Eu e meu jaleco

Funcionárias da Faculdade de Odontologia da UPF

Pesquisa aponta que pessoas que trabalham usando jaleco, realizam tarefas de maneira mais precisa.

 Quem nunca viu inteligência e sabedoria na figura de um médico, ou de um cientista? Em suas infindáveis pesquisas sobre o comportamento humano, os britânicos, agora da universidade de Northwestern, descobriram mais essa curiosidade. Dizem eles, que quem trabalha vestindo uniforme branco, se acha mais inteligente e capaz. E ainda realiza suas tarefas com mais precisão.. Contudo, é preciso que a roupa esteja associada com a imagem de um médico ou de um cientista.

Seja em laboratório ou não, Renata de Sousa Bock, que está no ensino médio, sempre quis trabalhar com alguma coisa que a fizesse vestir um jaleco. “Eu sempre quis trabalhar de jaleco, porque a gente olha pra uma pessoa vestida de branco, e já imagina que ela seja um profissional de sucesso. Quais as pessoas que vestem branco? Todos os profissionais da área da saúde, por exemplo, médicos, odontólogos, psicólogos, fonoaudiólogos quando trabalham na área da saúde. A gente sabe que foram pessoas que tiveram um nível acadêmico superior”. Renata pensa em prestar vestibular para ciências biológicas e realizar o sonho de ter seu jaleco um dia.

Alunos nas clínicas de odontologia

Quem já está na faculdade, e usa jaleco branco há tempos, é Ana Moreira. A estudante de engenharia ambiental percebe que usar um uniforme diferente reflete em seu trabalho. “É bem mais interessante trabalhar usando jaleco. Tu se sente mais importante usando roupa branca, fazendo o que tu “ta” fazendo. Mais cientista de verdade, e com mais seriedade, fica mais interessante. Tu se sente influenciado pelas outras pessoas que estão usando roupa branca ao teu redor, tu se sente mais interessado”. Ana faz algumas matérias na faculdade, onde é necessário o uso de jaleco apropriado, e assim, percebe que um tipo roupa esta associada a um tipo de trabalho ou conhecimento específico.

Os seres humanos pensantes em sociedade aprendem a relacionar símbolos que podem ter poder sobre suas ações. Acontece a mesma coisa com a diferenciação de pessoas dentro dos círculos de relacionamento que existem na nossa sociedade. As pessoas graduam e seccionam trabalhos e responsabilidades, e incumbimos uma identificação de poder ou de atribuição de qualidades, de acordo com a roupa que cada profissional usa em seu trabalho.

“O uniforme, a farda, são componentes importantes da imagem social da profissão, em termos externos, em termos sociais de uma maneira geral. E, internamente, também nos comprometem com as nossas atitudes enquanto profissional”. A psicóloga, Dra. Ciomara Benincá, nos conta como uma roupa pode gerar reflexos. Dentro de uma sociedade baseada na imagem, a representatividade da roupa pode nos identificar e nos fazer crer de forma mais concreta no que somos.

Se na rua, ao encontrar alguém vestindo um terno ou um traje militar, de alguma forma, mudamos nossas atitudes ou compreendemos a intenção que a roupa quer causar, a mensagem que a roupa diz da pessoa que a veste, essa intenção está explicada na voz da semióloga e estudiosa do sentido das coisas, Goretti Bittencourt. “A pessoa que olha, autoriza simbolicamente, esse sujeito a ser o que ele é. Quer dizer, eu é que te emposso do teu direito de ser aquilo que tu quer ser. E no momento em que eu te vejo de jaleco branco, a minha postura muda diante a você. O tratamento é diferente, porque existe uma simbologia investida nisso que eu estou enxergando”.  Segundo a pesquisadora, o poder de representatividade do trabalho, está na roupa da classe que a veste.

Os testes do estudo e a conclusão

Resta saber, como os pesquisadores ingleses descobriram esta novidade. Em um teste, pediram para voluntários vestirem jalecos brancos, da mesma forma como os médicos fazem, e em seguida mediram sua capacidade de concentração. Aqueles que estavam uniformizados acertaram duas vezes mais as tarefas. Com isso, o estudo prova que vestir roupa de cientista pode ter influência sobre nossas atividades.

As conclusões de Ana e de Renata, que são confirmadas pelos especialistas, garantem a validade do estudo. Segundo a Dra. Ciomara, médicos e cientistas, depois que vestem seus jalecos, mudam a forma com que encaram o trabalho. “O jaleco branco entra como parte integrante da identidade profissional. E quando a pessoa veste esse jaleco, ela assume sua identidade profissional por completo”, explica a especialista.

Mas vale um alerta: o estudo mostrou que, quando as pessoas associavam o jaleco branco a um artista plástico, não tinham o mesmo resultado no final do teste. Não havia acréscimo de habilidades ao que se estava realizando no momento. Segundo Hajo Adam e Adam Galisnky, autores da pesquisa, isso indica que a peça de roupa utilizada, tem influência direta na experiência física do trabalho.

Rolar para cima