
O parque da Gare viveu um momento histórico de manifesto, debate e festa. A alegria dos grupos LGBTs de várias cidades do estado, juntamente com a organização do Plural Coletivo LGBT , fez da 1ª Parada da Diversidade de Passo Fundo um reclame para o direitos civis dos homossexuais na tarde do domingo, dia 2 de setembro. Sob o sol forte, uma multidão cantava e dançava, interagindo com a música e com os pedidos por mais dignidade que vinham do carro de som. Todos respondiam NÃO ao preconceito e SIM à conscientização.
O tema da parada deste ano é: ”Trazendo visibilidade, lutando pela diversidade”, e com esse objetivo o movimento de domingo pretendia ressignificar as paradas. A primeira marcha LGBT do mundo aconteceu um ano após a revolta de Stonewall, em 1969, quando gays, bissexuais, lésbicas, homossexuais, travestis e transexuais se revoltaram contra a polícia que fazia batidas violentas em bares de Nova Iorque. A revolta durou vários dias, muitas pessoas morreram, e, um ano após o conflito, foi organizada uma marcha para relembrar as mortes e protestar contra o preconceito. Porém, segundo o coordenador técnico do Plural Coletivo LGBT, Oscar de Sousa Santos, o propósito das paradas se perdeu ao longo do tempo. “As paradas passaram a ser só festivas, financiadas pelo governo em uma disputa de verbas das ongs”, afirma Oscar.

A semana anterior foi marcada por reuniões e debates sobre a causa LGBT em diversos espaços de Passo Fundo, e sair às ruas para desfilar, pedindo por respeito com a classe gay, conclui as atividades que o Plural organizou visando chamar a atenção para as demandas em áreas de saúde e educação, por exemplo, as quais teriam de responder melhor à realidade dos homossexuais. “Mostrando que colocar a cara na rua e dizer ‘sim eu sou gay’, ‘eu sou lésbica’, ‘sou transexual’ traz a naturalidade que a gente precisa para que um dia o preconceito se dissolva”, diz o coordenador, que, após um ano de trabalho com o coletivo LGBT, já percebe mudanças na forma de tratar os temas que envolvem sexualidade e respeito à diversidade. “Quando a gente chega a um setor para discutir questões de sexualidade e as pautas do nosso grupo, e as pessoas começam a usar termos como ‘homossexualismo’ e ‘opção sexual’, e a gente consegue ressignificar que homossexualismo se remete a doença e consegue dizer que não é uma opção sexual, que não se escolhe ser heterossexual ou homossexual, é uma orientação sexual”. A homossexualidade não aparece mais no Código Internacional de Doenças, e passar esclarecimento para a população é a principal missão do grupo, segundo Oscar.
Plural Coletivo LGBT
Um dos objetivos propostos pelo Plural é organizar discussões dentro das universidades de Passo Fundo e região como forma de minimizar a distância entre o grupo e a formação de profissionais. “É extremamente importante que os professores, não interessa de que disciplina, não interessa de que curso, comecem a formar profissionais capacitados para atender ao público LGBT, sem preconceito sem discriminação”, explica o coordenador comentando as novas pretensões do grupo para os próximos meses. “A gente ainda pretende lançar um livro com artigos e estudos acerca da população LGBT e com assuntos e discussões debatidas nos encontros”.
As atividades do Plural já completam um ano desde sua formação, e o grupo já foi responsável pela realização de oficinas em escolas públicas, em setores da prefeitura – como a Semcas e os Cras. “A gente preparou um material para trabalhar nessas áreas. Cursos de formação para os integrantes do nosso grupo, mostrando a história das lutas e sobre os nossos propósitos e que são abertos à comunidade. Daqui pra frente é continuar com essas atividades para no ano que vem organizar a segunda Parada da Diversidade de Passo Fundo”, diz Oscar.
A resposta da audiência
O que mais chamou a atenção na Parada da Diversidade foi a adesão de quem passava por ali juntando-se às comemorações e reivindicações. Ao aproveitar um momento de sombra que já aparecia na tarde de domingo, a gerente administrativa, Alessandra Maciel, integrou-se ao grupo seduzida pelas apresentações. “A gente mora aqui perto, viu a confusão e veio olhar. É muito bacana as músicas são legais, o pessoal é divertido. A primeira coisa que eu vi foi a drag ali cantando e dançando. O que eu mais gostei foi a parte artística”. Disse Alessandra, mais uma das pessoas, que, ao encontrar a rua repleta de cores, se juntou à multidão.

“A gente participa das paradas porque o nosso objetivo é comum, que é lutar contra o preconceito. Tentar mostrar para as pessoas que a gente não é só gay, só uma questão de sexo, mas que temos uma vida a dois, com a pessoa que a gente ama e que temos profissões, que estudamos, como qualquer pessoa comum”, conta Valma Classic Kieer. Os mais de 25 anos de apresentações da dragqueen, contribuem para reivindicar mais respeito à população homossexual e ainda para trazer alegria e performance à tarde da diversidade. “Eu sempre participei de todas as paradas do Rio Grande do Sul, levando o meu trabalho e o das novas drags que estão nascendo”, conta Valma, depois das apresentações de sua turma vinda diretamente da boate Studio 54 Mix, de Caxias do Sul. Em sua última fala, ela esclarece qual é a principal vontade de quem protestava na parada: “Então, é simplesmente a vontade de viver, de tocar a vida pra frente, sendo do jeito que eu sou. É ser feliz e estar de bem comigo mesmo”, conclui a dragqueen.
[stextbox id=”custom” caption=”Rebelião de Stonewall”]Stonewall foi um conjunto de episódios violentos entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros e a polícia de Nova Iorque, que começou em 28 de junho de 1969 e duraram vários dias. Os conflitos cercaram as regiões próximas ao bar Stonewall Inn e também ruas envolventes. Stonewall é largamente reconhecido como o evento catalisador dos modernos movimentos em defesa dos direitos civis LGBT. Stonewall foi um marco por ser a primeira vez que um grande número do público LGBT se juntou para resistir aos maus-tratos da polícia para com a sua comunidade, e é hoje considerado como o evento que deu origem aos movimentos de celebração do orgulho gay.
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