Ai de ti, Rubem Braga

Rubem Braga é considerado por muitos como um dos maiores cronistas brasileiros, mesmo após 22 anos de sua morte.

Uma coisa não se pode negar: Jornalismo e literatura andam de mãos dadas. As páginas dos jornais contam histórias, são responsáveis por anunciar fatos marcantes, mas são perecíveis. Poucos lembram do que foi escrito ontem, com exatidão de palavras, mas raramente esquecem o fato. Já a literatura, essa deve romper as barreiras do tempo. Talvez por isso a Crônica seja, para muitos, um gênero inferior de literatura, já que poucos foram reconhecidos somente através dela.

Jornalismo e literatura  têm muitas coisas em comum, e uma delas é que só podem ser praticado por alguém que tenha amor às palavras e uma boa dose de jogo de cintura, principalmente quando o assunto é o jornalismo diário e a crônica. Rubem Braga fez essas duas escolhas, pisou pela primeira vez em um jornal aos 15 anos e nunca interrompeu essa ligação com as páginas diárias.

Escreveu Com a FEB na Itália, em 1945, quando foi correspondente de guerra pelo jornal Diário Carioca e ao questionado por Fernando Sabino, desafiado a definir-se, o jornalista respondeu:

 

[stextbox id=”custom”]“Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem que dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento.”[/stextbox]

 

Essa simplicidade é transparente nas linhas que escreveu, como na crônica “O conde e o passarinho” que deu nome a um de seus livros:

[stextbox id=”custom”]“Eu quisera ser um passarinho. Não, um passarinho, não. Uma ave maior, mais triste. Eu quisera ser um urubu. Entretanto, eu não quisera ser um conde. A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser um conde.”[/stextbox]

           

            O autor dessas palavras nunca desejou o reconhecimento, levando em consideração as escolhas que fez, mas o alcançou graças ao encanto que confere a cada relato cotidiano, que pega o leitor de jeito, em uma identificação imediata com o banal. Ele levou ao papel situações dos cidadãos comuns, as histórias da dona Maria, da empregada que há quinze anos recebe as mesmas ordens e responde às mesmas perguntas, o cotidiano de uma casa, os pensamentos de um velho lobo do mar. O velho Braga nos faz virar páginas pensando que os anseios escritos foram inspirados nos nossos.

O dicionário diz que crônica é um gênero literário no qual os fatos são apenas narrados, conservando-se a ordem cronológica, um texto publicado em jornais ou periódicos com acontecimentos reais ou imaginários. Talvez o autor do dicionário não tenha lido Rubem Braga, que morreu há 22 anos, após reunir alguns amigos em seu apartamento, ser encaminhado para o hospital e ter seu último desejo atendido: ficar sozinho.

Ai de ti, Rubem Braga! Ai de ti, que preferiu uma vida reclusa e palavras simples para contar as histórias que qualquer um pode reviver no dia a dia. Ai de ti, que defendeu a princesinha do mar, as partilhas familiares e tantas outras situações, mas que só você soube levar para o papel, ver que o banal dá samba, ou melhor: dá texto, e dos bons.

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