Mães do CASE
Grades nas janelas, muros altos e muita saudade: a rotina de mães que têm hora e lugar marcado para ver os filhos. A segunda reportagem da série baseada na Superação hoje troca a casa de madeira pela de concreto resistente
Mãe, mulher que deu a luz aos filhos. Expressão correta, mas fria. Principalmente quando as mesmas se tratam de guerreiras incansáveis na busca pelo caminho do bem. Três mães jovens, uma com poucos e outras com muitos filhos. Elas passam diariamente por dores maiores que a do parto, já que suas “crianças” só podem ser encontradas no CASE de Passo Fundo. Mas quem disse que essas guerreiras perdem a esperança? Pelo contrário, elas erguem a cabeça e exercem o papel de mãe incansavelmente.
A SEPARAÇÃO
Todas as mães ficam com o coração na mão apenas por saber que o filho foi “ali na esquina”. Agora imagine como seria se essas mesmas mães tivessem que deixá-los atrás de grades e muros altos. J.F. deixa, sem opção, seu filho no CASE desde o começo de maio. Quando a mãe do menino de 16 anos se deu por conta que as idas “ali na esquina” estavam fazendo mal, já era tarde. O filho foi preso ao assaltar uma farmácia e ainda não tem previsão de volta para casa. J.F. conta, com as mãos trêmulas, que a prisão do filho vai ficar na memória como um dos piores dias de sua vida e que se culpa pelo fato. “Recebi a noticia pela polícia. Eu acho que nunca mais vou esquecer esse dia, sabe? Eu me culpo bastante e me pergunto se fui eu que errei, se mimei ou se faltou atenção”. O drama da mãe parece não ter final. O coração partido e o rosto cansado pela semana cheia de trabalho parecem negar o maior drama: “Meu filho ainda me contou que era usuário de drogas, eu não consigo acreditar”. J.F. não se acostuma com a situação vivida, mas a guerreira não perde a esperança: “Meu filho me prometeu que isso nunca mais vai acontecer e que quando sair daqui vai seguir o caminho do bem”. E a fé acompanha a mãe que ainda tem mais duas meninas para criar. “Eu peço a Deus e espero que ele melhore. Só o tempo vai me dizer se o que ele me fala é verdade mesmo”.
O ABRAÇO APERTADO
Uma das melhores sensações que existem no mundo é saber que se algo der errado existe aquele abraço de mãe, não é mesmo? Ele tem o dom de aquecer até mesmo os corações mais gelados. Mas e o que fazer quando estes abraços são interrompidos? “Abraçar meu filho aqui dentro e lá fora é diferente, lá fora eu podia ver ele toda hora, agora nem no quarto dele eu entro mais”. Segundos de silêncio se intercalaram com a voz triste de J.A. que vê seu menino de 16 anos cumprindo medidas socioeducativas por se envolver em um assassinato. A mãe que tem mais cinco filhos, parece não acreditar na situação que passa desde fevereiro desse ano. “Quando descobri oque ele tinha feito parecia que o meu mundo ia acabar. Eu ainda não acredito no que aconteceu”. O olhar triste de J.A. em meio à conversa traduzia o sentimento de muitas mães que passam pela mesma situação, mas a guerreira não perde a esperança: “Meu filho vai sair daqui e trabalhar em um bom serviço porque ele sempre me ajudou”, afirma.

A BATALHA PELO FINAL FELIZ
Reza a lenda que em coração de mãe sempre há espaço para mais um. No coração de M.L. o espaço é dividido entre sete filhos. A mãe mostra personalidade forte e não pára quieta. Mas a máscara da força cai assim como as lágrimas que correm em seu rosto ao falar do filho de 18 anos que cometeu um homicídio. O menino de M.L. está no CASE desde janeiro desse ano e a mãe não aceita o que aconteceu. “Nada justifica o que ele fez porque matar um ser humano é só Deus quem pode”. M.L. conta que desde a entrada na instituição o filho se envolveu em brigas, ela o havia alertado do maior castigo. “Eu disse que se ele continuasse não vinha mais ver ele”. A pausa para o suspiro profundo trouxe a conclusão da frase: “Claro que eu não ia fazer isso, eu morro de saudades dele”. M.L. lembra que criou os filhos sozinha e os mimou além da conta. Agora um deles está longe e não tem ninguém que o dê colo e nem o cubra a noite. O sofrimento pelo menino tomou grandes proporções e, hoje, a mãe tem problemas de saúde. “Tomo remédio para depressão, me incomodei muito”. M.L. lembra que o filho sempre foi educado e nunca deu problema, por isso acredita que o futuro vai trazer a resposta que ela precisa. “Errar é humano e eu acredito que ele não vai mais fazer esse tipo de coisa”.
Três mães, três histórias diferentes e três filhos que buscam, a partir de erros, a retomada da confiança materna. Elas nunca irão esquecer as idas ao CASE e muito menos apagar da memória os momentos de desgosto que os filhos trouxeram. A esperança acompanha mães que não estão atrás de grades, mas se tornam presidiárias do futuro incerto dos filhos. Sem dúvida, o que todos eles buscam, independente do passado, é o caminho do bem e o final feliz.
[stextbox id=”custom” caption=”Mas afinal, o que é o CASE?”]
O Centro de Atendimento Socioeducativo Regional de Passo Fundo tem o objetivo de recuperar jovens através de cursos, oficinas e acompanhamento psicopedagógico. Para a assistente social do Case, Angela Diana Hechler, a internação, tida antes como um castigo, não atingia o objetivo de recuperar os adolescentes, desta forma, o trabalho de reeducação implantado na instituição tem mostrado melhores resultados. “O CASE hoje é uma escola onde se trabalha a recuperação desses adolescentes para que eles possam voltar ao convívio social”.
E pelo que parece as medidas estão dando certo. Segundo o Diretor, Lauro Pasinato, de 2010 até agora o número de adolescentes reincidentes caiu de 23% para 9,5%. “Foi um avanço nesse sentido. Quando vemos esses resultados percebemos que estamos caminhando certo”, afirma.[/stextbox]

