A história de Celso Leandro Monteiro seria igual a de tantas outras pessoas, caso ele não tivesse optado em fazer a diferença. O passo-fundense perdeu o movimento das pernas há quase dez anos, em um acidente de trânsito, e desde então vem escrevendo uma história de superação e foco na vida – e há sete é halterofilista.
Treino pesado
O choque de sua moto com o caminhão, no dia 22 de outubro de 2002, foi o divisor de águas do cara que levava uma vida desregrada para a formação do paratleta. Apesar da revolta inicial, comum em todos os casos de acidentes que deixam marcas ou limitações, ele resolveu não baixar a cabeça. A primeira atitude, após a reabilitação, foi montar um time de basquete para cadeirantes, mas abriu mão de um esporte por outro: hoje ele é halterofilista.
O ex-estudante de jornalismo da UPF passou por um período de reabilitação no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, durante um mês e lembra ter visto outros casos como o dele e também situações mais graves. Foi nesse mesmo hospital que aprendeu a viver com a limitação física, reconstruiu sua independência e também descobriu uma nova alternativa para a qualidade de vida: o esporte.
O que falta em Passo Fundo é um centro técnico especializado, pois as academias da cidade são mais voltadas para a aeróbica, não são equipadas para atletas com limitações ou necessidades especiais, o que dificulta o treino do paratleta. “Eles não vão botar uns aparelhos que são caros”, conta o halterofilista, que precisa se deslocar até Cruz Alta para realizar treinos de força, pois Passo Fundo infelizmente não tem estrutura para treinos pesados, seja para deficientes físicos ou não. Celso treina sem ajuda de treinador, montando seus treinos e recebendo auxílio de estagiários na academia.
O peso das conquistas
Celso participa de competições nacionais desde 2005, quando decidiu dedicar-se ao halterofilismo. Apesar de não imaginar uma vida sem o esporte, ele não se esquece da primeira competição.
O atleta lembra que pensou em largar o esporte durante o primeiro campeonato, desanimado, pois não havia conquistado nenhum prêmio. Se tivesse encerrado a carreira na primeira derrota, sua história seria muito diferente. Bastaram dois anos de treino e muita persistência para garantir o primeiro lugar em uma competição e, em 2008, bater o recorde brasileiro, que manteve até 2010.
Sempre contando com o apoio da família e dos patrocinadores, o halterofilista garantiu a primeira colocação na Etapa Regional Norte/ Nordeste do Circuito Loterias Caixa de Atletismo, na categoria até60 kg. A ajuda é fundamental para o desempenho do atleta, que encontrou na família o primeiro incentivo.
“Agora, ganhei a passagem para o Rio Grande do Norte e foi o São Vicente que me deu. O hospital conseguiu a passagem aérea, o único gasto que eu tenho é deslocamento de Passo Fundo até o local da competição” fala Celso, que conta com o auxílio dos apoiadores, sempre dispostos a unir esforços.
O futuro está em 2016
Celso já recebeu convites para treinar em centros especializados, onde teria melhores condições de vida e maiores chances de intensificar a qualidade dos treinos. “Eles querem que eu faça parte da equipe de Uberlândia, que é uma equipe grande e unida. (…) O centro de treinamento oficial é lá, a seleção brasileira de halterofilismo sempre treina lá antes das competições”. Esse é apenas um dos seus planos para o futuro.
Ele conta que acompanhou as Paralimpíadas de Londres, e talvez mude novamente o rumo da sua história. Todo mundo tem um ídolo, principalmente quem pratica esporte – afinal, atletas são campeões em superação de limites- e com o paratleta não é diferente. Ele admira Rodrigo Marques, o halterofilista brasileiro que participou das paralimpíadas, Fernando Fernandes, tricampeão mundial de paracanoagem, e o italiano Alessandro Zanardi, ouro na prova de ciclismo contrarrelógio da Paraolimpíada de Londres.
Pensando em uma possível mudança de ares, que lhe permita treinar com mais frequência em competições futuras e em 2016, nos jogos olímpicos e paralímpicos, que serão no Brasil, Celso estuda a possibilidade de sair de Passo Fundo.
A trajetória de conquistas no halterofilismo pode estar com os dias contados para Celso. O ciclismo contrarrelógio ou a paracanoagem estão nos sonhos do halterofilista. Teremos que esperar quatro anos para – talvez – vê-lo integrar o time de heróis paralímpicos. Enquanto isso podemos acompanhá-lo de pertinho, esperando os próximos capítulos dessa história que promete mais uma virada.
