Herança

Depois de 4 livros e 2.634 páginas, a série termina seguindo o mesmo ritmo lento dos demais livros

O ano é 2003, e eis que surgem Eragon e a promessa de uma aventura eletrizante e arrebatadora. O primeiro livro da série, lançado pela editora Rocco no Brasil, tinha tudo para ser genial. Uma história de honra, batalhas e dragões, envolvendo as criaturas que dão o que falar nesse tipo de narrativa: elfos, anões e urgals convivendo com humanos em um mundo totalmente diferente do nosso. Ao que parece, Christopher Paolini não soube usar essas ferramentas a seu favor.

Com uma narrativa lenta, previsível e incoerente, o autor poderia ter escrito no máximo em dois livros as aventuras do menino pobre que vivia em uma fazenda com seu tio e primo e que, de repente, se tornou um cavaleiro de dragão. A não ser que tivesse a habilidade de renovar seus personagens, para não torná-los entediantes, e saber manter a essência de cada um em todas as páginas. O que inicialmente seria uma trilogia se transformou em um ciclo com 4 volumes. Paolini relata ao final de Herança que foi muito difícil dar adeus à Safira, Eragon e Arya, mas prolongar-se com a trama não ajudou nenhum pouco no desenvolvimento da história.

O autor decepciona quem acompanhou a série em vários momentos. Dentre as falhas que podem ser apontadas está o fato de que esqueceu completamente que Eragon era vegetariano. Paolini trabalha muito bem com isso nos primeiros livros da série e mostra a jornada do menino que, após adquirir a habilidade de sentir a mente dos animais, decide por não se alimentar deles. Em Herança, Eragon volta a se deliciar com carneiros e costelas, como se não lembrasse mais de suas decisões anteriores. Também dava para esperar bem mais do único vilão da história, Galbatorix. Paolini esperou até as últimas páginas para mostrar que ele não era tão ruim assim, que seus propósitos, afinal, não eram de todo maus, decepcionando até o menos atento dos leitores. Até mesmo as batalhas, que eram um ponto mais forte do autor, também se tornam menos interessantes, o que acabou acontecendo na batalha final, contra Galbatorix. Depois de descobrir que o rei é invencível e que o vilão Murtagh não é mais ruim, a narrativa simplesmente se perde no seu imenso poder. Então, depois de um luta sem sentido com Murtagh, Eragon simplesmente derrota o rei com uma palavra mágica. Simples assim.

O jovem escritor, que lançou seu primeiro título com apenas 20 anos não conseguiu dar a maturidade necessária à trama. Em Herança, os problemas são resolvidos muito facilmente, o que torna a preocupação que ele coloca nos personagens desnecessária e irritante. Inspirado em O senhor dos anéis, Paolini tinha tudo para dar continuidade a seus personagens de forma mais madura e terminar a série com um fechamento mais adequado. Ele reservou muitos detalhes da trama para revelar em Herança e deixou os leitores esperando mais do que poderia oferecer.

Vale a pena? Vale se você gosta desse tipo de aventura, com batalhas, elfos, anões e dragões, mas não, não vale pela narrativa.

[xrr rating=2/5]

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