “Eu vou levar e buscar ele”. A confiança foi perdida assim como tantas noites de sono. Antônio não sabe se está certo ou errado em agir dessa maneira e nem se importa tanto com isso, afinal como ele mesmo diz: “Qual atitude pode ser considerada certa ou errada em momentos assim? Eu tenho que salvar o meu filho, e pronto”. A vontade de seguir em frente desaparece em vários momentos, mas o pai continua a lutar com um olhar de desconfiança e medo. “Ninguém imagina a dor de internar um filho dependente de drogas”. Antônio espera que o futuro seja melhor, que o menino estude, trabalhe e, como ele mesmo fala, “seja alguém na vida e não apenas mais um otário que se sente esperto”. Por mais que o caminho continue tumultuoso, o pai amoroso que sente orgulho de cada mudança positiva do filho não vai descansar enquanto a batalha contra as drogas não for vencida. “Eu não vou desistir do meu filho, eu o amo mais que tudo”.

Histórias como a de Antônio, das três mães dos meninos internados no CASE e  a do seu Jorge nos fazem perceber o quanto reclamamos. A vida, por mais complicada e tumultuosa, deve ser encarada de cabeça erguida. Todos nós passaremos por muitas provações, mas a melhor parte dos obstáculos é vencê-los.

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