A arte como terapia

Componente importante na expressão de sentimentos, a arte também pode ser uma grande aliada em tratamentos psicológicos 

Um pincel na mão e um turbilhão de emoções a serem expressas. A cena faz parte das tardes de quinta-feira da dona de casa Elaine da Luz Pereira há três anos. Religiosamente, toda semana, ela tem compromisso agendado. A atividade é um lazer e junto com as ferramentas estão sentimentos, ideias e percepções de mundo. Uma oficina de arteterapia preenche esse breve espaço de tempo e traz a Elaine um encontro bem familiar e, ao mesmo tempo distante, com a própria identidade.

A arte é levada como terapia aos atendidos pelo Centro de Atenção Psicossocial Nosso espaço

Seja nas paredes das cavernas ou nos quadros de pintura contemporânea, desde os primórdios da humanidade, a arte tem sido um refúgio para expressão de medos, convicções e para mostrar ao mundo o que se está sentido. A arte também faz parte da cultura e ajuda a contar a história de um povo, tendo ainda uma contribuição importante no tratamento de transtornos psicológicos. Assim, Elaine está inserida nesse contexto ao integrar o grupo que participa de oficina de arteterapia no Centro de Atenção Psicossocial de Passo Fundo – Caps Nosso Espaço. O local faz jus ao nome e leva aos atendidos a oportunidade de manifestar emoções e promove a reinserção social.

Para analisar as contribuições que atividades ligadas à arte trazem ao tratamento desses pacientes, uma pesquisa é desenvolvida pela Universidade de Passo Fundo. O grupo formado por professores e alunos dos cursos de Artes Visuais, pós-graduação em arte-terapia e do mestrado em Educação, desenvolve interpretações dessas produções artísticas. O objetivo é saber o que representam no tratamento e o que está sendo  expressado a partir de desenhos, pinturas em tecido, modelagem em argila, bordado e colagens, conforme a coordenadora da pesquisa, professora Graciela Ormezzano.  “Queríamos saber como isso leva a alguma contribuição, se provoca alguma transformação social, enfim, qual é a importância disso para essas pessoas”.

Resultados positivos

A pesquisa analisa questões da semiótica e a evolução das pessoas no tratamento, considerando aspectos sensoriais, emocionais e intuitivos. E uma avaliação prévia do trabalho já pode ser feita: as atividades interferem positivamente na autoestima. “Nós percebemos que, no decorrer dos encontros, elas iam mais bonitas, mais arrumadas, usando batom, brinco”, explica Graciela. Outro aspecto identificado pelos pesquisadores foi a crescente união do grupo que participa da oficina, que, ao compartilhar das mesmas experiências, consideram-se vencedoras de conflitos internos.

O sorriso de Elaine ao falar da experiência já denuncia sua satisfação. “Eu gosto de vir aqui, depois que comecei a vir não precisei mais ser internada”, conta afirmando que pretende continuar com as atividades. A arte-educadora Franciele Gallina, que integra o grupo de pesquisa, faz interpretações e avalia os resultados confirmando o que a experiência causa nas participantes. “Nós identificamos dimensões no trabalho que trata do cuidado de si, levando em conta a importância em estar em paz consigo mesmas, do cuidado com o outro, e do cuidado com o universo”, explica.

Um dos tópicos principais identificados foi o da espiritualidade. “Desenvolver atividades que possibilitem expressar emoções e transcender nesse sentido devolve a elas a esperança de um convívio social”, acredita Franciele, que também explica que a história de vida de cada pessoa vai influenciar nas manifestações. Experiências, que conforme ela, podem ter sido originadas na infância.

A coordenadora do Caps, Clara Salles Bastos, vê nas atividades de arteterapia um olhar para o sofrimento psíquico. “Trabalhando com um paciente que está em transtorno psíquico grave, conseguindo trabalhar a autoestima e no sentido de ele se sentir capaz, de trocar ideia com o colega que está ali ao lado fazendo um trabalho semelhante, traz uma motivação e possibilita que elas evoluam no tratamento”.

A partir do trabalho, o grupo vai levar as atividades a outros espaços de sociabilidade. A arte, assim, é um mecanismo importante de confirmação de identidades, demonstração da espiritualidade e principalmente, contribuindo na busca pela verdadeira felicidade, aquela que não pode ser vista, mas que é fundamental a qualquer ser humano: o bem-estar.

Rolar para cima