A encenação da Batalha do Pulador, realizada anualmente, recorda um dos embates mais sangrentos da Revolução Federalista
Quatro mil e quinhentos homens, seis horas de combate, duas ideias e um destino a ser traçado. Maragatos e pica-paus armados confundem-se em meio a uma luta que resulta em quase 1.000 mortos. No lugar onde hoje é o Distrito de Pulador, os restos de uma revolução que ensanguentou o Rio Grande do Sul entre 1893 e 1895. De um lado, os federalistas, que buscavam “libertar o Rio Grande do Sul da tirania de Júlio Prates de Castilhos”; do outro, republicanos, que buscavam defender a instalação da República. Contrários, cavalgaram rumo ao combate.
Anteriormente à Batalha do Pulador, em 1889, a nova federação derrubou a monarquia do Império e propôs a formação de uma República. Liderados por Deodoro da Fonseca, em 15 de novembro, um grupo do exército brasileiro marchou em busca da nova forma de governo. A proclamação da República causou rachaduras na unidade do país. Os defensores da monarquia, maragatos ou federalistas, comandados por Gaspar Silveira Martins, não aceitam facilmente a mudança política e entram em conflito com os republicanos, ou pica-paus, de Júlio de Castilhos. O encontro das duas facções faz eclodir o movimento revolucionário. Para fazer prevalecer a ideia desejada, maragatos e pica-paus deixam suas famílias e suas vidas. Dedicam a sua existência à luta e até o último respirar defendem a política escolhida. Pelo Pampa gaúcho, o sangue começa aparecer. A luta foi mais que uma preferência por determinada forma de governo e assumiu um caráter político não apenas governamental, mas que interferia diretamente nos segmentos sociais estabelecidos desde a monarquia.
Cinco anos depois de a República ter sido proclamada, próximo à cidade de Passo Fundo, em meio ao mato, a morte de quase mil homens decide a sorte do movimento armado que já caminhava livremente pelo país e ultrapassava as fronteiras brasileiras, contaminando o Uruguai e a Argentina. No Distrito de Pulador, a batalha mais sangrenta da revolução dizima combatentes. O sangue pelo campo, as armas espalhadas, os corpos pelo chão. Quem sobreviveu escondeu-se nos campos próximos. Em menor número, os maragatos sofreram perdas decisivas para a continuação do movimento revolucionário. Enfraquecidos, anunciaram a paz depois de um ano e contribuíram, de forma definitiva, para a consolidação da República e da política atual. A importância histórica da Batalha do Pulador se dá na percepção de que a história se perpetua na atualidade e influencia fortemente nas ramificações sociais e culturais da cidade.
[stextbox id=”custom” caption=”Encenação da Batalha do Pulador”] A Batalha do Pulador é encenada, anualmente, no mesmo local onde aconteceu. O Distrito de Pulador é um convite ao pensamento e à lembrança de um momento quando homens deram a vida pela causa na qual acreditavam. Em 2012, a encenação da Batalha do Pulador aconteceu no último domingo, dia 5. Cerca de 15 mil pessoas direcionavam olhares e atenção para a luta que acontecia ali, da mesma maneira como no passado. No início da apresentação, Davis Souza, comandante do Grupo Cultural e Tradicionalista Cavaleiros do Mercosul, anuncia a lembrança: “estes mesmos campos, que há mais de cem anos viram brotar sangue dos combatentes, hoje são cobertos de cordialidade, amizade e alegria”. Na lembrança desse acontecimento, se envolvem atores, comunidade e a própria prefeitura. [/stextbox]
Veja imagens da encenação ocorrida no último domingo, 05 de agosto, deste ano. Fotografias/Fabiana Beltrami
